Guerra sempre é uma coisa triste. Principalmente quando se perde alguém que se ama. Catarina conta, em um capítulo, o que passou em três anos de espera. Uma one-shot envolvente e poderosa. Fez algumas pessoas chorarem, o que acho um exagero... Enfim, leia.
Só queríamos que ele chegasse em segurança em casa. Na verdade, estávamos esperando por isso por tanto tempo que mal acreditávamos que estava realmente acontecendo. Três anos. Três longos anos de espera, e espera, e espera...
Mas ele estava vindo.
Quando a mensagem chegou quase desmaiei. Só não chorei porque era forte. Porque havia uma necessidade quase irracional de ser forte. Ou isso, ou a morte. Mesmo assim ninguém compreendia; todos esperavam uma outra postura da minha parte e eu tive que decepcioná-los. Fingir que eu não me importava e que estava tudo bem. Fingia para mim mesma sobre meus sentimentos, sempre rodeada pelo medo. Medo de não suportar a dor quando a notícia chegasse.
Porque ninguém volta vivo da guerra.
A memória de quando ele partiu ainda martelava na minha cabeça mesmo depois dos anos. E parecia mais forte naquele momento. O som do motor do carro e as badaladas do relógio da igreja. Não sei por que me lembro mais dos sons. Seis horas, um ano depois de a guerra ser declarada.
Chegamos a pensar que ele não seria convocado, a guerra estava acabando quando ele foi chamado. Ou foi o que pensamos. Naquela altura até o Papa seria convocado se estivesse em condições de lutar.
Só se tinha uma certeza: ninguém voltava vivo.
Pedro me deu o último beijo antes de entrar no carro. Foi lento, pesaroso. Ele apertava a minha cintura com firmeza a ponto de me erguer um pouco. Quando descansou a cabeça no meu ombro percebi que ele também não chorava. Havíamos aceitado o destino dias antes.
_ Eu vou voltar, por você.
Foi tudo o que ele prometera. Eu o havia beijado de leve, sem falar nada. Não dava pra mentir que acreditava nele. Ele mentia, eu já não conseguia fazer mais nada além de abraçá-lo.
Engoli o choro mais uma vez e o deixei partir.
Por três anos.
A guerra acabou agora, ou pelo menos é o que dizem. Talvez seja verdade porque já não resta muita coisa a mais ninguém. Como sempre, todos os lados saíram perdendo.
O que importava mesmo era que eu não precisaria mais sonhar com ele. Nem implorar a Deus que o mantivesse a salvo. Ele voltaria, por mim. E eu nunca mais desconfiaria de suas promessas.
O trem estava atrasado e isso me afligia. Pra quem esperou tantos anos, qual a diferença de alguns minutos? Balançava o meu corpo pra frente e pra trás na plataforma, olhando para o horizonte e imaginando os contornos do trem.
Até que ele surgiu.
Vagarosamente rápido, um encontro certo e desconhecido. Depois de tanto tempo, como ele estaria? Bonito, como sempre. Mas e psicologicamente? Qual o tamanho do estrago que uma guerra pode causar em alguém? Já havia lido toneladas de matérias sobre traumas pós-guerra, mas não queria pensar muito sobre o assunto.
O assunto que estava chegando.
Os vagões iam parando lentamente e rapidamente foi sendo criado um burburinho por causa da saída das pessoas. Civis, voltando do trabalho ou de viagens casuais. Soldados, voltando das ruas ou até mesmo dos campos de batalha. Aquela confusão típica de sons, cheiros e pessoas misturada ao já conturbado ambiente da plataforma.
Meu coração foi se apertando. Tranquei os dentes e fiquei na ponta dos pés para tentar enxergar além da multidão. Tudo o que eu via era parentes se cumprimentando aos abraços, risos, beijos e choros. Aquele clima foi me envolvendo e me espremendo.
Ele não saía.
A vontade de chorar foi crescendo.
Dona Maria deve ter sentido minha tensão porque apertou a mão do meu ombro e disse para eu me acalmar. Olhei para ela aflita, que me lançou um olhar de paciência e compreensão.
Ele não saía...
Nem havia percebido o oficial que me abordou se aproximando.
_ Senhorita Catarina Sanches?
_ Sim? – concordei meio confusa, sem querer tirar os olhos do trem.
_ Sou o Coronel Sartori – o tom da sua voz me obrigou a virar para ele – Gostaria de pedir para me acompanhar, se for possível.
_ Mas é que estou esperando...
_ Eu sei – ele me cortou – Garanto que não demorará mais que alguns minutos.
Esfreguei as mãos uma na outra tanto para espantar o frio quanto para afastar aquele sentimento de que algo estava errado. Um Coronel em uma estação ferroviária àquela hora da tarde não poderia ser normal.
Algo havia acontecido, e algo grave.
Sussurrei para Dona Maria me esperar e ela concordou silenciosamente. Não foi difícil acompanhá-lo através da multidão, pois ela já começava a ficar escassa – a plataforma voltava a sua movimentação normal. Ninguém mais descia dos vagões.
Uma enorme aflição foi crescendo desde meu estômago até a minha boca enquanto eu seguia aquele homem gigantesco que exalava respeito. Algo estava completamente errado.
O Coronel Sartori me levou a uma sala com calefação, o que me fez tirar o casaco pesado. Uma cabine simples de vigia policial. Provavelmente ele havia expulsado o oficial gordo que estava de plantão para ter acesso restrito ao cubículo. O lugar ainda exalava café. Nada convencional e nada certo.
_ Sente-se, por favor, senhorita Sanches.
Eu não queria sentar. Ele insistiu:
_ Seria mais confortável se sentasse, senhorita.
Encarei-o firmemente, procurando o motivo daquele chamado. Ele desviou o olhar. Só que homens daquele porte e daquela patente não agem daquela maneira. Eles não fogem do olhar inquisidor de uma simples jovem.
A essa altura o choro já brotava dos meus olhos.
_ O que aconteceu a ele?
_ Por favor, queira sentar-se...
_ Não – gaguejei, sentindo meu corpo curvar-se para frente e minhas mãos agarrar a escrivaninha – Por favor, só me diz o que aconteceu...
_ O avião... – ele começou com a voz fraca, depois tossiu e se recompôs.
Cada momento de hesitação dele era um soluço meu.
_ O avião no qual o Tenente Pedro Torres estava sofreu um grave acidente nas montanhas ao leste do estado.
Minha voz ficou entalada no meio do choro. Forcei um pouco mais e tudo o que saiu foi um sussurro:
_ Ele se feriu?
Mas eu já sabia a resposta. E doía demais. Eu não era capaz de engoli-la. Doía tanto, tanto, que meu peito parecia desmanchar embaixo do corpete apertado.
_ Você precisa se acalmar...
_ Eu não quero me acalmar! – gritei todas as minhas forças. Tive que respirar para não cair – S-só me fale o que aconteceu com ele.
_ Pedro, bem... Nós fizemos o possível mas...
Não foi o suficiente, completei em pensamento.
_ Pedro era mais do que meu Tenente, Catarina – o Coronel disse ante ao meu desespero – Ele era um filho para mim. Todos sofreram muito com a sua perda.
Foi quando meu cérebro parou de funcionar.
Disseram que me encontraram do lado de fora da estação, sentada no banco da praça olhando simplesmente pro nada. Os médicos chamaram de estado de choque. Eu não me lembro de nada. É claro.
Ninguém se lembra de quando morre.
domingo, 21 de novembro de 2010
Pós-Morte
Posted by Débora Lopes on 13:16


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