Conclusão: nem sempre eu fui assim. Do jeito que sou hoje. Um dia eu já fui legal, boazinha e comportada. Já tirei notas boas, já me preocupei mais com o futuro do que com o presente, mas também já me apaixonei pelo meu melhor amigo. Já pratiquei exercícios físicos e nem sempre fui tão tirada e tão sarcástica. Acho que já fui criança, mas essas memórias estão bem apagadas.
Dizem que o cérebro bloqueia memórias ruins como forma de auto-preservação. Deve ser isso que aconteceu. Bloqueei a parte boa da minha vida e só sou capaz de me lembrar nitidamente das trágicas.
Sendo assim, falando em tragédia, acho que vou me dar ao luxo de voltar um pouco no tempo. Daquela época em que as garotas ainda tinham “diários” (isso ainda existe?) e de onde tirei grande parte da inspiração para esse capítulo. Não me lembro muito bem desse dia, mas lembro das emoções. Por isso não recuperei muita coisa, muitos detalhes, mas acho que é o suficiente.
Chamo esse episódio de “O Começo”, porque foi quando eu percebi que estava apaixonada por ele mesmo e não tinha mais volta. Só um aviso: não chorem, mesmo que queiram. Eu não chorei, não vejo porque chorarem.
Estava chovendo pra caramba naquele dia. Chequei na porta da casa dele encharcada e humilhada por um garotinho de cinco anos que passou em uma caminhonete nada humilde e fez um daqueles sinais feios que garotos dessa idade não deveriam saber. Estava caminhando debaixo daquelas chuvas torrenciais de verão quando isso aconteceu, e continuei embaixo dela por mais dez minutos. Quando o volume de água aumentou percebi que era melhor abortar a operação “Volta Para Casa” e ancorar na porta da casa dele – que era bem mais perto.
Ego molhado e ferido. Roupas encharcadas e sujas de lama. Cabelo detonado e ainda sim rebelde. Mochila surrada e cadernos arruinados.
Leonardo abriu a porta com uma bruta cara de sono e sem camisa. Deu uma boa checada em mim dos pés a cabeça e fez uma cara que eu deduzi, no momento, ser de preocupação. Estava muito frio, chovia muito e eu... eu estava lá fora, jogada aos cães naquele mau tempo. É para preocupar qualquer um. Conclui isso porque, é claro, eu não havia me dado conta do parágrafo ali em cima.
Então quando ele abriu a boca pra falar algo e achei que sairia alguma coisa parecida com “Meu Deus, Clarissa, o que aconteceu com você?” ou “Menina, você é louca? Ficar aí de fora nesse mau tempo? Entra aí!” ou até mesmo “Nossa, amor, você está bem? Entre e vamos nos aquecer fazendo um chocolate quente” e tudo o que se fala quando se preocupa com a pessoa, ele...
Bem, ele riu.
Honestamente, não sei porque esperava outra reação dele. Afinal, ele era capaz de fazer ora com a minha cara mesmo quando eu estava fazendo absolutamente nada, imagine quando eu apareço na porta da casa dele, no meio de um temporal, toda encharcada e parecendo um pinto molhado? Eu teria rido da cara dele se fosse ao contrário e o Leonardo, bem, ele é um daqueles que perde o amigo, mas não perde a piada.
Sendo assim, a minha reação foi totalmente exagerada, confesso. Só que meu estado era tão deplorável, meus pés doíam tanto, estava tão magoada com o garotinho sem educação e eu estava tão esgotada que fechei a cara enquanto ele ria. E ele não parou de rir por um bom tempo, mesmo eu estando com a cara fechada e sinceramente magoada.
O que, obviamente, é o certo de se esperar do Leonardo.
Quando finalmente ele percebeu que eu não riria junto com ele e que tremia muito mesmo, ele me abraçou e me colocou pra dentro. E lá dentro estava quente. Tanto o abraço dele quanto a casa em si. Fiquei um pouco chocada com a bruta demonstração de afeto repentina, mas não deveria ter ficado.
Esse era um dos sinais que eu ignorei. Um dos sinais de que alguma coisa estava errada quanto a minha concepção de amizade com ele. Aquilo, de me abraçar, era normal. Essas oscilações de humor loucas dele (uma hora estar rindo da minha cara e na outra estar me abraçando) já estavam gravadas no meu disco rígido e eu havia me programado para não me surpreender mais. Como quando ele me acertou um soco do nada só porque eu falei que Dragon Ball Z era coisa de bixinha.
Meu corpo reagiu ao abraço e ao calor imediatamente. Derreti nos braços dele e fui obrigada a me jogar no sofá para não cair no chão e me enrolar no tapete felpudo da sala.
Assim que viu como eu realmente estava o discurso começou. Despejou milhões de broncas sobre como é infantil pular poças enquanto ainda chove e sobre como eu deveria ter esperado a chuva passar para me divertir do lado de fora de casa. Como se eu fosse uma criança. E entre um sermão e outro sempre entrava o termo: você precisa se aquecer.
Muito típico. A vontade que eu tinha era de mandá-lo decidir entre rir da minha cara ou ficar louco de preocupação. Os dois de uma só vez estavam me deixando confusa.
Quando ele se aproximou de mim todos os músculos do meu corpo ficaram tensos. Não entendi no início, vai ver era muito inocente mesmo, mas eram só meus instintos reagindo a estar sozinha em casa com um homem muito gostoso e muito lindo sem camisa a centímetros de você.
_ Que saudades eu estava de você, patricinha – ele gritou enquanto me esmagava no sofá.
_ Aham, Léo... Obrigada. Está bom agora, né? Eu disse... não consigo respirar...
_ Você está fedendo.
_ E eu não sei? – reclamei, tentando tirá-lo de cima de mim - Mas não posso chegar em casa com toda essa chuva.
Acabei tomando banho por lá mesmo. Entrei dentro de um moletom gigantesco dele, porque minhas roupas estavam horríveis. Pela primeira vez senti seu cheiro. Eu nunca antes havia reparado que ele cheirava tão bem e, olha, teve bem algumas vezes que ficamos bem perto um do outro. Outra dica que meu corpo gritava “Hello! Você gosta dele, vai lá e diz isso!”, mas que eu não ouvia.
Isso, no meu “querido Diário” está registrado assim:
Quando coloquei o blusão dele depois do banho senti um cheiro esquisito. Mas não esquisito de ruim, esquisito de bom. Demorei um tempinho pra perceber que vinha da blusa dele, e não entendi porque ele cheirava tão bem antes e eu não havia percebido. Ah, o cheiro dele é tão bom. Sabe, aqueles de lavanda? (cara, deveria ser o amaciante barato que ele usava!) Fiquei uns cinco minutos deitada na cama dele e sentindo aquele cheiro em todo o lugar. Foi muito lindo, muito mágico. Eu poderia ficar sentindo aquilo o resto da noite. Eu poderia dormir em cima daquele cheiro e acordar feito um bebê. (...)
E a humilhação de exposição de pensamentos adolescentes vai parar por aí porque eu ainda tenho uma reputação a zelar. Hoje não consigo me imaginar fazendo isso e não consigo acreditar o quão patética fui. Mas era só eu sendo uma adolescente boba.
Enfim, fizemos o chocolate-quente com o qual havia fantasiado e arrastamos todos os cobertores da casa pro sofá. Tudo isso enquanto a chuva corria lá fora em toneladas.
_ Isso ficou bom – ele disse depois de provar o chocolate.
_ Eu sei. Sou foda, sou sinistra. – brinquei, atirando uma almofada nele.
_ Não, Clarissa. Você acha que é foda porque eu sou seu amigo e faço você parecer que é foda. O dia em que você não me tiver mais, vai perceber que não é nada sem mim.
Meu coração se apertou. Congelei com o copo na metade do caminho até minha boca.
_ O que foi? – ele perguntou.
_ Nada... Não foi nada.
_ Cacá, estou brincando. Vamos ser amigos pra sempre, não vamos?
_ É – respondi meio triste, mesmo sem saber o porquê de estar triste – Acho que vamos sim.
Ele colocou o copo dele na mesinha de centro para me abraçar. Seu corpo havia se desenvolvido tanto que eu já não era mais capaz de envolvê-lo por completo. De novo senti o seu cheiro, dessa vez mais forte já que vinha dele e não do moletom ou de qualquer outra parte do quarto dele que não consigo me imaginar cheirando. Ele escorou a cabeça no meu ombro, que nem uma criançinha abraçando a mãe.
Novamente não entendi porque essa comparação me incomodou tanto.
_ Você vai derramar meu chocolate-quente, Léo – resmunguei, mas sem a mínima vontade de que ele parasse de me abraçar.
_ Dane-se o chocolate... Eu podia ficar aqui pra sempre.
_ É, eu também.
Ninguém sabe muito bem quando se apaixonada, certo? Errado. Eu sabia, sempre soube. Foi acontecendo, acho que é natural.
Naquela noite, eu dormi na casa dele. Dormi abraçada a ele no sofá, assistindo a algum filme brega de terror – que acabava sempre se tornando comédia com os comentários dele. Tudo bem que eu acordei no outro dia no tapete do chão enquanto o Folgado (também conhecido como Leonardo) se esparramava de braços abertos no sofá.
A maldita chuva não passou até o outro dia de manhã – juro que São Pedro estava mancomunado com algum anjinho cupido.
Quanto ao meu estado de espírito, digamos que é mais difícil descer flutuando das nuvens do que cair em forma de gotas.
Enquanto a enxurrada levava tudo de ruim rua abaixo, aquela noite levava toda uma fase da minha vida. E, como a água, um dia eu desembocaria em algum lugar.
A questão era onde e como.
Novamente um conto que era pra ter só duas partes, mas que alonguei e alonguei HAHAH Já tenho toda a história postada no Nyah!, mas vou reescrevê-la. Quem leu no outro blog deve ter percebido a graaande diferença na narrativa.



1 comentários:
cadê a continuação, dona débora? *-*
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