Clara sempre foi a menina certinha. Passou no colégio com as melhores notas, entrou na faculdade de Engenharia Civil e logo no segundo ano já estava estagiando em uma grande empresa. Uma viagem, como todas as outras para visitar a sua família, quebra com todos os conceitos que ela já havia formulado. Tequila, Jogos; é um conto dividido em duas partes. É romance, é picante, surpreendente. Vale a pena dar uma conferida...
Eu esperava que estivesse claro para os dois. Ambas as partes concordando que aquilo foi um grande erro, nada mais. Bebemos demais, falamos demais e agimos só e completamente por impulso. Era isso, um impulso. Um simples, grande e maldito impulso agravado pelo álcool que deveria ser esquecido. Ou nos seguiria pelo resto de nossas vidas.
Não estaríamos em uma situação tão desagradável agora se não fosse pela tequila. Maldita bebida mexicana.
Aparentemente fingir que não me lembrava de nada não adiantou para amenizar o clima que rondava a mesa e se enroscava em minhas pernas feito um gato manhoso. Ele nem havia chegado a me direcionar um olhar durante todo o jantar e isso já estava começando a me deixar preocupada. Não era típico dele não fazer joguinhos, principalmente com a vantagem que eu o tinha dado. Então ou ele estava ensaiando uma amnésia alcoólica como eu estava, ou alguma idéia estava se formando por trás daquele sorriso amarelo.
Implorei, pelo amor de Deus, seja encenação.
Fui arrancada do meu desespero silencioso pelo som irritante de alguma cadeira sendo arrastada para trás no chão de madeira. Como a conversa havia parado por completo, sem que eu houvesse notado, o som ecoou por toda a sala fazendo todos se virarem pra quem tivesse se levantado.
Todos olharam pra ele.
Mas a atenção de todos logo caiu sobre mim assim que larguei sem querer os talheres no prato, causando outro barulho irritante. O eco pareceu ainda maior.
_ Vou ao banheiro – Nicolas declarou, reclamando a atenção para si novamente.
Ouvi um comentário sobre como era dispensável anunciar esse tipo de coisa, seguido de uma piadinha. Num segundo o clima pesado que e estranho que tinha se instalado se dissipou e o pessoal começou a fazer o típico barulho de pessoas jantando.
Forcei meus olhos a pararem de fitar minhas mãos – que tremiam ligeiramente – para encará-lo.
Arfei inconscientemente.
Ele havia, além de devolvido meu olhar na mesma intensidade, piscado e sorriso de lado pra mim antes de sair pelo corredor.
Desesperada, percorri cada rosto da mesa, implorando para que ninguém mais tivesse percebido aquele gesto. A droga daquela piscada e daquele sorriso perfeito. Mas aparentemente só para mim o tempo parecia estar se movendo em câmera lenta.
Para o resto do mundo a fome e o peru natalino eram mais interessantes do que o fato do meu primo ter acabado de piscar sugestivamente pra mim. Claramente pedindo para que eu o seguisse.
Relaxe, aconselhei a mim mesmo. Ele só está jogando de novo, ele sempre joga. Relaxe e se deixe dominar pelo clima natalino. Talvez ele tenha desenvolvido uma espécie de tique-nervoso sedutor e enigmático nas últimas vinte e quatro horas. Não precisa ficar fantasiando coisas assim.
Meu estômago não engoliu essa.
Porque em algum lugar muito fundo dentro de mim uma sensação fazia graça da situação. Porque era tão ridículo. Eu queria levantar a bunda daquela cadeira, dar qualquer desculpa e sair atrás dele. A vontade de fazer isso crescia descontroladamente dentro de mim e era tanta que tive vontade de rir. Aquilo era tão ridículo!
Mas antes que a vontade vencesse minha força de vontade, ou antes que eu tivesse tempo de começar a rir descontroladamente de nervoso, ele voltou.
E voltou puto comigo.
Fuzilou meu lugar com um único olhar mortífero antes de colocar novamente a máscara imparcial que ele vinha usando toda a ceia natalina. Dessa vez eu nem me dei o trabalho de checar se alguém mais tinha visto. Estava claro que aquele jogo era jogado só por dois.
Ele não tinha o direito de estar bravo comigo. Típico, pensei.
_ Não vai comer, Clara? – meu pai me perguntou, colocando a mão sobre a minha mão e me fazendo sobressaltar.
Assenti sem falar nada. Se tentasse responder minha voz sairia mais como um guincho do que como uma voz propriamente dita. Assim fui obrigada a enfiar o jantar goela abaixo para evitar nossas perguntas e olhares ao meu lugar.
A conversa continuou inofensiva por mais alguns minutos, alheia ao meu desespero interno e a minha falha tentativa de engolir o peru.
_ Estou satisfeito – a voz dele me atraiu como um imã, mesmo ele não tendo falado muito alto.
O maldito estava, de longe, muito mais confortável do que eu. Levando em conta, claro, todos os meus músculos tencionados e o pobre garfo na minha mão sendo torturado.
_ Clara, será que você poderia dar aquela olhada no meu computador agora?
Olhei para ele incrédula, desconfiando que ele estivesse realmente falando comigo. Quero dizer, fala sério. Ele era louco?
_ Você está bem? – minha tia Rosa perguntou.
Estou bem, claro. Só um pouco assustada já que meu primo louco estava falando comigo depois de meses sem olhar na minha cara. Bem, claro, já que esse mesmo primo tinha proporcionado a melhor noite da minha vida na noite passada e não está nem ao menos se importando em me dar explicações.
_ Estou ótima, tia Rosa. Só com um pouco de indigestão, eu acho – respondi meio seca.
Só então percebi que Nicolas havia se levantado da mesa e ainda estava esperando a minha resposta.
_ Não, Nich – respondi ainda mais seca, de repente com raiva.
_ Por favor – ele pediu com a maior cara de anjo, sorrindo – Você não vai fazer outra coisa agora, vai?
Não existe um ditado que diz algo sobre o que você não pede sorrindo que eu não faço chorando?
Realmente não devia. Talvez fosse a curiosidade excessiva da minha tia que praticamente gritava “o que está acontecendo aqui?”. Talvez fosse aquele desejo estranho e masoquista de sempre fazer o que ele manda acabando por me dominar completamente. Ou talvez fosse só eu, quebrando algumas regras. De um jeito eu de outro era as minhas pernas que estavam se movendo.
Enquanto eu andava os detalhes da última noite bombardeavam minha mente em flashes de memória. Detalhes que eu faria muito, muito bem se os esquecesse. Detalhes que me faziam meu estômago gelar cada vez que surgiam. Memórias boas, mas não tão boas. Mesmo assim eu seguia em frente.
O barulho da sala de jantar foi ficando pra trás, deixando em seu lugar só um silêncio incômodo. Tudo o que eu ouvia agora eram os meus pensamentos, e eles não eram lá muito encorajadores.
Eles não me faziam parar de tremer.
Topei com a porta do quarto dele fechada. Nenhuma luz vazava pelas frestas. Nem por baixo, nem pelos lados.
_ O que estou fazendo? – murmurei, minha voz quase não saindo.
Encostei a mão na maçaneta fria. Dei uma olhada no outro lado do corredor. Ele parecia mil vezes maior, e a luz amarela e as vozes pareciam pertencer à outra dimensão. Na em que eu estava só havia a minha mão trêmula e a porta fechada na minha frente.
Coloquei a outra mão na madeira da porta. Porra, eu não vou conseguir. Sou muito moral pra fazer isso, conclui amargamente engolindo a saliva. Se eu não fizesse isso, quando teria uma nova chance? Dali a um ano, quando voltasse pra Juiz de Fora e visse Nicolas novamente? Se o visse novamente?
Derrotada, apoiei a cabeça na mão que estava na porta.
Ela abriu.
Recuei imediatamente meio passo, congelada de medo. Merda, merda, merda, etc. A maldita porta só estava encostada. Tudo bem, respirei tentando me controlar. Ainda está tudo escuro lá dentro, não pode ter ninguém lá.
_ Nicolas? – perguntei numa voz miseravelmente cortada.
Não houve resposta.
Sem saber se devia considerar aquilo uma coisa boa ou ruim, dei um passo em direção ao quarto escuro.
_ Nicolas? – perguntei novamente, segurando na maçaneta. Abri um pouco mais a porta e entrei parcialmente no quarto negro.
Foi o bastante.
Alguma coisa fria agarrou minha mão e me puxou violentamente pra dentro.
Ouvi algo bater atrás de mim, mas não reconheci o que era até meu corpo ser lançado com força contra a porta fechada. Meu grito foi cortado por uma mão firme tapando a minha boca. Meu corpo estava prensado por outro corpo contra a madeira. Minhas mãos estavam presas em algum lugar daquela confusão.
Eu estava imobilizada.
Até o tampão da minha boca ser preenchida pela boca dele na minha no mesmo instante. Até um calor conhecido percorrer cada milímetro do meu corpo.
Merda, Nicolas.
Seu corpo se posicionara de uma forma que impedia qualquer saída. Não que alguém quisesse realmente sair. Tentei lutar contra ele, me debatendo e tentando achar minhas mãos pra empurrá-lo só por alguns segundos. Lutar contra você mesma geralmente não dá resultados.
Eu perdi.
Quando percebeu que eu finalmente havia cedido e me entregado ao seu beijo, ele soltou meus lábios e colocou as mãos na minha cintura delicadamente.
Então já não havia contra quem mais lutar.
Entrelacei meus dedos em seus cabelos e o beijei. Com vontade. Ele apertou o abraço na minha cintura, me erguendo ligeiramente de forma que as minhas pernas pudessem passar pelos seus quadris. Senti uma risada abafada vindo dele, que logo foi abafada por um gemido.
Então já não havia mais limites.
Nada além da sua língua e das suas mãos nas minhas coxas.
Só quando ele passou pro meu pescoço eu percebi que os botões da minha blusa estavam abertos. Mas não importei. Naquele momento eu só tinha a consciência de que precisava de ar, só que não conseguia respirar.
Puxei seu rosto pra cima, procurando pelos seus lábios, e estava pronta para sugá-los.
Até ouvir batidas fortes na porta.
_ Meninos, está tudo bem aí?
Puta.
Que.
Pariu.


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