A noite havia caído fazia algum tempo. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro das damas da noite invadir seu sistema. O que confirmou suas suspeitas: passara da meia-noite. Já estava muito tarde. Mas não importava, finalmente ela estava sozinha. Ou assim esperava.
A calça caía desconfortavelmente mostrando parte da sua calcinha roxa. Puxou-a pra cima mais uma vez e começou a tirar o casaco de couro. Estava frio. Ela gostava da sensação do frio cortando sua pele.
Então ela abriu suas longas asas negras e as espreguiçou. Estavam cansadas de ficar escondidas. Bateu-as preguiçosamente. Uma, duas vezes. Sentiu que ainda eram incapazes de alcançar vôo. Ainda, espero. Sabia que se esperasse mais algum tempo o céu não seria limite, mas ela não queria esperar. Aquela sensação fluía através do seu corpo naquele momento, e ela sabia que não aconteceria de novo. Queria voar, ali e agora.
Balançou a cabeça, não acreditando em si mesma, no mesmo momento em que o vento batia em seus cabelos, bagunçando-os. Ela achou graça daquilo e colocou os fios atrás das orelhas. Tirou as luvas também de couro e as colocou de lado.
A cidade pulsava embaixo dela, abaixo dos vinte andares que a separavam no chão. Percebeu que ali onde estava todas aquelas vidas pareciam insignificantes. Observava-as de cima, como as gárgulas da catedral faziam. Fez um careta feia tentando imitá-las e riu mais uma vez de si mesma.
Sthef brincou um pouco com suas asas preparando-se pra voar. Quando olhou a altura hesitou, apreensiva. Respirou fundo outra vez, como se pudesse inalar coragem.
Desistiu de tentar lutar contra si mesma, deu uma última olhada na escuridão que a cercava…
E pulou.
Pulou para descer em queda-livre vinte andares. Altura mais do que suficiente para a gravidade mostrar todo seu poder. Aquela força que a foi sugando cada vez mais e mais pra baixo enquanto ela tentava inutilmente bater as asas.
Mesmo assim, Sthef não sentiu medo, nem mesmo angústia. Afinal, ela tinha um par gigante de asas que não sabiam voar, que a haviam afastado de tudo e de todos. Morrer se tornou tão simples, tão fácil, que à medida que o chão ia chegando mais perto ela ia se sentindo cada vez mais livre.
Voar era basicamente aquilo.
Então, se ela pudesse sentir um gostinho do que seria voar, mesmo que por alguns segundos antes de morrer... ela se morreria muito bem, obrigada.
Assim, quando a queda finalmente acabou, ela já havia fechado os olhos. Ouviu o impacto antes de sentí-lo.



1 comentários:
sthef, anjo da noite.. saudade.
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