domingo, 21 de novembro de 2010

Direito de Matar "I"

_ Sei que às vezes seus compromissos noturnos podem parecer mais importantes do que a escola, só que gostaria que parasse de dormir nas minhas aulas. Quero dizer, se for possível.
_ Eu, erm...


Mas de uma hora pra outra não havia mais motivos para falar. Reconheceria aquele toque irritante, mesmo nos sonhos, de qualquer lugar no globo.
Droga de segundas-feiras.
Abafou o som irritante do despertador com a mão e se esforçou para não atirá-lo pela janela do quarto. Seria a quarta tentativa de homicídio, se o fizesse. Optou por não testar a santidade da mãe a tal ponto, mas continuou embaixo das cobertas.
Não ficaria por muito tempo e sabia disso. Ao menos não depois dos próximos cinco, quatro, três, dois um...
 Sua mãe chegou, irritada como sempre, e atirou as cobertas de cima dela pro chão.
_ Estamos só começando a semana, Marcela! Eu simplesmente não sei mais o que faço com você.
Marcela por sua vez resmungou algo inaudível. Estava casada daquele falatório de sempre sobre como ela teria que adquirir responsabilidades se quisesse ser algo na vida. Conteve outra vez o impulso de perguntar o que seria ser “algo na vida”. Se englobasse ficar em casa o dia inteiro se embebedando, ela estava dentro. Algo fora desse contexto não a interessavam nem um pouco.
_ ... e não vou deixar você faltar mais uma semana – conclui Elisabete.
_ É segunda-feira. É madrugada. Não estou a fim de sair da cama, e muito menos de ir pra escola. Aliás, não estou a fim de fazer nada hoje – a garota rebateu tentando se aquecer, sem sucesso.
_ Não me interessa o que você, abre aspas, está a fim de fazer, fecha aspas. Agora, saia dessa cama e vá para o banheiro se arrumar, ou vai chegar atrasada. E nem pense nessa possibilidade.
A discussão foi encerrada com o baque surdo da porta dona Elisabeth bateu a porta. Ela era tão inacreditável! Não sabia argumentar, ou tentar convencê-la pacificamente de participar do controlador de mentes que chamavam de escola. Não, nunca fora muito adepta de teorias conspiratórias hippies, mas usava aquele argumento quando não encontrava nenhum. Na verdade, nem prestava muita atenção no que realmente ensinavam na escola, por isso nunca entendia o motivo de levantar cedo.
Seguiu para o banheiro resignada. Não havia razão para discutir com sua mãe ninharias dispensáveis. Era, afinal, melhor manter sua moral alta para problemas futuros. Claro que esse “futuro” estava bem próximo – existem coisas como... bem, que não são fáceis de se esconder.
 Abriu a pasta de dente se perguntando se havia algo pior do que acordar cedo. Espinhas! Aquelas malditas espinhas brotando de todos os lugares mais improváveis. Ah, droga! Precisaria de muitos quilos de corretivo para esmagar aqueles pequenos vulcões em erupção. Saiu xingando toda a geração de adolescentes que inventou os hormônios. Porque, segundo seu professor de biologia (totalmente demais e lindo, Ferrari) grande parte das questões existenciais são causadas somente por pequenas estruturas protéicas: hormônios.

Pegou a mochila sobre a estante e fugiu em disparada pela porta da cozinha. Fugiu, sim. Tudo para pular o blábláblá matinal sobre como o café da manhã era a refeição mais importante do dia da sua mãe, e foi direto para o elevador.
Deu de cara com o boy next door. Que, na realidade, era mais ou menos um boy up door. Ele morava no apartamento de cima, e era ridiculamente atraente. Aquele ridículo que os adolescentes geralmente usam quando não querem admitir que algo seja realmente legal, o que no caso é o fato de que o vizinho de cima era totalmente lindo.
 Pela segunda vez no dia culpou os hormônios por corar instantaneamente e entrou no cubículo apertado em silêncio.
_ Bom dia, Mel – ele a chamava assim porque, segundo ele, Marcela não era um nome que se encaixava com ela.
Marcela detestava particularmente o apelido Mel. Fato que ele conhecia muito bem - e talvez se lembrasse dele todas as vezes que a chamava assim. Só para vê-la ficar irritada.
Ela não seria capaz de se lembrar (estava tão bêbada que podia pular da sacada do prédio achando que era um trampolim), mas o apelido surgiu por pura ironia. Basta dizer que Marcela não é a pessoa mais educada e polida quando está no grau. Assim, Mel se encaixa perfeitamente com seu humor, e personalidade.
_ Péssimo dia, Watson – Marcela retribui o elogio e escondeu um sorriso nervoso.
Watson não havia sido de fato uma idéia dela. Não sabia ao certo quando descobriu que poderia chamá-lo assim todas as vezes que ele usasse o nome “Mel” para ela, que ele se sentiria tão irritado quanto. Talvez tenha ouvido um colega mais sacana, ou até mesmo inventado por si só. Não importava. Tudo o que ela queria saber é que sempre que o chamava de Watson ele passava a mão nos cabelos e dava aquele sorriso desconfortável que ela achava super sexy.
Por aí já dá pra entender que a história dos apelidos é tão confusa quanto a própria história deles.

O que aconteceu com os dois, e naquele momento ainda acontecia, era tão complexo e tão simples que Marcela se perguntava porque diabos não resolvia aquela merda de uma vez. Isso acontecia sempre que se encontrava com ele no elevador ou em qualquer lugar que fosse. Mas era complicado e simples ao mesmo tempo.
Era complicado porque Tomás tinha uma namorada. Daquelas que, desde que Marcela se conhece por gente, esteve com ele – ou talvez nem tanto tempo assim. O nome da garota era Ray, e era bonita de doer. A verdade era que Marcela sentia tanta inveja daqueles cabelos pretos e daqueles olhos verdes que chegava a fazer mal às vezes. Não que ela admitisse isso, Marcela geralmente não admite coisas muito fácil.
E era simples porque o envolvimento dos dois era puramente superficial e fácil de acabar.
Alguns meses atrás ambos cederam. Estavam trocando olhares e palavras cheias de duplo-sentido fazia algum tempo, e então acabou acontecendo. Estavam no salão de festa do prédio, bebendo e falando idiotices (ficaram muito amigos, afinal se viam todos os dias) quando Marcela simplesmente o beijou. Bem assim, na lata.
Depois acabaram se pegando mais vezes, mas sempre em surdina. O garoto tinha uma namorada e uma reputação pra zelar. Ela também. Quer dizer, uma reputação – ainda não nascera o homem capaz de suportar seu gênio estranho.
Só que toda vez que tentava resistir a ele, ou até mesmo conversar, Marcela não conseguia. Eles sempre acabavam no amasso. Algo quase totalmente físico, ela imaginava.
Essas escapadas para ficar com um homem mais velho e comprometido eram parte do motivo que ela deveria manter a moral muito, muito alta com a mãe.
Assim, era fácil porque ela podia simplesmente acabar com tudo aquilo – e não se meter mais em confusões.

_ Ressaca? – Tomás perguntou, enquanto desciam os cinco andares.
_ Talvez .
_ Hum, já entendi. Você é lua-nova hoje. Não quer que eu apareça.
Ela ficou calada.
Também odiava aquela mania que ele tinha de compará-la às fases da lua. Pensando melhor, ela odiava basicamente tudo não-físico nele.
_ Vai continuar me ignorando, senhorita Mel? Porque desse jeito talvez eu acabe aparecendo no seu apartamento com duas garrafas de Ice na mão e acabe tendo que beber tudo sozinho se você bater a porta na minha cara.
_ Você é um canalha, que trai a namorada – Marcela respondeu em um tom neutro, como se estivesse comentando sobre ações estáveis na bolsa de valores. Depois emendou um pouco mais brava - Não, não acho que queira alguém assim na minha casa. E, estou pedindo pela última vez, pare de me comparar com as fases da lua.
_ Às nove horas está bom?
_ Com certeza – Marcela confirmou, sorrindo.
Então a porta do elevador se abriu e eles saíram naturalmente, como sempre faziam. Ninguém nunca desconfiaria de nada, a menos que um dos dois quisesse.

_ Marcela! – alguém gritou do outro lado da rua.
A pessoinha abanava a mão freneticamente tentando chamar atenção. Como se estivesse em meio a uma multidão em uma rua no centro da China, e não em frente a um dos poucos prédios, as seis e quarenta e cinco da manhã, em um bairro calmo de Paraíso.
E Marcela estava com pouca paciência para amigas histéricas àquela hora da madrugada.
_ Oi, Camila. Como está seu dia? – suspirou, tentando parecer razoavelmente feliz.
Não precisava fazer muito esforço. Camila estava geralmente muito no mundo da lua para perceber algo tão sutil quanto uma mudança de humor.


O que não acontece com Joan.
_ O que inferno aconteceu contigo, M.? – Joan perguntou assim que encontrou com a amiga nas escadas.
_ Não aconteceu nada comigo, “inferno”.
_ Ah, meu Deus. Ontem foi domingo, não foi? Você saiu com... – Joan abaixou a voz e conferiu se não havia ninguém por perto antes de continuar – Watson!
Ao contrário de outras garotas, Joan não entrava em pânico – ou o que quer que se chame quando meninas descobrem uma fofoca quente. Ela simplesmente respirava fundo, como estava fazendo ali, e contava até dez.
Porque sempre que Marcela se encontrava com Tomás, bebia. E sempre que bebia, se ferrava.
_ Não encontrei com ele, sua louca – Marcela continuava mentindo.
_  Você está vermelha, com olheiras, com o cabelo desarrumado e está falando baixo e roucamente. Ou seja, você se encontrou com ele ontem sim. Dio mio, quando é que você vai colocar um fim nisso?
_ Ei, eu nunca comecei nada. Não tem como se colocar um fim em algo que não começou, certo?
_ Você o beijou – Joan disse em seguida.
_ Ou não. Quem sabe? Eu estava bêbada demais, não consigo me lembrar de muita coisa.
Joan encarou a amiga por baixo dos óculos de armação vermelha, seus olhos chegaram a faiscar reprovação. Nunca aprovara aquela coisa louca que Marcela parecia precisar pra viver. O que incluía beber, beijar caras desconhecidos, caras comprometidos, mentir para sua mãe e algo mais.
Marcela já nunca achou muito saudável ler um livro por semana, prestar atenção nas aulas e viver pro futuro ao invés do presente. Quem dava a garantia de que existiria o amanhã?
_ Eu já sei todo aquele discurso, e você já sabe que é inútil – Marcela cortou Joan quando percebeu que ela começaria a falar.
_ Um dia você vai ter que acabar com Tomás, e vai ser pior se esse dia demorar.
_ Joan, é só um jogo. Diversão, já ouviu falar? Devia tentar às vezes – Marcela ironizou, impaciente.
_ Está nervosa de novo – Joan apontou, acusando a mentira - Está se apaixonando por ele, e o pior é que sabe disso.
_ Eu não sei. E que tal trocarmos de assunto? Você é um porre quando fica dando conselhos.
_ Estarei sempre aqui quando precisar de um bom conselho.
_ Só pediria conselhos pra você se estivesse drogada – Marcela disse, colocando a mochila em cima da carteira.
_ Que ótimo, posso te esperar em breve – Joan refutou com uma piscadela, também se sentando.
Não conversaram pelos próximos dois horários.
Sem nada pra fazer, Marcela puxou o capuz do moletom pra frente do rosto e afundou na cadeira. Quem sabe não conseguisse dormir por algum tempo até bater o sinal de aviso pro recreio?

Algum tempo depois Marcela tentaria se lembrar desse dia, ou dessa hora – sem saber exatamente que era essa a hora. A seqüência começa aqui, na aula de biologia (com o professor totalmente lindo e demais, Ferrari) chamando sua atenção. Claro que, como estava dormindo, nunca seria capaz de se lembrar. O primeiro incidente, onde tudo começa. Às vezes é importante, para problemas futuros.
O ponto zero.

O professor Ferrari deixou cair um livro pesado (muito provavelmente a Teoria da Evolução, de Darwin) sobre a mesa dela, fazendo-a acordar de um sono pesado que entrara no final do segundo horário e só saía agora, no final do terceiro.
Meio grogue e com as vistas embaçadas, Marcela encarou o rosto perfeito e furioso do professor. Ele estava do lado da sua mesa, e algo na sua posição a fez lembrar de algo. Não se lembrou o que. Chegou a notar o desenho estampado na sua blusa, um desenho infantil e antigo, e isso também despertou sua atenção. Só que ainda estava metade no sonho que estava tendo, e por isso só percebeu que ele falava segundos depois.
_ Sei que às vezes seus compromissos noturnos podem parecer mais importantes do que a escola, só que gostaria que parasse de dormir nas minhas aulas. Quero dizer, se for possível.
_ Eu, erm...
Mas, de uma hora pra outra, não havia motivos pra responder.
Tudo naquela cena se encaixava perfeitamente com... com alguma coisa. A posição de Ferrari, sua roupa, sua feição, até a sua fala! Essa cena já aconteceu antes, foi o que ela concluiu. Até sua própria fala batia com a de antes.
Não sabia explicar como, ou por quê, mas tudo aquilo já havia acontecido. Em algum lugar do passado.
Todo aquele jorro de pensamentos que se seguiu com uma só frase a deixou tonta. A sirene alta para o intervalo só fez piorar o black-out que Marcela sofreu. Ficou muito pouco tempo apagada, como se seu cérebro precisasse daqueles segundos para voltar ao lugar.
 Olhou ao seu redor calmamente, procurando o professor. Ele não estava mais na sala. Aliás, metade da sala já havia saído pro intervalo. Ferrari deveria ter encarado seu silêncio como sempre: coisa de Marcela.
Joan também não estava ali, graças a Deus. Ela sacaria o que teria acontecido facilmente, o que não era uma coisa boa. Quero dizer, milhões de especulações sobre um incidente simples e outras milhões de conclusões sobre o que poderia ser.
Só que aquela sensação daquela cena já ter acontecido continuava forte.
_ Marcela, você vai vomitar? Por que parece que você vai vomitar – Anita surgiu do nada, com um tom meio receoso.
Compreensível: ninguém gosta de vômito espalhado pelo uniforme.
_ Não vou vomitar – Marcela a tranqüilizou.
_ Está passando mal?
_ Ah, merda, acho que sim – ela concluiu quando tentou se levantar e sua visão ficou turva.
_ Fique sentada, vou buscar um copo d’água. Depois você me conta o que aconteceu.
Anita voltou segundos depois com a água. Esperou pacientemente Marcela se recompor e decidir começar a falar. Daquele jeito bem Anita, sem dizer uma palavra – só pedindo com o olhar.
Marcela se sentiu bem melhor com a água, respirou fundo e tentou colocar os pensamento na lugar.
_ Quando o professor Ferrari chamou a minha atenção, aconteceu alguma coisa e... eu fiquei meio zonza – explicou.
_ Ele geralmente causa esse efeito nas garotas.
Ambas riram um pouco.
_ Não, boba. Eu senti como se já tivesse visto aquela cena antes, entende?
_ Claro que sim.
Marcela encarou a amiga estupefata. Nunca esperaria que ela compreendesse tão simplesmente o que havia acontecido. Afinal, nem ela própria compreendia muito bem.
_ Foi um dejá vù – Anita explicou calmamente, mas como a fisionomia da Marcela não mudou muito, completou – Acontece às vezes. Sabe, é como se já tivéssemos sonhado com aquilo.
_ Bem isso!
_ Então, não há motivos pra pânico. Esqueça – ela aconselhou.
Anita levantou-se sutilmente da cadeira e desapareceu tão facilmente quanto apareceu. Todos já estavam acostumados com suas fugas sem motivos.

Foi exatamente isto o que Marcela fez. Esqueceu o que aconteceu naquela aula de biologia, pra sempre. São poucas as pessoas que tem a capacidade de esquecer tão rapidamente certos assuntos. Principalmente assuntos que são de extrema importância, mesmo que não saibam disso.
O segundo “incidente” aconteceu na mesma tarde daquela segunda-feira. Na verdade, o segundo sonho que precederia o tal.  Se ela soubesse o que sabemos, provavelmente não deixaria o dever de matemática de lado pra poder dormir à tarde.
Mas matemática é algo realmente entediante. Todas aquelas fórmulas, e contas, e carneirinhos. Chato. Sonolento...

Aquilo é realmente um ônibus? – foi a primeira coisa que ela pensou. Estava indo na direção dela e com certeza a arremessaria e quem quer que estivesse junto bem longe. Era Anita, junto dela. Agora podia ver claramente. Tomás também estava ali, segurando o braço dela.
E o ônibus continuava vindo.
Ele dá uma guinada para longe deles. O suspiro de alívio nem chegou a sair – o ônibus agora seguia em direção... bem, em direção a que?

Acordou com o bipe do celular. Ah, que ótimo: cinco mensagens de texto e três ligações. Todas de Anita (uma pessoa que não costuma ligar tantas vezes). Marcara de se encontrar com ela na sorveteria, e Marcela acabou dormindo muito tempo. Três horas seguidas – ela constatou olhando pro celular.
Porcaria.
Pegou um casaco e saiu de casa como um raio.


A tenente Sônia estava juntando os papéis para, finalmente, sair para uma folga de dois dias – sábado e domingo, quando o telefone tocou. Olhou para os lados, as mãos cheias de documentos e formulários de B.O; mas nenhuma daqueles folgados estava em seus lugares no plantão do 190.
Droga, já eram sete horas. Deveria estar em casa à uma hora atrás. Suspirou, jogou os arquivos em cima da mesa e atendeu ao telefone. Pegou uma caneta casualmente. Então prestou mais atenção, era importante – grave. Sim, estava escutando bem. Anotou o lugar, a hora.
E percebeu que mais uma vez aquela folga seria adiada.


Marcela só saiu da sorveteria depois das dez horas da noite. Tarde no conceito da sua mãe – e talvez no de toda a sociedade tradicional – e só o começo da noite pra ela. Uma noite que não terminaria muito bem só que, por enquanto, Marcela só se preocupava com Gustavo.
Porque Anita simplesmente fora embora deixando Gustavo, seu namorado, com Marcela, sozinho na sorveteria.
_ Desculpe, pessoal. Tenho que sair agora – foi o que ela disse.
E simplesmente saiu. Assim mesmo, sem nenhuma outra explicação. Gustavo só ficou olhando a namorada virar a esquina, sem dizer mais nada. Bom, não havia o que comentar de qualquer forma.
_ Isso foi... – Gustavo começou, tentando não falar muito.
Palavras, perto de Marcela, devem ser medidas com um conta-gotas. Ele já havia aprendido a lição.
_ Muito estranho – a garota completou quando percebeu o desconcerto dele.
Então entraram em um silêncio desconfortável por alguns minutos. Ninguém sabia ao certo o que dizer, se era melhor irem embora. Gustavo e ela não eram o que podia ser chamado de “melhores amigos”. Eles não se suportavam. Mesmo assim, Marcela foi quem quebrou o clima, fazendo um barulho estranho com o resto de coca-cola do copo.
Estranhamente, o som fez Gustavo criar coragem pra dizer o que estava entalado.
_ Está sendo difícil – ele confessou.
_ O quê? – Marcela fingiu ignorância.
Porque sabia sobre o que Gustavo falava. Sobre como era difícil namorar Anita – se como amiga ela já dava um trabalho do caramba, nem queria imaginar para seus namorados.

Anita era extremamente fechada com todo mundo. Muito pouco se sabia sobre sua vida pessoal, e social não tinha nenhuma. Raramente exaltava seus sentimentos e parecia não dar a mínima pra ninguém.
O que também incluí a legião de garotos que viviam atrás dela.
 Uma verdadeira legião querendo penetrar naquela fortaleza de pedra pura. Pedindo números de telefone, uma chance, um beijo, quem sabe namorar? Marcela nem queria imaginar como ela dera uma chance pra Gustavo.
Porque Anita sabia o real motivo de todas aquelas pragas infestarem sua vida, páginas na Internet e tudo o mais: sair com ela dava Ibope, popularidade. A garota mais bonita do colégio, a mais difícil, quem se arrisca?
Fosse para manter a fama de garota misteriosa, fosse porque ela era, simplesmente, assim mesmo; ela continuava a recusar os mais diversos pedidos, dos mais variados tipos de garotos.
E Gustavo nem era tão bonito assim, Marcela concluiu.
Aquele estereótipo divulgado por aí. Alto, moreno, olhos claros, porte físico avantajado, blábláblá. Não fazia o tipo da garota sentada ao seu lado. Muito menos o de Anita, julgando o pouco que Marcela a conhecia.
Pensando melhor, Anita definitivamente não tinha um “tipo” de garoto. Nem um “tipo” de agir. Bom, talvez fosse aquele ali, sentado na sorveteria, casualmente sugando um milk-shake.

Marcela pegou Gustavo encarando-a, como quem espera uma resposta. Não se lembrava nem de ter existido uma pergunta, então improvisou:
_ Ela é linda, a garota ideal – imitou o tom falso de voz que às vezes ouvia de outras garotas – Conversinha. Anita é totalmente diferente, ela é foda. Se acha que está levando lucro em sair com ela, porque vai contar pros seus amigos sobre como é ficar com Anita Garelli, esqueça. Não vale a pena lutar por ela só por fama.
Aquela resposta pareceu surpreender Gustavo, visto que ele chegou a se afastar da mesa e colocar as mãos na cabeça. Só depois de um tempo ele foi capaz de perguntar, com a voz embargada, perplexo:
_ É o que ela pensa sobre mim? Que a estou namorando por uma faminha vagabunda?
_ É o que eu penso, imbecil. É o que todo mundo pensa. Ninguém em sã consciência suportaria namorar uma menina tão fria e tão difícil de mexer.
_ Eu não quero perdê-la – Gustavo confessou meio de supetão.
Marcela foi pega de surpresa. Bem, aquilo era novo. Todos os outros haviam concordado com ela, dito que Anita era isso ou aquilo e começado a reclamar da garota. Todos foram chutados logo mais tarde.
Contrariando as expectativas, Gustavo confessou que não queria perder a namorada. Aquilo era mais no novo pra Marcela, era fascinante.
Ela o analisou por um instante, e mais tarde nem seria capaz de acreditar que realmente perguntara isto sem estar suficientemente bêbada:
_ Você a ama? Quero dizer, de verdade?
_ Amo mais do que deveria, é a verdade – ele se esquivou, percebeu que estava falando demais.
Gustavo pegou seu casaco de couro preto da cadeira e girou as chaves da moto na mão, disposto a acabar com a conversa ali. Havia se lembrado que era com Marcela com quem ele estava falando, não era confiável.
_ Quer carona? – ele ofereceu.
_ Depende; se for pra casa... não – Marcela disse, sorrindo de lado.
_ Você escolhe o destino, então. Eu tenho a noite toda.
Ela deu uma conferida rápida no relógio de pulso e sorriu novamente.
_ Então somos dois.


A porta do elevador se abriu em um clique que não seria ouvido – se fosse à tarde e o barulho exterior estivesse alto. Mas eram três horas da manhã, e o prédio estava em silêncio, portando aquele som sutil teve o estrondo de uma bomba atômica.
Ao menos foi o que Marcela sentiu quando o ouviu. Um monstrinho silencioso começou a escalar sua garganta dizendo “Está ferrada, idiota”. Milhões de desculpas já começavam a se formar em sua cabeça enquanto ela se virava para ver quem seria o pai de santo acordado altas da noite.
Automaticamente empurrou o menino que beijava pra frente, tentando criar uma distância mais ou menos legal. Também ouvindo o som, ele virou-se pra ver quem saía do elevador antes que Marcela pudesse sair de trás dele. Sentiu o corpo de Gustavo se contrair.
Agora ela precisava saber quem havia chamado o elevador pro seu andar. Tentou se esquivar e, com muito custo, conseguiu sair de trás do garoto.
                                            
Para mais uma vez topar com o boy next door, ou boy up door, Tomás. Quem a estava encarando com um sorriso sarcástico de triunfo; daqueles que se usa quando se pede truco tendo um zap nas mãos. A diferença era que ao invés de cartas ele tinha uma garrafa de Orloff na mão, e a esquerda ainda segurava o botão para manter a porta do elevador aberta.
Filho. Da. Mãe – é o que ele é; Marcela sibilou em pensamentos.
_ Ora, ora... – Tomás cantarolou – O que temos aqui?
Gustavo fitou Marcela com um pedido suplicante nos olhos de “me salve, por favor”.
É incrível como mulheres são muito mais racionais do que os homens nessas horas.
Horas em que sabem que estão totalmente ferradas.
_ Gustavo, é melhor você ir. Já está tarde e... Bem, ande logo e suma daqui – ela praticamente cuspiu a última frase.
Tomás abriu espaço para o rapaz entrar no elevador, ficou mais alguns segundos rindo de ambos, antes de sair para o corredor e deixar Gustavo, finalmente, desaparecer pelo elevador.
_ Pode me explicar, Mel? – ele pediu educadamente, mas sem deixar aquele tom zombeteiro escapar um segundo.
_ Eu não devo explicações pra ninguém, Watson. Mas, principalmente, eu não devo explicações pra você – Marcela praticamente ameaçou, só que o tom de voz no momento não permitia mais do que um sussurro fraco.
_ Pra ninguém? – Tomás continuou o jogo, falando mais baixo ainda – Nem mesmo pra uma menina de nome... Anita?
Em um movimento rápido, Marcela o prensou na parede. Ele poderia facilmente ter se esquivado, ou mesmo tirado as mãos dela de si, mas algo no olhar dela deixava claro o aviso de que era melhor não tentar nada.
_ Você não viu nada hoje. Nada, compreende? – ela falou entre os dentes.
_ Compreendo, Mel. Até o dia em que essa informação se fizer necessária – Tomás disse calmamente, pegando as mãos que estavam em seu pescoço e as segurando rente ao seu quadril.
Ele percebeu quando Marcela vacilou e arrepiou com seu toque. Aproveitou a deixa pra chegar mais perto, seus rostos quase se tocando.
_ Você está cheirando a álcool – apesar das palavras, sua voz saía mansa. Quase um ronronar – Onde esteve, Mel? Fiquei te esperando desde as nove horas... Nós tínhamos combinado hoje de manhã.
_ Por favor, Tomás, você é ridículo – mas a risada nervosa que saiu no final acabou com o tom de repreensão da voz dela.
_ Sabia que sua mãe estava preocupada com você? – ele subia as mãos para sua cintura enquanto falava, e completou com a boca no pescoço dela – Sabia que ela veio atrás de mim?
Os arrepios que percorriam sua pele toda vez que ele a tocava, misturados com o alto nível de álcool em seu sangue, já haviam tirado toda a linha de pensamento restante de seu pensamento. Marcela funcionava, naquele momento, praticamente só comandada pelos instintos.
O mesmo instinto que a fez dar um passo pra trás quando ouviu a palavra “mãe”.
_ Minha mãe, atrás de você? – ela perguntou, incapaz de somar dois mais dois.
Engana-se quem acha que mães não sabem nada sobre a vida “fora de casa” dos filhos. Sei que é cansativo repetir, mas mães têm um instinto natural. É a lei da sobrevivência, culpem Darwin.
_ Sim, ela queria saber o que eu tinha feito com a filha dela.
Ah, merda – foi o lampejo lúcido que transpassou seus pensamentos. Claro que dona Elisabete sabia, como não? Tomás, os rolos, as bebedeiras... Marcela chegou a duvidar que ela não estivesse espiando pelo olho mágico naquela hora.
_ E você sabe o que eu fiz? – Tomás insistiu diante a falta de reação da garota – Você tem uma noção do que eu fiz?
_ Espero, pro seu bem, que você tenha perguntado “quem diabos é Marcela?” – ela respondeu quase entrando em desespero.
_ Não – ele disse e riu em seguida - Falei que você estava na casa da Camila. E é onde você está agora, não é? Bom, foi o que Camila disse quando sua mãe ligou lá. Não se lembra de ter falado com ela? Ah, você tem uma memória bem fraca...
_ Você não seria louco – Marcela disse, tentando inutilmente impedir seu cérebro de chegar a conclusão que ele queria.
Tomás nunca faria nada pra ela assim, de graça.
_ Ou talvez... – Tomás embalou, ignorando o que Marcela dissera – Você preferiria a outra versão. Aquela em que você sai com o namorado da sua melhor amiga, para em todos os bares possíveis e impossíveis, chega de madrugada e, vejam só, ainda o beija na porta de casa. Melhor, você dá um amasso nele na porta da sua casa. Podemos contar essa agora, se você quiser...
_ Está me seguindo? – Marcela estreitou os olhos em uma fenda.
_ Quem está sendo ridícula agora? Eu saber as idiotices que você faz é o seu menor problema agora.
Estava bêbada, entorpecida pela presença dele, mas não louca. Raciocinava lentamente, mas via onde aquele discurso chato queria chegar. Onde Tomás queria chegar.
Porque se ela não podia entrar em casa, nem podia dormir na rua...
_ Estou te devendo uma – ela reconheceu à contra gosto – mas sei que não faz nada de graça. Odeio ficar em dívida. Mas odeio muito mais ficar em dívida contigo. Achei que tivéssemos um acordo sobre não interferir na vida particular do outro.
_ Bom, acho que acabei ajudando.
_ Mas o que espera que eu faça? Que eu vá correndo pela madrugada pedir asilo político na casa da Camila? E, Deus, minha mãe vai me fazer acordar cedo amanhã se eu entrar em casa escondida!
_ Bem... – Tomás enrolou. Passou as duas mãos nos cabelos, o que faz quando quer dizer algo difícil, importante ou... estranho de se dizer – Achei que talvez você quisesse ficar lá em casa.
O grito de “o quê??” ficou entalado. Eram três horas da manhã, o prédio dormia, estavam na porta de casa, ela estava bêbada. Não era o melhor momento pra se gritar. Passou a mensagem que queria com um olhar, e Tomás entendeu.

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