segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tequila, Jogos PARTE II




 Então aqui vai mais um capítulo dessa história. Quem batia à porta?



Eu o teria empurrado pra longe de mim – o que qualquer pessoa racional faria – se suas mãos não houvessem se transformado em grades de ferro ao redor da minha cintura. Aliás, somado isso ao meu problema de parar em pé eu teria caído no chão se ele resolvesse me soltar.
As batidas na porta se intensificaram.
_ Garotos, estão aí? Pelo amor de Deus, ouvi alguma coisa batendo aí dentro. Vocês estão me deixando preocupada; o que está acontecendo?
Hum... por onde começar, tia Rosa?
E rezei. Confesso que não por uma causa justa, mas achei que só Deus seria capaz de me tirar daquela situação.
_ Quem é? – Nicolas perguntou, tapando minha boca com a mão.
Ele previra que eu gritaria “é claro que é a tia Rosa, otário!”.
_ É a tia Rosa...
_ Tia, eu estou meio ocupado aqui.
O quê? Busquei seu rosto, desesperada, e tentei outra vez me livrar do seu abraço. Falhando novamente, tudo o que pude fazer foi implorar com os olhos pra que ele não fizesse o que ele estava pensando em fazer. Aquilo era suicídio.
Meu corpo a essa altura já estava tremendo de medo. É irracional. O medo flui através de nossos corpos mesmo contra nossa vontade. E flui ainda mais rápido quando seu primo mega-gostoso diz pra sua tia hiper-sensitiva que está “meio ocupado” enquanto te mantém refém dentro do quarto dele, em uma posição no mínimo constrangedora e totalmente subjugada a qualquer atitude dele. Inclusive aquelas que envolvem suicídio moral.
 _ Ocupado? – ela perguntou depois do que pareceu ser uma hora – Com o quê? – pausa – Nicolas... a Clara não estaria aí com você, estaria?
E voilá, ela mata a charada. E depois me mata, junto com toda a família.
Não sei se comecei a chorar, ou a resmungar, ou a soluçar. Ou tudo junto. O que sei é que Nicolas soltou a mão que tapava a minha boca e passou delicadamente pelo meu rosto para me acalmar. Seus dedos acompanharam a linha da minha testa, do meu nariz e da minha boca até chegar ao meu pescoço.
_ Shhh... Vai ficar tudo bem, anjo – ele me acalmava muito, muito baixinho.
Ou aquele garoto expirava hélio e eu fogo; ou ele descobriu a fórmula para a combustão espontânea porque a forma com que meu corpo sempre reagia quando estava perto dele não é como eu sou. Ou pelo menos como achava que era antes de embarcar nessa viagem estúpida.
Tive que me controlar para não passar a mão debaixo da sua camisa.
Ele deve ter percebido o que eu estava fazendo porque soltou uma risadinha abafada.
_ Nicolas? – minha tia repetiu, cada vez mais ansiosa – Eu quero que você me responda agora: a Clara está com você?
_ Ela também está meio ocupada, tia – ele respondeu em tom brincalhão.
Ocupada em tentar não me jogar em cima dele ou ocupada me jogando em cima dele? Fiquei confusa.
Aparentemente minha tia também. Houve um segundo, apenas um segundo, até que ela entendesse o recado. Milhões de significados e pedidos embutidos em uma só frase. Melhor, só um: fique caladinha, por favor, e não conte ao mundo o que ouviu e viu agora a pouco. Pude ouvir sua respiração pesada mesmo através da porta.
_ Sendo assim, v-vai demorar muito tempo para você dois... Quero dizer, para a Clara terminar com o seu... – ela se enrolou aparentemente chocada com a revelação – Enfim, com seu computador?
_ Não sei, não sei... – ele respondeu com os olhos no meu. O infeliz ainda tinha aquele sorriso sarcástico no rosto enquanto me analisava – Ela parece estar tendo um pequeno probleminha de superaquecimento.
_ Ah... – foi tudo o que ela disse, soando mais como um suspiro do que como uma resposta propriamente.
O som do salto alto batendo contra o taco foi ficando cada vez mais distante, até desaparecer completamente.
Santo.
Deus.
Só não estatelei diretamente no chão porque Nicolas ainda me segurava. Nem sabia se ainda tinha joelhos, quem dirá pés.
Eu estava meio que em estado de choque. Fiquei encarando o vazio, sentido aquela sensação que se tem depois de ter levado um susto muito grande. Parecia que um caminhão tinha passado em cima de mim, ou que alguém tinha me moído junto com a carne por engano.
Mesmo sem ter recuperado meu equilíbrio interno, soltei-me dos braços dele. Ele não tentou me segurar, deve ter percebido minha necessidade de respirar.
Sentei na cama de uma vez e apoiei a cabeça nas mãos.
_ Ela não vai contar pra ninguém – ele disse um pouco hesitante em se aproximar – tia Rosa é uma mulher maneira.
Não respondi. Aquele torpor ainda preenchia todo meu corpo, não conseguia falar. Caralho, eu duvidava poder formar palavras pelo resto da minha vida.
Podia sentir Nicolas no quarto. Podia sentir sua vontade de falar, e sua vontade de me fazer falar alguma coisa. Meu corpo parecia irradiar calor até ele, e vice-versa. Só que ele também não disse nada por um bom tempo.
Ficamos nós ali, parados.
Ele com medo de dizer alguma coisa e me fazer, sei lá, desparecer no ar. Eu sem vontade, sem ânimo e sem voz pra argumentar nada.
Depois de algum tempo, Nicolas foi quem quebrou o gelo:
_ Eu não vou deixar que ela conte a ninguém.
Tempo suficiente para eu poder recuperar a minha voz:
_ E esse é só mais um dos seus problemas.
_ Mais um dos meus problemas? Você conhece todos os meus defeitos?
_ Não todos, posso te garantir. Uma quantidade ínfima, mas que você não cansa de usar quando está perto de mim.
Ele deu outra daquelas risadas sarcásticas que tanto me irritavam. Nem me incomodei em me incomodar com aquilo, tinha tanta coisa a mais na minha cabeça.
Se minha tia Rosa resolvesse contar pra todo mundo o que havia acontecido eu estava ferrada.
Minha mãe provavelmente daria a louca e, se não fosse o meu próprio dinheiro que me sustentasse, me mandaria de volta de Uberlândia pra Patos de Minas. Como ela não pode fazer isso, até porque tenho minha própria firma pra gerir, todos os telefonemas dentro de um ano seriam repletos de advertências e de agulhadas periódicas. Um saco.
Meu pai simplesmente não pararia de me olhar com aquele típico “eu-sei-o-que-você-fez-no-natal-passado”. O que me mataria já que a confiança e respeito que demorei tanto tempo pra adquirir com o ele são algo que prezo bastante.
Quanto ao resto da família. Bem, nem preciso comentar. Ver a garotinha que sempre fez tudo certinho, que sempre foi a filhinha da mamãe, fazer coisa errada – mesmo que fosse só uma coisa errada – seria o suficiente para descerem a lenha em cima de mim. Fora as piadinhas importunas de todos os meus outros primos.
Moralmente com a minha família eu não teria mais pontos nenhum.

Fiquei tão concentrada prevendo o futuro apocalíptico que nem percebi que Nicolas havia se ajoelhado na minha frente e tomado as minhas mãos.
_ Não pode controlar todo mundo – disse pra ele, mas querendo ele me mandasse calar a boca e aprender a confiar mais nele.
Ele me olhou com aqueles olhos de garotinho fofo e assutado, que sempre usava contra mim quando queria algo.
_ Tem razão, eu não posso. Mas isso eu posso controlar. Confia em mim.
_ Você não pode controlar a tia Rosa. Não pode controlar todo mundo – repeti, aumentando um pouco o tom de voz.
_ Ao menos eu posso te controlar.
_ Não, não pode.
Nicolas então surpreendentemente riu. Do nada. Uma risada gostosa e limpa, sem nenhuma mancha de sarcasmo e ironia que todas suas risadas carregavam. Foi só um riso. Só isso. Mas a maneira que sua bochecha espremia seus olhos e criava ruguinhas ao seu redor era muito encantadora. Eu nunca o havia visto rindo daquela maneira, só por rir. Ele chegou a lagrimejar, tendo que usar a mão pra limpar as lágrimas.
Fiquei encantada com a cena.
Um sorriso automático ameaçou se abrir no meu rosto, como se ele rir me forçasse a rir também. E eu quis rir junto, mas não podia. Ser pego pegando sua prima deveria ser trágico, não engraçado. Forcei uma cara de brava, contendo o sorriso que queria escapar automaticamente, e fiquei esperando uma explicação.
Que não veio.
Num instante ele tentava parar de rir e no outro me deitava facilmente na cama. Muito rápido. Rápido demais para que eu pudesse processar o que estava acontecendo e impedisse. Rápido demais para que a minha razão se sobrepusesse à emoção.
Porque eu negaria. Diria que não até a morte, mesmo sob tortura. Não aceitaria que meu corpo pedia que ele continuasse me beijando e que ele queria continuar a sentir as mãos dele nas minhas costas. Não, jamais admitiria.
Verbalmente.
As reações explosivas que meu corpo parecia reservar só ao toque dele... Bem, já eram outra história.
Sabia que havia ficado com as pernas entre seu quadril, meio sentada e meio deitada, apoiada só pelas mãos no colchão – mas era só uma sensação vaga no meio de tanta coisa acontecendo no meu corpo todo.
Estávamos nos movendo sem que eu percebesse. Minhas costas encontraram a cabeceira da cama de uma só vez, mas ele não ligou. Ou nem percebeu. Só pareceu intensificar ainda mais o beijo.
Ele cortou a ligação entre nós de repente, me deixando arfando e sem saber onde estava ou o que estava acontecendo.
_ O quê...? – mas ele colocou o dedo suavemente na minha boca, me impedindo de falar. Seu polegar percorreu o caminho do meu lábio inferior até o colo do meu peito.
_ Você é perfeita – ele murmurou.
Nada que demonstrasse que ele estava tão arfante quanto eu. O idiota provavelmente estava jogando novamente, se perguntando até onde eu levaria aquilo. Do que a doce e perfeita Clara seria capaz?
Se fosse isso, estaria nos olhos dele.
Doce erro. Os olhos dele estavam perigosamente perto. Aqueles olhos azuis faiscantes que me torturaram a noite toda, ali na minha frente. Bem na minha frente. Não, advérbio de lugar errado. Aqueles olhos azuis faiscantes do inferno estavam em mim. Decorando-me, com um desejo violento correndo dentro deles.
Então uma certeza surgiu como sol dentro da minha cabeça. “Meus. Esses malditos olhos azuis; meus”.
Dessa vez quem buscou a boca do outro avidamente fora eu. Mantive os olhos abertos, fixados nos dele, até os meus olhos azuis se fecharem.
Bom, ele no mínimo, veria do que a doce Clara é capaz.




Acordei no outro dia às oito da manhã no chão frio do quarto.
Praticamente gritando.

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