Talvez eu tenha gritado. Talvez não. Se não gritei foi porque tive muita sorte. Só que não consigo me lembrar muito bem.
Eu havia caído da cama.
Daqueles tombos bem feios, típicos de crianças que sonham estar correndo ou brincando e acabam dando com a cara no chão. Bem, eu realmente dei com a cara no chão, mas não porque sonhava estar correndo ou algo tão inocente. Meus motivos eram coisas que o lobo mau provavelmente aprovaria, mas não tenho tanta certeza quanto à vovozinha.
Caí porque o sonho estava quente. Bem quente.
O que me colocaria na posição de chapeuzinho vermelho sem a cesta de doces. Ou com uma transbordando, dependendo do ponto de vista. O problema é que eu não conseguia nem achar meu chapeuzinho vermelho.
Foi quando gritei, eu acho. Na verdade, devo ter gemido tão alto de arrependimento que seria capaz de acordar qualquer um que estivesse no quarto comigo.
O que, claro, é uma hipótese impossível. Não havia outra pessoa no quarto porque eu estava sonhando. Pessoas imaginárias criadas pelos seus sonhos não acordam quando você cai da cama e faz barulhos de frustração. Pessoas imaginárias simplesmente desaparecem. Porque sonhos, são só sonhos.
Então essa pessoa imaginária murmurou meu nome.
Então eu percebi que não estava sonhando.
Fui atirada à realidade como uma maldita moeda de um real quicando em um poço da sorte que só dá azar. Um poço de águas muito frias enquanto eu ainda estava fervendo por dentro.
E por fora também, já que minhas bochechas deviam estar muito vermelhas.
Tomei um choque térmico.
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Eu ainda estava no quarto dele, mesmo estando acordada. Ele ainda estava dormindo com os braços esparramados na cama e com aquelas costas definidas de fora. O infeliz não era feito de algodão, não era sonho. E, por fim, eu não estava vestida.
Eu não estava vestida.
Estava no chão frio do quarto do Nicolas só meio enrolada em um lençol que veio junto comigo assim que caí da cama.
Gritei.
Nicolas acordou imediatamente. Eu ainda estava gritando/desesperando. Nicolas ainda estava tentando processar o que estava acontecendo. Eu estava gritando/desesperando ainda mais. Nicolas finalmente percebeu e captou toda a situação. No outro segundo eu não fazendo nada além de desesperar em cima de muitos quilos de puro músculo.
_ Você é louca? – ele perguntou depois de me agarrar e me jogar de uma só vez no chão.
Nicolas havia parado deitado em cima de mim, e só não me amassava porque segurava seu peso parcialmente com as mãos.
Mas eu estava pelada! E ele estava em cima de mim. Mesmo meu corpo reagindo instantaneamente ao seu contato, naquela hora da manhã eu já estava lúcida o suficiente pra não cometer o mesmo erro duas vezes.
_ Eu que te pergunto: você é louco? – gritei novamente, tentando tirá-lo de cima de mim.
E eu ainda estava pelada!
_ Por que você estava gritando, Clara?
_ Por que você está em cima de mim?
_ Porque você quase acordou a casa inteira com sua crise histérica. Sua vez de responder.
_ Tudo bem, mas saia de cima de mim primeiro.
Ele escaneou o meu rosto, checando se não tinha mais nenhum resquício de loucura pra eu colocar pra fora em forma de grito. Vendo que aparentemente eu estava controlada, ele finalmente saiu de cima de mim.
_ Primeiro – comecei com as mãos tapando os olhos, feito uma criancinha que não quer ver cenas de terror na TV – Coloque uma bermuda.
Nicolas deu uma risada estranha.
_ Não tem nada aqui que você não tenha visto, anjo.
Ruborizei imediatamente.
_ Segundo, eu não sou seu anjo. A noite passada foi um erro, muito grande... Por isso eu gritei.
_ E qual vai ser a sua desculpa dessa vez? Tequila?
_ Eu... erm... Bem... – mas não achei a resposta. Dessa vez não daria pra usar o efeito álcool pra entrar na brincadeira de “não-queria-fazer-mas-fiz” – Coloca a porcaria da bermuda de uma vez.
_ Sabe, eu ouvi dizer que as mulheres ficam mais calmas e mais dóceis depois de uma boa noite.
_ Argh, como você é vulgar! E, sim, você ouviu certo... Nós ficamos mais calmas sim, mas depois de uma boa noite.
Tudo bem, não era a melhor hora pra provocar. Considerando o fato de eu estar só enrolada em um lençol e sem a mínima noção de onde foram parar as minhas roupas.
_ Então você não gostou mesmo? Porque, sabe, sempre se pode devolver o produto.
_ Eu tenho nojo de você, Nicolas. Por favor, mantenha-se longe de mim – sibilei, fazendo malabarismos para manter o lençol no corpo, afastar Nicolas de mim com a mão e ainda tapar a minha visão inocente do corpo nu do menino - QUER FAZER O FAVOR DE COLOCAR ESSA BERMUDA LOGO?
_ Ei, não espie. Eu tenho vergonha.
_ Ah, cala a boca.
Eu não conseguia pensar direito. Não sabia o que fazer, por onde começar a raciocinar.
Nicolas finalmente havia conseguido enfiar a bermuda por entre as pernas, o que parecia ser muito difícil pro nível mental dele. O que deixava em cheque a minha situação.
Corri os olhos pelo quarto, mas não achei minhas roupas.
Hum, não acredito que vou fazer isso.
_ Nicolas... – nossa, chegava a doer ter que perguntar aquilo – Você sabe... hum...
_ Eu sei?
_ Ondeforampararasminhasroupas?
_ O quê?
_ Por favor, você ouviu.
Ele deu aquela risada novamente.
Eu não entendia porque eu estava sempre fazendo aquilo. Sei o jeito ridículo que esse garoto é. Sei que ele é mais novo do que eu e tem uma boca muito suja e atitudes que não condizem comigo. Sei também que ele é meu meio-primo que todas as priminhas são apaixonadas, e tenho repulsão a esses modismos. Não havia mentido quando disse que conhecia muito dos defeitos deles, e são os piores que uma pessoa pode ter.
Eu realmente conheço o Nicolas. E eu odeio jeito dele. Nunca fui de me deixar levar por play boys ridículos só porque a embalagem é legal e sarada. Nicolas é a encarnação de todos os malas do país, e eu ainda faço isso.
Duas vezes!
A primeira vez em que fui ao seu apartamento ainda tive a desculpa de que havia bebido demais. Só que não sou mais uma adolescente de dezesseis anos, virgem e insegura pra negar que me sentia fatalmente atraída por ele. A tequila havia ajudado, claro que sim... Mas não feito o trabalho sozinha.
Agora dessa vez, Deus! Ele ficaria muito convencido e prepotente.
Não sei se conseguiria lidar com o grande ego dele outra vez.
_ Não sei se suas roupas serão de grande ajuda, Clara – ele disse me obrigando a encará-lo.
E o infeliz ainda ficava mais lindo com a luz da manhã batendo nos cabelos com mexas tons de mel e ressaltando azul dos seus olhos. Ele ficava ainda mais bonito com aquela cara de sono e com aquela cara prepotente.
E mais uma vez me perguntei... Por quê? Se só a embalagem compensa. Por que não pegar aquele recipiente e enfiar em um rapaz decente que atualmente tem problemas com acne?
_ O que eu vou fazer, Nicolas? – choraminguei me sentando na cama.
_ Eu tenho uma idéia, quer ouvir?
_ Ah, cala a boca.
_ Não, é sério. Que mente poluída, Clara. Até parece o tipo de menina que sai dormindo com todos os meninos por aí – convencimento, arrogância, prepotência, chatice crônica, três pontinhos – Você pode usar uma roupa minha.
_ Nicolas... – respirei fundo – Você tem o dobro do meu tamanho.
_ Não tem problema – ele rebateu sorrindo.
Acabei parando em uma camisa de futebol muito grande, do Manchester United, que ficou parecendo um vestidinho pra mim. Nicolas tinha razão, minha blusa estava arruinada. Ao menos consegui recuperar os shorts.
Ele resolveu tomar um banho – não sem antes me pedir pra acompanhá-lo, típico. Eu também precisava de um banho, mas estava aflita pra sair daquele quarto e nunca entraria debaixo de um chuveiro com ele. Neguei o pedido com mais um “ah, cala essa boca”.
Milhões de planos de fuga estavam se formulando na minha cabeça. Do tipo pular a janela e descer pela videira. Tomar uma Coca-Cola e ser resgatada do mesmo jeito que o garoto foi na propaganda. E mais uma porção de truques ao nível 007.
É natal. A idéia passou do nada pelos meus pensamentos.
Ele saiu do banho com a toalha enrolada na cintura e com um cheiro muito gostoso em volta. Ele era todo gostoso, Deus.
Ok, hormônios, já faz um tempo que vocês deviam ter se controlado, não?
_ Olha, eu arrumo um jeito de te devolver essa camiseta sem precisar encontrar com você, ok? – disse meio constrangida comigo mesma.
Devo ter ficado vermelha, lógico.
_ Tanto drama. Isso é bem você, né, Clara? Fazer tanto drama com as coisas.
_ Se você não percebeu, eu não gosto de você. Estou na sua casa, às nove horas da manhã, usando a sua camiseta e sem a mínima idéia de como vou sair daqui sem ser vista pelos seus pais ou como vou chegar em casa sem levantar suspeitas. Então, ah... Claro que estou fazendo drama, não há problema nenhum mesmo.
_ Você sabe que nós não somos primos. E você tem vinte anos, pelo amor de Deus!
_ Alguém tem que ter responsabilidade nessa...
Engoli minhas palavras goela abaixo. Ele ficou me olhando e rindo com os olhos. Ele sabe muito bem como rir de mim com os olhos.
Por favor, não complete.
Havia acabado de recolher as minhas coisas e me virei pra ir embora. Já estava no batente da porta quando ouvi:
_ Nessa relação? – Merda.
_ Não existe relação. Eu ia dizer responsabilidade nessa “porcaria de mundo” – ralhei, depois completei a última frase me virando pra ele por cima do ombro e piscando – Esse é o problema de dar um pouco de sexo pra meninos mais novos. Eles apaixonam muito fácil.
_ Engraçado por que... – ele disse em um tom casual muito perigoso, se aproximando à medida que falava – não fui eu quem ficou murmurando meu nome à noite enquanto dormia.
Recuei um passo automaticamente pra trás.
_ Eu não disse sei nome coisa nenhuma - rebati na defensiva.
_ Ah, disse sim – ele riu, aquele sorriso que me irrita. Outro passo – Sabe por que eu sei?
_ Hum... – tentei parecer casual e confortável com a situação... Acho que não deu muito certo.
Outro passo.
_ Porque depois que nós... você sabe...
Um novo passo.
_ Que nós transamos? Não sabe pronunciar essa palavra, neném? – provoquei, tentando parecer superior e novamente falhando. A apreensão estava viva na minha voz.
_ Isso, depois que nós nos amamos... – ele me corrigiu, como se fosse ele o romântico e eu a vulgar. O tom perigoso da sua voz só estava aumentando. O frio no meu estômago só ia se apertando à medida que ele chegava mais perto - ... não consegui pegar no sono. Então fiquei observando você dormir.
Nicolas 1 x 0 Clara. SCORE!
_ Sério? – disse depois de dar uma risada que deveria soar despreocupada - Isso me parece coisa de menino bobo apaixonado.
_ Mais ou menos isso – Outro passo. Ele estava muito perto agora. Tanto que o cheiro bom de banho tomado já impregnava todo o meu olfato e me vazia divagar um pouco – É que você é tão linda dormindo, anjo. Você podia viver dormindo.
Coloquei a mão no seu peito, fazendo-o parar de se aproximar mais. Tentei ignorar a onda de calor que correu o meu corpo todo só fazendo isso. Ele ainda tinha a porcaria daquela toalha enrolada no corpo.
_ Eu sei o que você está fazendo – avisei – E não vai dar certo.
Eu pude imaginar o sorriso que ele deu, mas não tinha coragem de olhar nos seus olhos. Fixei meu olhar na sua boca vermelha, com os vasos ainda dilatados pelo calor do banho ela parecia ainda mais convidativa.
_ O que estou fazendo?
_ Você sabe o que está fazendo.
_ Olhe pra mim – ele mandou.
Foi praticamente automático. Não sei de que lugar esse garoto tira essa força que tem sobre os meus movimentos involuntários. Olhei pra ele.
Aqueles lindos olhos azuis meus estavam me encarando desafiadoramente.
_ O que eu estou fazendo, Clara?
_ Do que estamos falando?
_ Não sei...
Então ele me beijou.
Hum, esses dois... Eu não sei não. Esse capítulo foi meio "o que aconteceu?" Não é muito meu estilo de escrita. Não sei se ficou bom, se deu pra sentir friozinho na barriga com os dois. Acho que não.
Enfim, é isso aê :)



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