quinta-feira, 25 de novembro de 2010

GRR ao amor


Tudo fala de amor. Absolutamente tudo. Músicas, poesias, poemas, cartas, contos, epopéias, histórias, contos, fofocas, filmes, artigos científicos, embalagens de bombom, livros, ahmeudeusdocéu.
Talvez seja por tanto idealizar isso que nós nos esquecemos que ele não existe. É isso aí. Cara, lamento mesmo ter que ser a pessoa a te contar isso mas não existe aquele amor que você leu e ouviu em todo o lugar.
Você nunca o sentiu, aposto.
Simplesmente porque ele não existe!
Você já deve ter gostado muito de alguém a ponto de chorar quando essa pessoa te deixou. Quem não? Só que você coloca tanta expectativa em cima disso que quando acaba você pensa: “meu Deus, que merda”. Só que isso não é amor.
O problema é todo esse... As pessoas acham que estão amando, quando na verdade não estão. E é daí que surgem as paranóias.
Obsessão também não é amor. Muito menos um amor tão forte que virou loucura. É doença. É uma loucura inerte e pequena que virou uma loucura das bravas.
Ciúmes também não é amor. É insegurança na sua forma mais pura e destruidora. Aqueles que sabem controlar sua insegurança se dão melhor do que aqueles que a deixam fluir. Sabe quando a pessoa tem um rio de insegurança correndo sem barragem pelo corpo? Que merda que vira? Aquele ciúme possessivo e insuportável, Deus. Por esses e por outros motivos que ciúme também não é amor.
Porque ele não existe.

Você não o sentiu.
Você nem ao menos conhece algum infeliz que o sentiu;
Fala sério, seus pais não sentiram e alguns são felizes mesmo assim.
Porque o amor, aquele que realmente existe, é construído aos pouquinhos. O amor na verdade é confiança e respeito.
Atração física? Existem, sim. E há hormônios bem específicos para isso. Mas não vai passar de uma pegação louca se a outra pessoa não tiver um papo que agrade a você.
Quem te pede em namoro sem te conhecer direito não te ama.
Sua mãe te ama. Ela te pariu.
Existem pesquisas que comprovam que quando duas pessoas passam pela mesma experiência traumática ou dolorosa elas ficam meio ligadas. Tipo aquele conhecido seu que também perdeu o tio para o câncer e você se sente meio familiarizado com ele. Ou você acha que não doeu sair por aquele buraquinho apertado?
Ok, isso não explica quem nasceu de cesariana.
Enfim, para de sonhar com esse amor louco e bandido. Com pessoas impecavelmente lindas e sem defeitos. Para de esperar cada vez mais do seu namorado porque você viu um filme de comédia-romântica em que o cara deu um anel de diamantes pra esposa. Não culpe sua namorada porque ela tem celulite (as atrizes também têm, mas não aparecem). Não culpe seu namorado porque ele não te faz uma declaração de cinco em cinco minutos – isso te cansaria, vai por mim.
Quer algo melhor? Vá estudar para conhecer as estruturas que te fazem totalmente louca por aquele seu amigo gostoso que nunca te dá moral.
Vá fazer sexo.
Acredite, ajuda.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Anjos da Noite


A noite havia caído fazia algum tempo. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro das damas da noite invadir seu sistema. O que confirmou suas suspeitas: passara da meia-noite. Já estava muito tarde. Mas não importava, finalmente ela estava sozinha. Ou assim esperava.
A calça caía desconfortavelmente mostrando parte da sua calcinha roxa. Puxou-a pra cima mais uma vez e começou a tirar o casaco de couro. Estava frio. Ela gostava da sensação do frio cortando sua pele.
Então ela abriu suas longas asas negras e as espreguiçou. Estavam cansadas de ficar escondidas. Bateu-as preguiçosamente. Uma, duas vezes. Sentiu que ainda eram incapazes de alcançar vôo. Ainda, espero. Sabia que se esperasse mais algum tempo o céu não seria limite, mas ela não queria esperar. Aquela sensação fluía através do seu corpo naquele momento, e ela sabia que não aconteceria de novo. Queria voar, ali e agora.
Balançou a cabeça, não acreditando em si mesma, no mesmo momento em que o vento batia em seus cabelos, bagunçando-os. Ela achou graça daquilo e colocou os fios atrás das orelhas. Tirou as luvas também de couro e as colocou de lado.
A cidade pulsava embaixo dela, abaixo dos vinte andares que a separavam no chão. Percebeu que ali onde estava todas aquelas vidas pareciam insignificantes. Observava-as de cima, como as gárgulas da catedral faziam. Fez um careta feia tentando imitá-las e riu mais uma vez de si mesma.
Sthef brincou um pouco com suas asas preparando-se pra voar. Quando olhou a altura hesitou, apreensiva. Respirou fundo outra vez, como se pudesse inalar coragem.
Desistiu de tentar lutar contra si mesma, deu uma última olhada na escuridão que a cercava…
E pulou.

Pulou para descer em queda-livre vinte andares. Altura mais do que suficiente para a gravidade mostrar todo seu poder. Aquela força que a foi sugando cada vez mais e mais pra baixo enquanto ela tentava inutilmente bater as asas.
Mesmo assim, Sthef não sentiu medo, nem mesmo angústia. Afinal, ela tinha um par gigante de asas que não sabiam voar, que a haviam afastado de tudo e de todos. Morrer se tornou tão simples, tão fácil, que à medida que o chão ia chegando mais perto ela ia se sentindo cada vez mais livre.
Voar era basicamente aquilo.
Então, se ela pudesse sentir um gostinho do que seria voar, mesmo que por alguns segundos antes de morrer... ela se morreria muito bem, obrigada.
Assim, quando a queda finalmente acabou, ela já havia fechado os olhos. Ouviu o impacto antes de sentí-lo.

British Talk


He was just tired of working and decided to have a drink in a small pub downtown. He was sure he’d regret.
_ Won’t you scream? – he asked a woman sitting next to him.
_ Why would I do that?
_ Well… People usually scream when they’re near me.
_ Too bad for you, hu?
Silent.
He was so impressed by the woman’s reaction that didn’t even notice she was supporting her face with her arm. She looked very tired when she sighed.
_ Really? Won’t you scream at all?
_ What? – she was surprised because didn’t expect him to keep talking. Then she got suddenly angry – Shut up. I have my own fucking problems. So, listening to a drunk stupid guy, right now, is the last thing I need, ok? So, just shut your fucking mouth.
_ Hey, take it easy. What happened?
_ My mom is dead, alright?
_ What? I mean, I’m sorry.
_ She killed herself last week – she said before turning another dose in.
_ Why would she do that?
_ My dad died a few months ago. I guess she couldn’t do without him.

_ Dude, I’m deeply sorry. Now I got why you’re so down.
_ You should’ve said something like: Don’t worry, everything is going to be alright, you’ll see.
_ No way. Nothing is going to be alright, or the same. In fact, it’ll only get worse.
_ Uau, thanks a lot. Really. You did help me.
_ You’re parents are dead, you’re in a bar trying to get drunk and talking to a completely strange. You don’t seem to be a person who needs help.
_ Sarcasm? Are you really using sarcasm? Jesus. They don’t make men as good as the usual. Do you pretend to sleep with me using dark sarcasm?
_ Hey, I’m not that dirty. Don’t be so sure of yourself.
_ Come on, what else could you be looking for?
_ A friendly conversation between two people in dire straits?
_ I doubt your situation is worse than mine.
_ Want to bet?
_ Of course.
_ I’m a famous actor, a real one. My last movie won an Oscar and now I don’t have any time to breathe. All these pressure and fans are suffocating me. I don’t know what to do; I’m lost. I don’t have friends or family. I guess I’m getting sick of all this shit.
She laughed at him.
_ Do you expect me to believe in this? There’s no need to lie, man.
_ I’m not lying. You can believe or not.
_ Let’s pretend I do. Why don’t you just walk away from all the madness?
_ I can’t.
_ Why?
_ I just can’t.
_ So, what is a famous actor doing in a place like this?
_ I’m trying to walk away from all the madness…
_ Alright. You know what? I don’t need this. I’m a person who usually doesn’t need help. Neither from drinks nor from strange strangers. I’m leaving.
_ Wait! Let’s have another drink, let’s get the hell out of here.
_ No! What are you thinking? My mom is dead, I have to rearrange my life and my boyfriend will probably kill me when I get home.
_ So give me you’re number. Maybe I can call you when everything turns out ok.
_ Nothing is going to be ok, remember? Bye…
_ Hey, tell me just what your name is…
_ I’m Alissa. I’ve got to go…
_ Won’t you ask mine?
_ Don’t need to. You’re a famous actor; I’ll see you in a film if I’m lucky.
_ I’m sure you will – but she was already too far to hear him.

Tequila, Jogos PARTE III

Talvez eu tenha gritado. Talvez não. Se não gritei foi porque tive muita sorte. Só que não consigo me lembrar muito bem.
Eu havia caído da cama.
Daqueles tombos bem feios, típicos de crianças que sonham estar correndo ou brincando e acabam dando com a cara no chão. Bem, eu realmente dei com a cara no chão, mas não porque sonhava estar correndo ou algo tão inocente. Meus motivos eram coisas que o lobo mau provavelmente aprovaria, mas não tenho tanta certeza quanto à vovozinha.
Caí porque o sonho estava quente. Bem quente.
O que me colocaria na posição de chapeuzinho vermelho sem a cesta de doces. Ou com uma transbordando, dependendo do ponto de vista. O problema é que eu não conseguia nem achar meu chapeuzinho vermelho.
Foi quando gritei, eu acho. Na verdade, devo ter gemido tão alto de arrependimento que seria capaz de acordar qualquer um que estivesse no quarto comigo.
O que, claro, é uma hipótese impossível. Não havia outra pessoa no quarto porque eu estava sonhando. Pessoas imaginárias criadas pelos seus sonhos não acordam quando você cai da cama e faz barulhos de frustração. Pessoas imaginárias simplesmente desaparecem. Porque sonhos, são só sonhos.
Então essa pessoa imaginária murmurou meu nome.
Então eu percebi que não estava sonhando.

Fui atirada à realidade como uma maldita moeda de um real quicando em um poço da sorte que só dá azar. Um poço de águas muito frias enquanto eu ainda estava fervendo por dentro.
E por fora também, já que minhas bochechas deviam estar muito vermelhas.
Tomei um choque térmico.
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Eu ainda estava no quarto dele, mesmo estando acordada. Ele ainda estava dormindo com os braços esparramados na cama e com aquelas costas definidas de fora. O infeliz não era feito de algodão, não era sonho. E, por fim, eu não estava vestida.
Eu não estava vestida.
Estava no chão frio do quarto do Nicolas só meio enrolada em um lençol que veio junto comigo assim que caí da cama.

Gritei.

Nicolas acordou imediatamente. Eu ainda estava gritando/desesperando. Nicolas ainda estava tentando processar o que estava acontecendo. Eu estava gritando/desesperando ainda mais. Nicolas finalmente percebeu e captou toda a situação. No outro segundo eu não fazendo nada além de desesperar em cima de muitos quilos de puro músculo.
_ Você é louca? – ele perguntou depois de me agarrar e me jogar de uma só vez no chão.
Nicolas havia parado deitado em cima de mim, e só não me amassava porque segurava seu peso parcialmente com as mãos.
Mas eu estava pelada! E ele estava em cima de mim. Mesmo meu corpo reagindo instantaneamente ao seu contato, naquela hora da manhã eu já estava lúcida o suficiente pra não cometer o mesmo erro duas vezes.
_ Eu que te pergunto: você é louco? – gritei novamente, tentando tirá-lo de cima de mim.
E eu ainda estava pelada!
_ Por que você estava gritando, Clara?
_ Por que você está em cima de mim?
_ Porque você quase acordou a casa inteira com sua crise histérica. Sua vez de responder.
_ Tudo bem, mas saia de cima de mim primeiro.
Ele escaneou o meu rosto, checando se não tinha mais nenhum resquício de loucura pra eu colocar pra fora em forma de grito. Vendo que aparentemente eu estava controlada, ele finalmente saiu de cima de mim.
_ Primeiro – comecei com as mãos tapando os olhos, feito uma criancinha que não quer ver cenas de terror na TV – Coloque uma bermuda.
Nicolas deu uma risada estranha.
_ Não tem nada aqui que você não tenha visto, anjo.
Ruborizei imediatamente.
 _ Segundo, eu não sou seu anjo. A noite passada foi um erro, muito grande... Por isso eu gritei.
_ E qual vai ser a sua desculpa dessa vez? Tequila?
_ Eu... erm... Bem... – mas não achei a resposta. Dessa vez não daria pra usar o efeito álcool pra entrar na brincadeira de “não-queria-fazer-mas-fiz” – Coloca a porcaria da bermuda de uma vez.
_ Sabe, eu ouvi dizer que as mulheres ficam mais calmas e mais dóceis depois de uma boa noite.
_ Argh, como você é vulgar! E, sim, você ouviu certo... Nós ficamos mais calmas sim, mas depois de uma boa noite.
Tudo bem, não era a melhor hora pra provocar. Considerando o fato de eu estar só enrolada em um lençol e sem a mínima noção de onde foram parar as minhas roupas.
_ Então você não gostou mesmo? Porque, sabe, sempre se pode devolver o produto.
_ Eu tenho nojo de você, Nicolas. Por favor, mantenha-se longe de mim – sibilei, fazendo malabarismos para manter o lençol no corpo, afastar Nicolas de mim com a mão e ainda tapar a minha visão inocente do corpo nu do menino - QUER FAZER O FAVOR DE COLOCAR ESSA BERMUDA LOGO?
_ Ei, não espie. Eu tenho vergonha.
_ Ah, cala a boca.
Eu não conseguia pensar direito. Não sabia o que fazer, por onde começar a raciocinar.
Nicolas finalmente havia conseguido enfiar a bermuda por entre as pernas, o que parecia ser muito difícil pro nível mental dele. O que deixava em cheque a minha situação.
Corri os olhos pelo quarto, mas não achei minhas roupas.
Hum, não acredito que vou fazer isso.
 _ Nicolas... – nossa, chegava a doer ter que perguntar aquilo – Você sabe... hum...
_ Eu sei?
_ Ondeforampararasminhasroupas?
_ O quê?
_ Por favor, você ouviu.
Ele deu aquela risada novamente.
Eu não entendia porque eu estava sempre fazendo aquilo. Sei o jeito ridículo que esse garoto é. Sei que ele é mais novo do que eu e tem uma boca muito suja e atitudes que não condizem comigo. Sei também que ele é meu meio-primo que todas as priminhas são apaixonadas, e tenho repulsão a esses modismos. Não havia mentido quando disse que conhecia muito dos defeitos deles, e são os piores que uma pessoa pode ter.
Eu realmente conheço o Nicolas. E eu odeio jeito dele. Nunca fui de me deixar levar por play boys ridículos só porque a embalagem é legal e sarada. Nicolas é a encarnação de todos os malas do país, e eu ainda faço isso.
Duas vezes!
A primeira vez em que fui ao seu apartamento ainda tive a desculpa de que havia bebido demais. Só que não sou mais uma adolescente de dezesseis anos, virgem e insegura pra negar que me sentia fatalmente atraída por ele. A tequila havia ajudado, claro que sim... Mas não feito o trabalho sozinha.
Agora dessa vez, Deus! Ele ficaria muito convencido e prepotente.
Não sei se conseguiria lidar com o grande ego dele outra vez.
_ Não sei se suas roupas serão de grande ajuda, Clara – ele disse me obrigando a encará-lo.
E o infeliz ainda ficava mais lindo com a luz da manhã batendo nos cabelos com mexas tons de mel e ressaltando azul dos seus olhos. Ele ficava ainda mais bonito com aquela cara de sono e com aquela cara prepotente.
E mais uma vez me perguntei... Por quê? Se só a embalagem compensa. Por que não pegar aquele recipiente e enfiar em um rapaz decente que atualmente tem problemas com acne?
_ O que eu vou fazer, Nicolas? – choraminguei me sentando na cama.
_ Eu tenho uma idéia, quer ouvir?
_ Ah, cala a boca.
_ Não, é sério. Que mente poluída, Clara. Até parece o tipo de menina que sai dormindo com todos os meninos por aí – convencimento, arrogância, prepotência, chatice crônica, três pontinhos – Você pode usar uma roupa minha.
_ Nicolas... – respirei fundo – Você tem o dobro do meu tamanho.
_ Não tem problema – ele rebateu sorrindo.
Acabei parando em uma camisa de futebol muito grande, do Manchester United, que ficou parecendo um vestidinho pra mim. Nicolas tinha razão, minha blusa estava arruinada. Ao menos consegui recuperar os shorts.
Ele resolveu tomar um banho – não sem antes me pedir pra acompanhá-lo, típico. Eu também precisava de um banho, mas estava aflita pra sair daquele quarto e nunca entraria debaixo de um chuveiro com ele. Neguei o pedido com mais um “ah, cala essa boca”.
Milhões de planos de fuga estavam se formulando na minha cabeça. Do tipo pular a janela e descer pela videira. Tomar uma Coca-Cola e ser resgatada do mesmo jeito que o garoto foi na propaganda. E mais uma porção de truques ao nível 007.
É natal. A idéia passou do nada pelos meus pensamentos.
Ele saiu do banho com a toalha enrolada na cintura e com um cheiro muito gostoso em volta. Ele era todo gostoso, Deus.
Ok, hormônios, já faz um tempo que vocês deviam ter se controlado, não?
_ Olha, eu arrumo um jeito de te devolver essa camiseta sem precisar encontrar com você, ok? – disse meio constrangida comigo mesma.
Devo ter ficado vermelha, lógico.
_ Tanto drama. Isso é bem você, né, Clara? Fazer tanto drama com as coisas.
_ Se você não percebeu, eu não gosto de você. Estou na sua casa, às nove horas da manhã, usando a sua camiseta e sem a mínima idéia de como vou sair daqui sem ser vista pelos seus pais ou como vou chegar em casa sem levantar suspeitas. Então, ah... Claro que estou fazendo drama, não há problema nenhum mesmo.
_ Você sabe que nós não somos primos. E você tem vinte anos, pelo amor de Deus!
_ Alguém tem que ter responsabilidade nessa...
Engoli minhas palavras goela abaixo. Ele ficou me olhando e rindo com os olhos. Ele sabe muito bem como rir de mim com os olhos.
Por favor, não complete.
Havia acabado de recolher as minhas coisas e me virei pra ir embora. Já estava no batente da porta quando ouvi:
_ Nessa relação? – Merda.
_ Não existe relação. Eu ia dizer responsabilidade nessa “porcaria de mundo” – ralhei, depois completei a última frase me virando pra ele por cima do ombro e piscando – Esse é o problema de dar um pouco de sexo pra meninos mais novos. Eles apaixonam muito fácil.
_ Engraçado por que... – ele disse em um tom casual muito perigoso, se aproximando à medida que falava – não fui eu quem ficou murmurando meu nome à noite enquanto dormia.
Recuei um passo automaticamente pra trás.
_ Eu não disse sei nome coisa nenhuma - rebati na defensiva.
_ Ah, disse sim – ele riu, aquele sorriso que me irrita. Outro passo – Sabe por que eu sei?
_ Hum... – tentei parecer casual e confortável com a situação... Acho que não deu muito certo.
Outro passo.
_ Porque depois que nós... você sabe...
Um novo passo.
_ Que nós transamos? Não sabe pronunciar essa palavra, neném? – provoquei, tentando parecer superior e novamente falhando. A apreensão estava viva na minha voz.
_ Isso, depois que nós nos amamos... – ele me corrigiu, como se fosse ele o romântico e eu a vulgar. O tom perigoso da sua voz só estava aumentando. O frio no meu estômago só ia se apertando à medida que ele chegava mais perto - ... não consegui pegar no sono. Então fiquei observando você dormir.
Nicolas 1 x 0 Clara. SCORE!
_ Sério? – disse depois de dar uma risada que deveria soar despreocupada - Isso me parece coisa de menino bobo apaixonado.
_ Mais ou menos isso – Outro passo. Ele estava muito perto agora. Tanto que o cheiro bom de banho tomado já impregnava todo o meu olfato e me vazia divagar um pouco – É que você é tão linda dormindo, anjo. Você podia viver dormindo.
Coloquei a mão no seu peito, fazendo-o parar de se aproximar mais. Tentei ignorar a onda de calor que correu o meu corpo todo só fazendo isso. Ele ainda tinha a porcaria daquela toalha enrolada no corpo.
_ Eu sei o que você está fazendo – avisei – E não vai dar certo.
Eu pude imaginar o sorriso que ele deu, mas não tinha coragem de olhar nos seus olhos. Fixei meu olhar na sua boca vermelha, com os vasos ainda dilatados pelo calor do banho ela parecia ainda mais convidativa.
_ O que estou fazendo?
_ Você sabe o que está fazendo.
_ Olhe pra mim – ele mandou.
Foi praticamente automático. Não sei de que lugar esse garoto tira essa força que tem sobre os meus movimentos involuntários. Olhei pra ele.
Aqueles lindos olhos azuis meus estavam me encarando desafiadoramente.
_ O que eu estou fazendo, Clara?
_ Do que estamos falando?
_ Não sei...
Então ele me beijou.


Hum, esses dois... Eu não sei não. Esse capítulo foi meio "o que aconteceu?" Não é muito meu estilo de escrita. Não sei se ficou bom, se deu pra sentir friozinho na barriga com os dois. Acho que não.
Enfim, é isso aê :) 


Garotas Boas PART III



Respondendo a pergunta que talvez você não tenha feito, nós continuamos amigos pra sempre. Bem do jeito que ele queria. Talvez não do jeito que eu sempre sonhava, mas eu tinha o Leonardo do meu lado o tempo todo.
E quando digo o tempo todo, quero dizer todo o tempo.
Eu o tinha, mas não o tinha. Era um puto de um paradoxo muito ruim que me deixou pra baixo algumas vezes. Mas juro pular todo o melodrama. Afinal, não cheguei a chorar por ele tantas vezes assim e não seria a Clarissa que sou hoje se passasse capítulos e capítulos contando os meus dramas de amor platônico e toda aquela coisa de não sou amada, me ajudem (carinha triste).
A primeira vez que chorei foi quando ele me chamou de “irmã mais linda do mundo”. O que é doentio. A classificação de irmã me afetou de um jeito tão grande porque foi quando percebi que era assim mesmo que ele me via. Como uma irmãzinha menor e que sempre seria uma criança. Nesse dia devo ter virado a noite morrendo e acordado com quilos de olheiras.
A segunda e última vez foi quando ele me contou que estava namorando uma garota chamada Alissa. Foi a primeira verdadeira namorada dele e acho que foi a primeira menina de quem ele realmente gostou. Como de praxe, ela era dois anos mais velha do que ele e desconfio que foi com ela com quem ele fez a primeira bobeirinha, mesmo não tendo me contado na época.
Fiquei tão arrasada quando ele me deus as boas novas que devo ter ficado de depressão uma semana, sem ânimo pra nada. Que esperto da sua parte, não, Clarissa?
Por fim também peço licença pra pular toda parte boba de adolescente apaixonada que fantasia um milhão de coisas em cima de cada mínima frase que seu amor fala. Funciona mais ou menos assim.
Leonardo diz:
_ Minha cor preferida é o marrom.
Clarissa pensa:
Nossa, eu sou morena. Se eu sou morena, consequentemente sou marrom e se marrom é a cor preferida dele isso é uma indireta em que ele tenta dizer que gosta da minha cor.
Deprimente, eu sei. E olha que peguei leve nessa viagem aí.

Mas acho que a pior das piores viagens que eu tinha com Leonardo era quando eu encarava o ciúme doentio que ele tinha de mim como algo além de só “ciúmes doentio”.
Deixe esclarecer algumas coisas.
Foram dois anos de amor louco e, veja só, acontecem mudanças bem... Perceptíveis quando se passa de quatorze para dezesseis anos. Bom, talvez com as mulheres sim. Então ganhei um belo par de seios, minha bunda ficou grande e os garotos passaram a me classificar como gostosa.
E, como era o esperado, choveu homem na minha horta.
Leonardo, por sua vez, odiava qualquer e todo menino que pudesse ser classificado na categoria “homem”. Principalmente se esse “homem” resolvesse dar em cima de mim ou pior... som de tambores rufando... chegar em mim. O que depois de um tempo passa a ser um probleminha, já que Leonardo com seus belos dezoito anos tinha uma caixa toráxica bastante desenvolvida, um par de bíceps bem gradinhos e seus um e noventa que intimidavam qualquer marmanjo.
Obrigada, Deus, por não ter colocado irmãos na minha vida. Porque com um amigo desses, eu não precisaria nem de pais.
Alguns, mesmo contra todas as expectativas, ameaçavam se aproximar de mim. Outros paravam na Grande Muralha Leonardo.
O que no início era fofo e uma grande prova de que ele também nutria sentimentos por mim, no final passou a ser um grande pé no saco. Comecei a perceber isso quando o namoro com Alissa começava a ficar mais sério e ele ainda pegava no meu pé dia e noite. Com perguntas do tipo “quem é esse menino, Clarissa?”, “você vai começar a ficar falada, hein”, “tome cuidado com as pessoas que você se envolve” e até chegar ao extremo de conversar com a minha mãe e pedir que ela me proibisse de sair com essa ou aquela pessoa.
GRR.
Ainda assim, tive as minhas inúmeras infrutíferas experiências amorosas mesmo com tanta pressão “externa”. Fiz vários caras se apaixonarem perdidamente por mim (e não estou sendo metida, só não gosto de falsa modéstia). Ouvi gaguejarem, tremerem e suarem frio vários meninos para dizer um euteamo muito inaudível e depois, como ainda não era tão má a ponto de rir na cara deles, eu fazia uma cara bonitinha e me livrava deles no dia seguinte.
Meninos que te amam são muito insuportáveis.
Acabei não namorando ninguém no final, porque eu amava muito mesmo Leonardo. Quando se tem um grande amor, ele dura pra sempre, não é verdade?
Quase isso.
É mais ou menos assim: eu amo minha família, amo meus pais, meu cachorro e meu celular. Mas chamo esse tipo de amor é o que chamo de amor seguro. Afinal; nunca vou pegar meu pai na cama com minha melhor amiga (ou vou?); meu cachorro, que já está quase morrendo, nunca, eu espero, foi pra balada depois de me deixar em casa; e meu celular geralmente não mente – ao menos que receba mensagens mentirosas, mas aí já nem é culpa dele.
Tive ainda muitos relacionamentos rápidos que acabaram meio tragicamente: eu matando o infeliz (brincadeira, só teve uma vez que deixei o menino esperando no cinema e isso nem é tão maldoso assim). Mas nenhum deles foi tão devastador quanto o que dá nome às fases da minha vida. Os períodos pré, durante e pós Leonardo.

E eu aqui, dizendo que pularia todo o melodrama e ainda sim gastando linhas e linhas me lamentando.
Então segue o dia em que percebi que não deixaria Leonardo controlar minha vida, meus pensamentos e meu coração.



Eu não conseguia calcular o tanto que estava puta. Estava tão puta que todas as TPMS de todas as mulheres do mundo juntas não se comparavam ao estado de raiva que eu me encontrava. Ajeitei novamente o vestido preto tubinho que teimava em subir de uma forma tão bruta que quase deixei a mostra os meus peitos. Em pensar que no início da noite eu estava tão animada, me achando super sexy e boa... Respirei fundo, não me deixaria abalar daquela forma. Arrumei os cabelos e entrei na festa.

Acontece que esse mesmo vestido preto tinha sido a principal causa de o Leonardo passar todo o caminho da minha casa até a festa reclamando de mim. Melhor, todo o caminho desde a minha casa.
Eu havia passado algumas boas horas me arrumando pra festa, tentando impressionar vocês-sabem-quem. Então desci as escadas quicando de felicidade esperando ouvir ao menos um elogio e tudo que recebi foi um:
_ Esse vestido está muito curto, pode ir trocar.
_ Você está brincando, não é?
_ Claro que não - ele respondeu muito sério.
Fiquei possessa e passei por ele sem ao menos olhar na sua cara.
_ Eu não vou te levar a lugar algum com essa roupa, Clarissa! – ele gritou da porta da minha casa quando eu já estava no jardim.
Virei pra trás indignada.
_ É melhor você entrar dentro desse carro, Leonardo, ou você vai se arrepender muito – ameacei, mas sabia que se ele não quisesse, não entraria.
Ele pensou por dois minutos e na hora não entendi o que o havia feito mudar de idéia, só mais tarde entendi que era porque ele tinha que buscar a Alissa e já estava atrasado (o que me deixou ainda mais brava) e discutir comigo tomaria muito tempo.
Se eu achava que dentro do carro teria paz, estava muito enganada.
Ele passou trinta minutos falando do meu vestido, da minha maquiagem pesada que me fazia parecer uma prostituta e até nas minhas unhas vermelhas ele colocou defeito. Nesse meio tempo surpreendentemente sobrou espaço para ele perceber que eu estava calada.
_ Por que está tão calada? – ele perguntou, mesmo sabendo que só fico assim quando estou muito puta.
E eu estava puta não somente com a bomba de críticas que recebi quando eu me sentia muito linda, obrigada. Estava puta porque havia começado a perceber que aquele ciúmes doentio dele era realmente só um ciúmes doentio e não tinha nada a ver com não-dê-moral-pra-eles-e-sim-pra-mim.
_ Não vai passar pra buscar a Alissa? – perguntei acidamente, sem olhar pra ele.
_ Vou sim, depois que te deixar na festa – Ah, claro - Vem cá, porque está falando assim comigo?
1,2,3,4...
_ Porque eu estou muito puta com você, Leonardo! – explodi, ele se assustou tanto que passou pra outra pista e quase bateu em uma moto  – Você não para de me criticar um segundo, acha defeito em cada maldito lugar em mim. Eu não agüento mais a porra dos seus ciúmes. Eu quero ter a minha vida, quero tomar as minhas decisões e não preciso de um pai me seguindo em todo o lugar que eu vou. Então cala a porra dessa sua boquinha e continua dirigindo, porque mais uma crise de ciúmes sua e eu pulo dessa janela na mesma hora.
Eu nunca havia explodido daquele jeito. Nunca, com ninguém. Precisei até respirar depois de vomitar tudo aquilo. E depois... Bem, eu nunca havia me sentido tão leve.
Depois de tantas coisas que nunca havia feito eu deveria ter percebido o que aquela festa me aguardava, mas na hora estava mais preocupada com a reação do Léo.
Ele provavelmente pararia o carro e, ou me mandaria descer, ou me levaria de volta pra casa.
Mas ele não falou nada. Muito menos parou o carro. Continuou dirigindo com os olhos na estrada. Julgando pela forma com que ele abria a boca pra falar alguma coisa, mas parecia não achar as palavras, acho que pela primeira vez na vida ele percebeu que eu tinha razão. Ou estava muito chocado com o fato de descobrir que, ah meu Deus, a Cacá sabe o que é um palavrão.
Ou um ou outro.
De todo jeito ele continuou no caminho da festa em um silêncio mortal. A essa altura eu já estava me arrependendo de ter gritado com ele, falado palavrões e o mandado ficar caladinho. O Leonardo caladinho era muito mais assustador do que falando.
Mas pela sua cara devia ele estar mais ressentido do que bravo.
O resto da viagem foi esquisita. Eu queria falar, mas não podia descer do salto. Então aquele silêncio ruim tomou conta de cada milímetro de espaço e foi me sufocando, me sufocando...
Quando ele finalmente parou o carro na frente do salão de festas achei que teria um ataque cardíaco. Controlei meu descontrole e tentei descer com classe, mas a porta estava trancada.
Hum, ótimo.
Olhei pra ele com uma falha tentativa de olhar intimidador. Ah, peguem leve, eu realmente estava ressentida de ter brigado com ele. Minha raiva já era só fachada.
_ Desculpa – ele pediu, ainda sem olhar pra mim.
_ Não, você me desculpa – disse, praticamente me derretendo com aquela carinha de magoado.
_ Olha, eu sei que não posso mandar em você...
_ É, devia ter percebido isso antes.
_ ... Mas é que eu acho que você quer muito mais do que dançar nessa festa hoje.
Foi a mesma coisa que acender outro pavio dentro de mim. Todo o ressentimento se esvaeceu feito gás.
_ E se for? – eu disse num tom de voz mais alto - O que é da sua conta?
_ Eu sou responsável por você, imbecil.
_ Não é não, imbecil!
_ Não? Posso te levar pra casa agora mesmo e te fazer ficar de castigo por uma semana – ameaçou.
Respirei muito, muito fundo para não gritar. Sabia que ele havia usado a carta principal: sua mãe confia mais em mim do que em você. Sabia que era verdade, mas não podia admitir. Mas minha raiva crescia tão rápido que eu não consegui controlar minha língua.
Olhei bem no fundo dos olhos dele e disse pausadamente:
_ Se você fizer isso, Leonardo, eu vou te odiar pro resto da minha vida.
E tive o efeito esperado.
Léo passou a mão pelos cabelos, bufou e fez aquela cara de irritado. Eu até hoje amo o deixar irritado só pra ver essa cara, e olha que nos últimos anos eu a vi muitas vezes. Olhou no relógio, constatou que já era tarde e que a Alissa devia estar brava e, finalmente, abriu a porta do carro. Provavelmente previu que aquela discussão poderia durar horas e horas.
Saí imediatamente, esperando não deixar espaços pra novos diálogos.
_ Eu quero que você me espere bem aí, não entre ainda. Vou demorar dez minutinhos, nós ainda não terminamos.
Aham, Leonardo. Claro que vou esperar. Principalmente porque você não me quer dentro do carro porque Alissa tem ciúmes de mim.
Assim que coloquei os pés no salão lotado, a realidade veio até mim como uma bomba.
Eu havia brigado pela primeira vez com Leonardo. E mais de uma vez.
Antes fosse a única coisa que fiz naquela bendita festa – brigar com o Léo foi só a ponta do iceberg de loucuras daquela noite.
Pra começar, eu bebi muito. Confesso também que nunca havia bebido antes e que me descobri um pouco fraca pra álcool e afins. Outra coisa: beijei mais garotos do que já havia beijado a minha vida toda, e eu nem precisei contar para confirmar isso. Mas, de longe, a maior loucura foi acordar na casa de um quase-desconhecido.

A festa estava lotada, ponto. Não era possível andar direito no meio daquele monte de gente e acabei por não conseguir achar as minhas amigas. Meu celular tinha ficado dentro do carro. No meio de uma festa daquelas, completamente perdida e esperando Leonardo me achar a qualquer momento e me levar pra casa, acabei procurando caminho mais rápido pro open bar.
Nunca havia feito aquilo antes.
Não sabia o que fazer, então o bartender me ajudou e me deu uma dica de bebida. Aquela desgraça era forte, praticamente metade do copo era vodka. Até hoje fico meio ruim quando bebo isso, imagine com dezesseis anos e nenhum histórico de internação por coma alcoólico?
Caralho, fiquei muito louca.
E mesmo louca eu podia sentir a presença do Leonardo em todo o lugar. Sabia que ele estava me vigiando e não sei se por ação do álcool ou por estar começando a mudar, eu não dei a mínima.
Uma vez cheguei a dar um gritinho quando topei com ele na minha frente, a centímetros de mim.
_ Leonardo! – gritei, já bastante alterada.
_ O que pensa que está fazendo? – ele perguntou com o cenho franzido e um ar de bem poucos amigos.
_ Eu estou... – tive que parar e pensar no que diria. Cara, como eu estava bêbada – Me divertindo, não está vendo?
_ Divertindo? – seu tom era de raiva contida – Pensa que ficar se esfregando nesses imbecis é diversão, Clarissa?
_ Hmmmm... – nova pausa para processamento – É bem legal, você devia tentar. Você é gay?
Então ele pegou meu braço bruscamente e me puxou pra cima, como se quisesse que eu visse a raiva fluir pelos seus olhos. Eu vi, mas não me importei muito. Aliás, as coisas já estavam meio fora de foco mesmo...
Fingi que processava tudo o que ele me falava enquanto esquadrinhava seu rosto.
Por que você tem que ser tão bonito, desgraçado? Era o que eu pensava a todo o momento.
Ele deve ter ralhado comigo uns cinco minutos.
_ Quer saber? – respondi me livrando do seu aperto e rindo em seguida – Você é engraçado. Já sei o que vou fazer... Vou me esfregar em tooodos os caras daqui, não é uma boa idéia?
Completei, sumindo na confusão de luz e cores da pista de dança. Aposto que Leonardo ficou com uma cara completa de tacho, me vendo rebolar até desaparecer. Porque além de tonta eu estava gata, e homem sempre é homem.

Bem, o que fiz em seguida é um ponto escuro. Desconfio de que tinha mais do que vodka no meu copo, mas é algo que não posso provar. Ainda não sabia como era o gosto de drogas, então não sou capaz de diferenciar. São duas horas de falha total, e nem quero imaginar o que posso ter feito nesse meio tempo já que a minha memória só volta quando estou sentada no banco do bar.
Sentada não é bem a palavra certa. Eu parecia uma boneca de pano que fora jogada em um canto qualquer. O que quer que tenha acontecido nessas duas horas foi o suficiente para me deixar detonada.
Minha cabeça descansava na mão e eu não via muito mais do que a madeira do balcão. Não conseguia mover nenhum músculo e meu corpo já pedia cama.
_ Mais alguma coisa, moça? – o garçom perguntou, tirando o copo vazio da minha frente.
_ S-sim... – gaguejei, levantando a cabeça devagar e encarando o cara. Provavelmente eu estava preste a dizer “qualquer porcaria”, mas vendo o quanto ele era gato, reformulei – Um beijo, pode ser?
Ele riu, guardando algumas garrafas embaixo do balcão e limpando as mãos no avental. Pensei que ele ao menos me zombaria, mas nem falou nada e virou-se de costas pra mim.
Ótimo, um fora de um garçom.
Deixei a cabeça cair nas mãos novamente. Alguma noção de que eu deveria ir embora, que deveria achar Leonardo - ou qualquer resquício de sanidade, começou a vagar pelos meus pensamentos. Mas eles estavam muito confusos.
Descobri porque as pessoas bebem para esquecer os problemas.
_ Como é o seu nome, garota? – o garçom gato perguntou, me assustando.
_ E isso importa? – murmurei ainda de cabeça baixa.
_ Quer dizer que não se lembra.
_ Mais ou menos isso, gatinho.
_ Clarissa!  - alguém me chamou, reconheci a voz de imediato.
O garçom riu, talvez por descobrir meu nome, e me deixou sozinha novamente. Ou quase, já que Léo se aproximava de mim com uma expressão furiosa.
_ O que aconteceu, Léo? – perguntei naquela inocência típica de porre.
Isso me faz rir até hoje. Ele deve ter ficado muito irado com essa pergunta.
_ O que aconteceu, Clarissa? Que INFERNO! – ele gritou mesmo, tão alto que mesmo com a música algumas pessoas olharam pra gente – Eu estou te procurando faz horas, a Alissa está puta comigo porque eu só estou preocupado com você e, por fim, ouço falar que uma “gostosa do caralho” estava dançando em cima da mesa. Uma tal de Clarissa está andando por aí muito louca, você viu? Então quando eu te acho você me pergunta o que PORRA está acontecendo?
_ Legal, Léo – respondi entusiasmada de verdade - Agora me compra uma caipirinha, por favor.
Se alguém, algum dia, já conseguiu explodir de raiva, esse alguém estava em um estado muito próximo ao que o Leonardo ficou assim que soltei minha última pérola.
Quero dizer, acho que ele esperava que eu me desculpasse, que ficasse calada, que vomitasse e até que começasse a chorar. Mas não que eu dissesse nada parecido com “Legal” ou ainda “você pode me embebedar mais, por favor?”.
Sinceramente cheguei a pensar que ele me enforcaria, ou me daria um murro e tudo o mais. E, sinceramente, talvez ele o fizesse se alguém não tivesse nos interrompido na hora.
_ Leonardo? – era o Túlio, que na hora eu havia classificado como “ahmeudeusdocéhmeudeusdoc hora eu havia classificado como " com ele na minha frente, a centachar a qualquer momento e me levar pra casa, acabu que Deus Grego é esse?"
O Túlio é desses caras que chamam atenção de uma vez. É alto, dos cabelos e pretos e dos olhos muito claros. Fazia um contraste interessante com o tom moreno escuro da pele do Léo.
_ Oi, Túilo - Léo o cumprimentou tentando parecer feliz - Tudo bem?
_ Tudo ótimo, festa legal e... Nossa!
_ Oi, prazer. Meu nome é Clarissa, não Nossa. Mas, enfim, me chame como quiser.
Patético. Não se esqueçam de que eu estava muito bêbada. Geralmente não saio passando cantadas podres pra qualquer um que conheço pela primeira vez. Mas pensando melhor, não peço beijos para garçons, então...
Túlio só riu e me estendeu a mão.
Quando fui me levantar para cumprimentá-lo, minhas vistas se foram e eu quase levei um tombo. E a cena não para de ficar mais patética: Túlio me segurou, rindo de novo.
_ Nossa, como você é gato - mandei assim que fiquei bem perto do rosto dele.
Bem, também não saio julgando se as pessoas são ou não são bonitas dessa forma bastante audível com muita freqüência.Mas funcionou.
Quando estávamos quase nos beijando, Leonardo me puxou pelo braço de uma só vez.
_ Ei, ótario! - reclamei, meio sem saber por que estava reclamando.
Alguém, por favor, me lembre disso na próxima vez que eu quiser misturar tequila com vodka.
_ Desculpe, Túlio, você é meu amigo, mas... Ela está muito bêbada.
_ Não estou, não! - gritei de novo, mas minha exclamação ficou meio falha já que tive que apoiar nele pra não cair.
O infeliz só rolou os olhos pra mim, como se eu não fosse nada além de uma mosca pousando no seu ombro.
_ Tudo bem, a gente se vê por aí - Túlio disse em um tom de desculpas.
_ Nós estamos indo embora agora - Leonardo sibilou pra mim assim que Túlio se afastou um pouquinho.
Demorei dois segundos pra racionar aquilo.
_ Não vou embora agora não, docinho - afirmei numa voz de bebê, pegando nas bochechas dele - Túlio, espera aí!
Então pulei em cima dele e o beijei.
Acho que não restam dúvidas de que a casa do "quase-desconhecido" que acordei no outro dia foi a do Túlio. Ou seja, novo lugar pra curtir a ressaca do primeiro porre.
Seria ainda mais confortável se eu estivesse usando minhas próprias roupas quando acordei.


Caralho, foi muito engraçado escrever esse daqui. Eu fico me imaginando tomando um porre e se eu faria esse tipo de coisa. Provavelmente não. KKKKKK Mas e ai? As tranformações da Clarissa te agradam?
Ainda nem comecei a escrever o novo capítulo, então vai demoraaar HAHA 



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Garotas Boas PART II



Conclusão: nem sempre eu fui assim. Do jeito que sou hoje. Um dia eu já fui legal, boazinha e comportada. Já tirei notas boas, já me preocupei mais com o futuro do que com o presente, mas também já me apaixonei pelo meu melhor amigo. Já pratiquei exercícios físicos e nem sempre fui tão tirada e tão sarcástica. Acho que já fui criança, mas essas memórias estão bem apagadas.
Dizem que o cérebro bloqueia memórias ruins como forma de auto-preservação. Deve ser isso que aconteceu. Bloqueei a parte boa da minha vida e só sou capaz de me lembrar nitidamente das trágicas.
Sendo assim, falando em tragédia, acho que vou me dar ao luxo de voltar um pouco no tempo. Daquela época em que as garotas ainda tinham “diários” (isso ainda existe?) e de onde tirei grande parte da inspiração para esse capítulo. Não me lembro muito bem desse dia, mas lembro das emoções. Por isso não recuperei muita coisa, muitos detalhes, mas acho que é o suficiente.
Chamo esse episódio de “O Começo”, porque foi quando eu percebi que estava apaixonada por ele mesmo e não tinha mais volta. Só um aviso: não chorem, mesmo que queiram. Eu não chorei, não vejo porque chorarem.

Estava chovendo pra caramba naquele dia. Chequei na porta da casa dele encharcada e humilhada por um garotinho de cinco anos que passou em uma caminhonete nada humilde e fez um daqueles sinais feios que garotos dessa idade não deveriam saber. Estava caminhando debaixo daquelas chuvas torrenciais de verão quando isso aconteceu, e continuei embaixo dela por mais dez minutos. Quando o volume de água aumentou percebi que era melhor abortar a operação “Volta Para Casa” e ancorar na porta da casa dele – que era bem mais perto.
Ego molhado e ferido. Roupas encharcadas e sujas de lama. Cabelo detonado e ainda sim rebelde. Mochila surrada e cadernos arruinados.
Leonardo abriu a porta com uma bruta cara de sono e sem camisa. Deu uma boa checada em mim dos pés a cabeça e fez uma cara que eu deduzi, no momento, ser de preocupação. Estava muito frio, chovia muito e eu... eu estava lá fora, jogada aos cães naquele mau tempo. É para preocupar qualquer um. Conclui isso porque, é claro, eu não havia me dado conta do parágrafo ali em cima.
Então quando ele abriu a boca pra falar algo e achei que sairia alguma coisa parecida com “Meu Deus, Clarissa, o que aconteceu com você?” ou “Menina, você é louca? Ficar aí de fora nesse mau tempo? Entra aí!” ou até mesmo “Nossa, amor, você está bem? Entre e vamos nos aquecer fazendo um chocolate quente” e tudo o que se fala quando se preocupa com a pessoa, ele...
Bem, ele riu.
Honestamente, não sei porque esperava outra reação dele. Afinal, ele era capaz de fazer ora com a minha cara mesmo quando eu estava fazendo absolutamente nada, imagine quando eu apareço na porta da casa dele, no meio de um temporal, toda encharcada e parecendo um pinto molhado? Eu teria rido da cara dele se fosse ao contrário e o Leonardo, bem, ele é um daqueles que perde o amigo, mas não perde a piada.
Sendo assim, a minha reação foi totalmente exagerada, confesso. Só que meu estado era tão deplorável, meus pés doíam tanto, estava tão magoada com o garotinho sem educação e eu estava tão esgotada que fechei a cara enquanto ele ria. E ele não parou de rir por um bom tempo, mesmo eu estando com a cara fechada e sinceramente magoada.
O que, obviamente, é o certo de se esperar do Leonardo.
Quando finalmente ele percebeu que eu não riria junto com ele e que tremia muito mesmo, ele me abraçou e me colocou pra dentro. E lá dentro estava quente. Tanto o abraço dele quanto a casa em si. Fiquei um pouco chocada com a bruta demonstração de afeto repentina, mas não deveria ter ficado.
Esse era um dos sinais que eu ignorei. Um dos sinais de que alguma coisa estava errada quanto a minha concepção de amizade com ele. Aquilo, de me abraçar, era normal. Essas oscilações de humor loucas dele (uma hora estar rindo da minha cara e na outra estar me abraçando) já estavam gravadas no meu disco rígido e eu havia me programado para não me surpreender mais. Como quando ele me acertou um soco do nada só porque eu falei que Dragon Ball Z era coisa de bixinha.
Meu corpo reagiu ao abraço e ao calor imediatamente. Derreti nos braços dele e fui obrigada a me jogar no sofá para não cair no chão e me enrolar no tapete felpudo da sala.
Assim que viu como eu realmente estava o discurso começou. Despejou milhões de broncas sobre como é infantil pular poças enquanto ainda chove e sobre como eu deveria ter esperado a chuva passar para me divertir do lado de fora de casa. Como se eu fosse uma criança. E entre um sermão e outro sempre entrava o termo: você precisa se aquecer.
Muito típico. A vontade que eu tinha era de mandá-lo decidir entre rir da minha cara ou ficar louco de preocupação. Os dois de uma só vez estavam me deixando confusa.
Quando ele se aproximou de mim todos os músculos do meu corpo ficaram tensos. Não entendi no início, vai ver era muito inocente mesmo, mas eram só meus instintos reagindo a estar sozinha em casa com um homem muito gostoso e muito lindo sem camisa a centímetros de você.
_ Que saudades eu estava de você, patricinha – ele gritou enquanto me esmagava no sofá.
_ Aham, Léo... Obrigada. Está bom agora, né? Eu disse... não consigo respirar...
_ Você está fedendo.
_ E eu não sei? – reclamei, tentando tirá-lo de cima de mim - Mas não posso chegar em casa com toda essa chuva.
Acabei tomando banho por lá mesmo. Entrei dentro de um moletom gigantesco dele, porque minhas roupas estavam horríveis. Pela primeira vez senti seu cheiro. Eu nunca antes havia reparado que ele cheirava tão bem e, olha, teve bem algumas vezes que ficamos bem perto um do outro. Outra dica que meu corpo gritava “Hello! Você gosta dele, vai lá e diz isso!”, mas que eu não ouvia. 
Isso, no meu “querido Diário” está registrado assim:
Quando coloquei o blusão dele depois do banho senti um cheiro esquisito. Mas não esquisito de ruim, esquisito de bom. Demorei um tempinho pra perceber que vinha da blusa dele, e não entendi porque ele cheirava tão bem antes e eu não havia percebido. Ah, o cheiro dele é tão bom. Sabe, aqueles de lavanda? (cara, deveria ser o amaciante barato que ele usava!) Fiquei uns cinco minutos deitada na cama dele e sentindo aquele cheiro em todo o lugar. Foi muito lindo, muito mágico. Eu poderia ficar sentindo aquilo o resto da noite. Eu poderia dormir em cima daquele cheiro e acordar feito um bebê. (...)
E a humilhação de exposição de pensamentos adolescentes vai parar por aí porque eu ainda tenho uma reputação a zelar. Hoje não consigo me imaginar fazendo isso e não consigo acreditar o quão patética fui. Mas era só eu sendo uma adolescente boba.
Enfim, fizemos o chocolate-quente com o qual havia fantasiado e arrastamos todos os cobertores da casa pro sofá. Tudo isso enquanto a chuva corria lá fora em toneladas.
_ Isso ficou bom – ele disse depois de provar o chocolate.
_ Eu sei. Sou foda, sou sinistra. – brinquei, atirando uma almofada nele.
_ Não, Clarissa. Você acha que é foda porque eu sou seu amigo e faço você parecer que é foda. O dia em que você não me tiver mais, vai perceber que não é nada sem mim.
Meu coração se apertou. Congelei com o copo na metade do caminho até minha boca.
_ O que foi? – ele perguntou.
_ Nada... Não foi nada.
_ Cacá, estou brincando. Vamos ser amigos pra sempre, não vamos?
_ É – respondi meio triste, mesmo sem saber o porquê de estar triste – Acho que vamos sim.
Ele colocou o copo dele na mesinha de centro para me abraçar. Seu corpo havia se desenvolvido tanto que eu já não era mais capaz de envolvê-lo por completo. De novo senti o seu cheiro, dessa vez mais forte já que vinha dele e não do moletom ou de qualquer outra parte do quarto dele que não consigo me imaginar cheirando. Ele escorou a cabeça no meu ombro, que nem uma criançinha abraçando a mãe.
Novamente não entendi porque essa comparação me incomodou tanto.
_ Você vai derramar meu chocolate-quente, Léo – resmunguei, mas sem a mínima vontade de que ele parasse de me abraçar.
_ Dane-se o chocolate... Eu podia ficar aqui pra sempre.
_ É, eu também.



Ninguém sabe muito bem quando se apaixonada, certo? Errado. Eu sabia, sempre soube. Foi acontecendo, acho que é natural.
Naquela noite, eu dormi na casa dele. Dormi abraçada a ele no sofá, assistindo a algum filme brega de terror – que acabava sempre se tornando comédia com os comentários dele. Tudo bem que eu acordei no outro dia no tapete do chão enquanto o Folgado (também conhecido como Leonardo) se esparramava de braços abertos no sofá.
A maldita chuva não passou até o outro dia de manhã – juro que São Pedro estava mancomunado com algum anjinho cupido.
Quanto ao meu estado de espírito, digamos que é mais difícil descer flutuando das nuvens do que cair em forma de gotas.
Enquanto a enxurrada levava tudo de ruim rua abaixo, aquela noite levava toda uma fase da minha vida. E, como a água, um dia eu desembocaria em algum lugar.
A questão era onde e como.


 Novamente um conto que era pra ter só duas partes, mas que alonguei e alonguei HAHAH Já tenho toda a história postada no Nyah!, mas vou reescrevê-la. Quem leu no outro blog deve ter percebido a graaande diferença na narrativa.

Tequila, Jogos PARTE II




 Então aqui vai mais um capítulo dessa história. Quem batia à porta?



Eu o teria empurrado pra longe de mim – o que qualquer pessoa racional faria – se suas mãos não houvessem se transformado em grades de ferro ao redor da minha cintura. Aliás, somado isso ao meu problema de parar em pé eu teria caído no chão se ele resolvesse me soltar.
As batidas na porta se intensificaram.
_ Garotos, estão aí? Pelo amor de Deus, ouvi alguma coisa batendo aí dentro. Vocês estão me deixando preocupada; o que está acontecendo?
Hum... por onde começar, tia Rosa?
E rezei. Confesso que não por uma causa justa, mas achei que só Deus seria capaz de me tirar daquela situação.
_ Quem é? – Nicolas perguntou, tapando minha boca com a mão.
Ele previra que eu gritaria “é claro que é a tia Rosa, otário!”.
_ É a tia Rosa...
_ Tia, eu estou meio ocupado aqui.
O quê? Busquei seu rosto, desesperada, e tentei outra vez me livrar do seu abraço. Falhando novamente, tudo o que pude fazer foi implorar com os olhos pra que ele não fizesse o que ele estava pensando em fazer. Aquilo era suicídio.
Meu corpo a essa altura já estava tremendo de medo. É irracional. O medo flui através de nossos corpos mesmo contra nossa vontade. E flui ainda mais rápido quando seu primo mega-gostoso diz pra sua tia hiper-sensitiva que está “meio ocupado” enquanto te mantém refém dentro do quarto dele, em uma posição no mínimo constrangedora e totalmente subjugada a qualquer atitude dele. Inclusive aquelas que envolvem suicídio moral.
 _ Ocupado? – ela perguntou depois do que pareceu ser uma hora – Com o quê? – pausa – Nicolas... a Clara não estaria aí com você, estaria?
E voilá, ela mata a charada. E depois me mata, junto com toda a família.
Não sei se comecei a chorar, ou a resmungar, ou a soluçar. Ou tudo junto. O que sei é que Nicolas soltou a mão que tapava a minha boca e passou delicadamente pelo meu rosto para me acalmar. Seus dedos acompanharam a linha da minha testa, do meu nariz e da minha boca até chegar ao meu pescoço.
_ Shhh... Vai ficar tudo bem, anjo – ele me acalmava muito, muito baixinho.
Ou aquele garoto expirava hélio e eu fogo; ou ele descobriu a fórmula para a combustão espontânea porque a forma com que meu corpo sempre reagia quando estava perto dele não é como eu sou. Ou pelo menos como achava que era antes de embarcar nessa viagem estúpida.
Tive que me controlar para não passar a mão debaixo da sua camisa.
Ele deve ter percebido o que eu estava fazendo porque soltou uma risadinha abafada.
_ Nicolas? – minha tia repetiu, cada vez mais ansiosa – Eu quero que você me responda agora: a Clara está com você?
_ Ela também está meio ocupada, tia – ele respondeu em tom brincalhão.
Ocupada em tentar não me jogar em cima dele ou ocupada me jogando em cima dele? Fiquei confusa.
Aparentemente minha tia também. Houve um segundo, apenas um segundo, até que ela entendesse o recado. Milhões de significados e pedidos embutidos em uma só frase. Melhor, só um: fique caladinha, por favor, e não conte ao mundo o que ouviu e viu agora a pouco. Pude ouvir sua respiração pesada mesmo através da porta.
_ Sendo assim, v-vai demorar muito tempo para você dois... Quero dizer, para a Clara terminar com o seu... – ela se enrolou aparentemente chocada com a revelação – Enfim, com seu computador?
_ Não sei, não sei... – ele respondeu com os olhos no meu. O infeliz ainda tinha aquele sorriso sarcástico no rosto enquanto me analisava – Ela parece estar tendo um pequeno probleminha de superaquecimento.
_ Ah... – foi tudo o que ela disse, soando mais como um suspiro do que como uma resposta propriamente.
O som do salto alto batendo contra o taco foi ficando cada vez mais distante, até desaparecer completamente.
Santo.
Deus.
Só não estatelei diretamente no chão porque Nicolas ainda me segurava. Nem sabia se ainda tinha joelhos, quem dirá pés.
Eu estava meio que em estado de choque. Fiquei encarando o vazio, sentido aquela sensação que se tem depois de ter levado um susto muito grande. Parecia que um caminhão tinha passado em cima de mim, ou que alguém tinha me moído junto com a carne por engano.
Mesmo sem ter recuperado meu equilíbrio interno, soltei-me dos braços dele. Ele não tentou me segurar, deve ter percebido minha necessidade de respirar.
Sentei na cama de uma vez e apoiei a cabeça nas mãos.
_ Ela não vai contar pra ninguém – ele disse um pouco hesitante em se aproximar – tia Rosa é uma mulher maneira.
Não respondi. Aquele torpor ainda preenchia todo meu corpo, não conseguia falar. Caralho, eu duvidava poder formar palavras pelo resto da minha vida.
Podia sentir Nicolas no quarto. Podia sentir sua vontade de falar, e sua vontade de me fazer falar alguma coisa. Meu corpo parecia irradiar calor até ele, e vice-versa. Só que ele também não disse nada por um bom tempo.
Ficamos nós ali, parados.
Ele com medo de dizer alguma coisa e me fazer, sei lá, desparecer no ar. Eu sem vontade, sem ânimo e sem voz pra argumentar nada.
Depois de algum tempo, Nicolas foi quem quebrou o gelo:
_ Eu não vou deixar que ela conte a ninguém.
Tempo suficiente para eu poder recuperar a minha voz:
_ E esse é só mais um dos seus problemas.
_ Mais um dos meus problemas? Você conhece todos os meus defeitos?
_ Não todos, posso te garantir. Uma quantidade ínfima, mas que você não cansa de usar quando está perto de mim.
Ele deu outra daquelas risadas sarcásticas que tanto me irritavam. Nem me incomodei em me incomodar com aquilo, tinha tanta coisa a mais na minha cabeça.
Se minha tia Rosa resolvesse contar pra todo mundo o que havia acontecido eu estava ferrada.
Minha mãe provavelmente daria a louca e, se não fosse o meu próprio dinheiro que me sustentasse, me mandaria de volta de Uberlândia pra Patos de Minas. Como ela não pode fazer isso, até porque tenho minha própria firma pra gerir, todos os telefonemas dentro de um ano seriam repletos de advertências e de agulhadas periódicas. Um saco.
Meu pai simplesmente não pararia de me olhar com aquele típico “eu-sei-o-que-você-fez-no-natal-passado”. O que me mataria já que a confiança e respeito que demorei tanto tempo pra adquirir com o ele são algo que prezo bastante.
Quanto ao resto da família. Bem, nem preciso comentar. Ver a garotinha que sempre fez tudo certinho, que sempre foi a filhinha da mamãe, fazer coisa errada – mesmo que fosse só uma coisa errada – seria o suficiente para descerem a lenha em cima de mim. Fora as piadinhas importunas de todos os meus outros primos.
Moralmente com a minha família eu não teria mais pontos nenhum.

Fiquei tão concentrada prevendo o futuro apocalíptico que nem percebi que Nicolas havia se ajoelhado na minha frente e tomado as minhas mãos.
_ Não pode controlar todo mundo – disse pra ele, mas querendo ele me mandasse calar a boca e aprender a confiar mais nele.
Ele me olhou com aqueles olhos de garotinho fofo e assutado, que sempre usava contra mim quando queria algo.
_ Tem razão, eu não posso. Mas isso eu posso controlar. Confia em mim.
_ Você não pode controlar a tia Rosa. Não pode controlar todo mundo – repeti, aumentando um pouco o tom de voz.
_ Ao menos eu posso te controlar.
_ Não, não pode.
Nicolas então surpreendentemente riu. Do nada. Uma risada gostosa e limpa, sem nenhuma mancha de sarcasmo e ironia que todas suas risadas carregavam. Foi só um riso. Só isso. Mas a maneira que sua bochecha espremia seus olhos e criava ruguinhas ao seu redor era muito encantadora. Eu nunca o havia visto rindo daquela maneira, só por rir. Ele chegou a lagrimejar, tendo que usar a mão pra limpar as lágrimas.
Fiquei encantada com a cena.
Um sorriso automático ameaçou se abrir no meu rosto, como se ele rir me forçasse a rir também. E eu quis rir junto, mas não podia. Ser pego pegando sua prima deveria ser trágico, não engraçado. Forcei uma cara de brava, contendo o sorriso que queria escapar automaticamente, e fiquei esperando uma explicação.
Que não veio.
Num instante ele tentava parar de rir e no outro me deitava facilmente na cama. Muito rápido. Rápido demais para que eu pudesse processar o que estava acontecendo e impedisse. Rápido demais para que a minha razão se sobrepusesse à emoção.
Porque eu negaria. Diria que não até a morte, mesmo sob tortura. Não aceitaria que meu corpo pedia que ele continuasse me beijando e que ele queria continuar a sentir as mãos dele nas minhas costas. Não, jamais admitiria.
Verbalmente.
As reações explosivas que meu corpo parecia reservar só ao toque dele... Bem, já eram outra história.
Sabia que havia ficado com as pernas entre seu quadril, meio sentada e meio deitada, apoiada só pelas mãos no colchão – mas era só uma sensação vaga no meio de tanta coisa acontecendo no meu corpo todo.
Estávamos nos movendo sem que eu percebesse. Minhas costas encontraram a cabeceira da cama de uma só vez, mas ele não ligou. Ou nem percebeu. Só pareceu intensificar ainda mais o beijo.
Ele cortou a ligação entre nós de repente, me deixando arfando e sem saber onde estava ou o que estava acontecendo.
_ O quê...? – mas ele colocou o dedo suavemente na minha boca, me impedindo de falar. Seu polegar percorreu o caminho do meu lábio inferior até o colo do meu peito.
_ Você é perfeita – ele murmurou.
Nada que demonstrasse que ele estava tão arfante quanto eu. O idiota provavelmente estava jogando novamente, se perguntando até onde eu levaria aquilo. Do que a doce e perfeita Clara seria capaz?
Se fosse isso, estaria nos olhos dele.
Doce erro. Os olhos dele estavam perigosamente perto. Aqueles olhos azuis faiscantes que me torturaram a noite toda, ali na minha frente. Bem na minha frente. Não, advérbio de lugar errado. Aqueles olhos azuis faiscantes do inferno estavam em mim. Decorando-me, com um desejo violento correndo dentro deles.
Então uma certeza surgiu como sol dentro da minha cabeça. “Meus. Esses malditos olhos azuis; meus”.
Dessa vez quem buscou a boca do outro avidamente fora eu. Mantive os olhos abertos, fixados nos dele, até os meus olhos azuis se fecharem.
Bom, ele no mínimo, veria do que a doce Clara é capaz.




Acordei no outro dia às oito da manhã no chão frio do quarto.
Praticamente gritando.

domingo, 21 de novembro de 2010

Direito de Matar "I"

_ Sei que às vezes seus compromissos noturnos podem parecer mais importantes do que a escola, só que gostaria que parasse de dormir nas minhas aulas. Quero dizer, se for possível.
_ Eu, erm...


Mas de uma hora pra outra não havia mais motivos para falar. Reconheceria aquele toque irritante, mesmo nos sonhos, de qualquer lugar no globo.
Droga de segundas-feiras.
Abafou o som irritante do despertador com a mão e se esforçou para não atirá-lo pela janela do quarto. Seria a quarta tentativa de homicídio, se o fizesse. Optou por não testar a santidade da mãe a tal ponto, mas continuou embaixo das cobertas.
Não ficaria por muito tempo e sabia disso. Ao menos não depois dos próximos cinco, quatro, três, dois um...
 Sua mãe chegou, irritada como sempre, e atirou as cobertas de cima dela pro chão.
_ Estamos só começando a semana, Marcela! Eu simplesmente não sei mais o que faço com você.
Marcela por sua vez resmungou algo inaudível. Estava casada daquele falatório de sempre sobre como ela teria que adquirir responsabilidades se quisesse ser algo na vida. Conteve outra vez o impulso de perguntar o que seria ser “algo na vida”. Se englobasse ficar em casa o dia inteiro se embebedando, ela estava dentro. Algo fora desse contexto não a interessavam nem um pouco.
_ ... e não vou deixar você faltar mais uma semana – conclui Elisabete.
_ É segunda-feira. É madrugada. Não estou a fim de sair da cama, e muito menos de ir pra escola. Aliás, não estou a fim de fazer nada hoje – a garota rebateu tentando se aquecer, sem sucesso.
_ Não me interessa o que você, abre aspas, está a fim de fazer, fecha aspas. Agora, saia dessa cama e vá para o banheiro se arrumar, ou vai chegar atrasada. E nem pense nessa possibilidade.
A discussão foi encerrada com o baque surdo da porta dona Elisabeth bateu a porta. Ela era tão inacreditável! Não sabia argumentar, ou tentar convencê-la pacificamente de participar do controlador de mentes que chamavam de escola. Não, nunca fora muito adepta de teorias conspiratórias hippies, mas usava aquele argumento quando não encontrava nenhum. Na verdade, nem prestava muita atenção no que realmente ensinavam na escola, por isso nunca entendia o motivo de levantar cedo.
Seguiu para o banheiro resignada. Não havia razão para discutir com sua mãe ninharias dispensáveis. Era, afinal, melhor manter sua moral alta para problemas futuros. Claro que esse “futuro” estava bem próximo – existem coisas como... bem, que não são fáceis de se esconder.
 Abriu a pasta de dente se perguntando se havia algo pior do que acordar cedo. Espinhas! Aquelas malditas espinhas brotando de todos os lugares mais improváveis. Ah, droga! Precisaria de muitos quilos de corretivo para esmagar aqueles pequenos vulcões em erupção. Saiu xingando toda a geração de adolescentes que inventou os hormônios. Porque, segundo seu professor de biologia (totalmente demais e lindo, Ferrari) grande parte das questões existenciais são causadas somente por pequenas estruturas protéicas: hormônios.

Pegou a mochila sobre a estante e fugiu em disparada pela porta da cozinha. Fugiu, sim. Tudo para pular o blábláblá matinal sobre como o café da manhã era a refeição mais importante do dia da sua mãe, e foi direto para o elevador.
Deu de cara com o boy next door. Que, na realidade, era mais ou menos um boy up door. Ele morava no apartamento de cima, e era ridiculamente atraente. Aquele ridículo que os adolescentes geralmente usam quando não querem admitir que algo seja realmente legal, o que no caso é o fato de que o vizinho de cima era totalmente lindo.
 Pela segunda vez no dia culpou os hormônios por corar instantaneamente e entrou no cubículo apertado em silêncio.
_ Bom dia, Mel – ele a chamava assim porque, segundo ele, Marcela não era um nome que se encaixava com ela.
Marcela detestava particularmente o apelido Mel. Fato que ele conhecia muito bem - e talvez se lembrasse dele todas as vezes que a chamava assim. Só para vê-la ficar irritada.
Ela não seria capaz de se lembrar (estava tão bêbada que podia pular da sacada do prédio achando que era um trampolim), mas o apelido surgiu por pura ironia. Basta dizer que Marcela não é a pessoa mais educada e polida quando está no grau. Assim, Mel se encaixa perfeitamente com seu humor, e personalidade.
_ Péssimo dia, Watson – Marcela retribui o elogio e escondeu um sorriso nervoso.
Watson não havia sido de fato uma idéia dela. Não sabia ao certo quando descobriu que poderia chamá-lo assim todas as vezes que ele usasse o nome “Mel” para ela, que ele se sentiria tão irritado quanto. Talvez tenha ouvido um colega mais sacana, ou até mesmo inventado por si só. Não importava. Tudo o que ela queria saber é que sempre que o chamava de Watson ele passava a mão nos cabelos e dava aquele sorriso desconfortável que ela achava super sexy.
Por aí já dá pra entender que a história dos apelidos é tão confusa quanto a própria história deles.

O que aconteceu com os dois, e naquele momento ainda acontecia, era tão complexo e tão simples que Marcela se perguntava porque diabos não resolvia aquela merda de uma vez. Isso acontecia sempre que se encontrava com ele no elevador ou em qualquer lugar que fosse. Mas era complicado e simples ao mesmo tempo.
Era complicado porque Tomás tinha uma namorada. Daquelas que, desde que Marcela se conhece por gente, esteve com ele – ou talvez nem tanto tempo assim. O nome da garota era Ray, e era bonita de doer. A verdade era que Marcela sentia tanta inveja daqueles cabelos pretos e daqueles olhos verdes que chegava a fazer mal às vezes. Não que ela admitisse isso, Marcela geralmente não admite coisas muito fácil.
E era simples porque o envolvimento dos dois era puramente superficial e fácil de acabar.
Alguns meses atrás ambos cederam. Estavam trocando olhares e palavras cheias de duplo-sentido fazia algum tempo, e então acabou acontecendo. Estavam no salão de festa do prédio, bebendo e falando idiotices (ficaram muito amigos, afinal se viam todos os dias) quando Marcela simplesmente o beijou. Bem assim, na lata.
Depois acabaram se pegando mais vezes, mas sempre em surdina. O garoto tinha uma namorada e uma reputação pra zelar. Ela também. Quer dizer, uma reputação – ainda não nascera o homem capaz de suportar seu gênio estranho.
Só que toda vez que tentava resistir a ele, ou até mesmo conversar, Marcela não conseguia. Eles sempre acabavam no amasso. Algo quase totalmente físico, ela imaginava.
Essas escapadas para ficar com um homem mais velho e comprometido eram parte do motivo que ela deveria manter a moral muito, muito alta com a mãe.
Assim, era fácil porque ela podia simplesmente acabar com tudo aquilo – e não se meter mais em confusões.

_ Ressaca? – Tomás perguntou, enquanto desciam os cinco andares.
_ Talvez .
_ Hum, já entendi. Você é lua-nova hoje. Não quer que eu apareça.
Ela ficou calada.
Também odiava aquela mania que ele tinha de compará-la às fases da lua. Pensando melhor, ela odiava basicamente tudo não-físico nele.
_ Vai continuar me ignorando, senhorita Mel? Porque desse jeito talvez eu acabe aparecendo no seu apartamento com duas garrafas de Ice na mão e acabe tendo que beber tudo sozinho se você bater a porta na minha cara.
_ Você é um canalha, que trai a namorada – Marcela respondeu em um tom neutro, como se estivesse comentando sobre ações estáveis na bolsa de valores. Depois emendou um pouco mais brava - Não, não acho que queira alguém assim na minha casa. E, estou pedindo pela última vez, pare de me comparar com as fases da lua.
_ Às nove horas está bom?
_ Com certeza – Marcela confirmou, sorrindo.
Então a porta do elevador se abriu e eles saíram naturalmente, como sempre faziam. Ninguém nunca desconfiaria de nada, a menos que um dos dois quisesse.

_ Marcela! – alguém gritou do outro lado da rua.
A pessoinha abanava a mão freneticamente tentando chamar atenção. Como se estivesse em meio a uma multidão em uma rua no centro da China, e não em frente a um dos poucos prédios, as seis e quarenta e cinco da manhã, em um bairro calmo de Paraíso.
E Marcela estava com pouca paciência para amigas histéricas àquela hora da madrugada.
_ Oi, Camila. Como está seu dia? – suspirou, tentando parecer razoavelmente feliz.
Não precisava fazer muito esforço. Camila estava geralmente muito no mundo da lua para perceber algo tão sutil quanto uma mudança de humor.


O que não acontece com Joan.
_ O que inferno aconteceu contigo, M.? – Joan perguntou assim que encontrou com a amiga nas escadas.
_ Não aconteceu nada comigo, “inferno”.
_ Ah, meu Deus. Ontem foi domingo, não foi? Você saiu com... – Joan abaixou a voz e conferiu se não havia ninguém por perto antes de continuar – Watson!
Ao contrário de outras garotas, Joan não entrava em pânico – ou o que quer que se chame quando meninas descobrem uma fofoca quente. Ela simplesmente respirava fundo, como estava fazendo ali, e contava até dez.
Porque sempre que Marcela se encontrava com Tomás, bebia. E sempre que bebia, se ferrava.
_ Não encontrei com ele, sua louca – Marcela continuava mentindo.
_  Você está vermelha, com olheiras, com o cabelo desarrumado e está falando baixo e roucamente. Ou seja, você se encontrou com ele ontem sim. Dio mio, quando é que você vai colocar um fim nisso?
_ Ei, eu nunca comecei nada. Não tem como se colocar um fim em algo que não começou, certo?
_ Você o beijou – Joan disse em seguida.
_ Ou não. Quem sabe? Eu estava bêbada demais, não consigo me lembrar de muita coisa.
Joan encarou a amiga por baixo dos óculos de armação vermelha, seus olhos chegaram a faiscar reprovação. Nunca aprovara aquela coisa louca que Marcela parecia precisar pra viver. O que incluía beber, beijar caras desconhecidos, caras comprometidos, mentir para sua mãe e algo mais.
Marcela já nunca achou muito saudável ler um livro por semana, prestar atenção nas aulas e viver pro futuro ao invés do presente. Quem dava a garantia de que existiria o amanhã?
_ Eu já sei todo aquele discurso, e você já sabe que é inútil – Marcela cortou Joan quando percebeu que ela começaria a falar.
_ Um dia você vai ter que acabar com Tomás, e vai ser pior se esse dia demorar.
_ Joan, é só um jogo. Diversão, já ouviu falar? Devia tentar às vezes – Marcela ironizou, impaciente.
_ Está nervosa de novo – Joan apontou, acusando a mentira - Está se apaixonando por ele, e o pior é que sabe disso.
_ Eu não sei. E que tal trocarmos de assunto? Você é um porre quando fica dando conselhos.
_ Estarei sempre aqui quando precisar de um bom conselho.
_ Só pediria conselhos pra você se estivesse drogada – Marcela disse, colocando a mochila em cima da carteira.
_ Que ótimo, posso te esperar em breve – Joan refutou com uma piscadela, também se sentando.
Não conversaram pelos próximos dois horários.
Sem nada pra fazer, Marcela puxou o capuz do moletom pra frente do rosto e afundou na cadeira. Quem sabe não conseguisse dormir por algum tempo até bater o sinal de aviso pro recreio?

Algum tempo depois Marcela tentaria se lembrar desse dia, ou dessa hora – sem saber exatamente que era essa a hora. A seqüência começa aqui, na aula de biologia (com o professor totalmente lindo e demais, Ferrari) chamando sua atenção. Claro que, como estava dormindo, nunca seria capaz de se lembrar. O primeiro incidente, onde tudo começa. Às vezes é importante, para problemas futuros.
O ponto zero.

O professor Ferrari deixou cair um livro pesado (muito provavelmente a Teoria da Evolução, de Darwin) sobre a mesa dela, fazendo-a acordar de um sono pesado que entrara no final do segundo horário e só saía agora, no final do terceiro.
Meio grogue e com as vistas embaçadas, Marcela encarou o rosto perfeito e furioso do professor. Ele estava do lado da sua mesa, e algo na sua posição a fez lembrar de algo. Não se lembrou o que. Chegou a notar o desenho estampado na sua blusa, um desenho infantil e antigo, e isso também despertou sua atenção. Só que ainda estava metade no sonho que estava tendo, e por isso só percebeu que ele falava segundos depois.
_ Sei que às vezes seus compromissos noturnos podem parecer mais importantes do que a escola, só que gostaria que parasse de dormir nas minhas aulas. Quero dizer, se for possível.
_ Eu, erm...
Mas, de uma hora pra outra, não havia motivos pra responder.
Tudo naquela cena se encaixava perfeitamente com... com alguma coisa. A posição de Ferrari, sua roupa, sua feição, até a sua fala! Essa cena já aconteceu antes, foi o que ela concluiu. Até sua própria fala batia com a de antes.
Não sabia explicar como, ou por quê, mas tudo aquilo já havia acontecido. Em algum lugar do passado.
Todo aquele jorro de pensamentos que se seguiu com uma só frase a deixou tonta. A sirene alta para o intervalo só fez piorar o black-out que Marcela sofreu. Ficou muito pouco tempo apagada, como se seu cérebro precisasse daqueles segundos para voltar ao lugar.
 Olhou ao seu redor calmamente, procurando o professor. Ele não estava mais na sala. Aliás, metade da sala já havia saído pro intervalo. Ferrari deveria ter encarado seu silêncio como sempre: coisa de Marcela.
Joan também não estava ali, graças a Deus. Ela sacaria o que teria acontecido facilmente, o que não era uma coisa boa. Quero dizer, milhões de especulações sobre um incidente simples e outras milhões de conclusões sobre o que poderia ser.
Só que aquela sensação daquela cena já ter acontecido continuava forte.
_ Marcela, você vai vomitar? Por que parece que você vai vomitar – Anita surgiu do nada, com um tom meio receoso.
Compreensível: ninguém gosta de vômito espalhado pelo uniforme.
_ Não vou vomitar – Marcela a tranqüilizou.
_ Está passando mal?
_ Ah, merda, acho que sim – ela concluiu quando tentou se levantar e sua visão ficou turva.
_ Fique sentada, vou buscar um copo d’água. Depois você me conta o que aconteceu.
Anita voltou segundos depois com a água. Esperou pacientemente Marcela se recompor e decidir começar a falar. Daquele jeito bem Anita, sem dizer uma palavra – só pedindo com o olhar.
Marcela se sentiu bem melhor com a água, respirou fundo e tentou colocar os pensamento na lugar.
_ Quando o professor Ferrari chamou a minha atenção, aconteceu alguma coisa e... eu fiquei meio zonza – explicou.
_ Ele geralmente causa esse efeito nas garotas.
Ambas riram um pouco.
_ Não, boba. Eu senti como se já tivesse visto aquela cena antes, entende?
_ Claro que sim.
Marcela encarou a amiga estupefata. Nunca esperaria que ela compreendesse tão simplesmente o que havia acontecido. Afinal, nem ela própria compreendia muito bem.
_ Foi um dejá vù – Anita explicou calmamente, mas como a fisionomia da Marcela não mudou muito, completou – Acontece às vezes. Sabe, é como se já tivéssemos sonhado com aquilo.
_ Bem isso!
_ Então, não há motivos pra pânico. Esqueça – ela aconselhou.
Anita levantou-se sutilmente da cadeira e desapareceu tão facilmente quanto apareceu. Todos já estavam acostumados com suas fugas sem motivos.

Foi exatamente isto o que Marcela fez. Esqueceu o que aconteceu naquela aula de biologia, pra sempre. São poucas as pessoas que tem a capacidade de esquecer tão rapidamente certos assuntos. Principalmente assuntos que são de extrema importância, mesmo que não saibam disso.
O segundo “incidente” aconteceu na mesma tarde daquela segunda-feira. Na verdade, o segundo sonho que precederia o tal.  Se ela soubesse o que sabemos, provavelmente não deixaria o dever de matemática de lado pra poder dormir à tarde.
Mas matemática é algo realmente entediante. Todas aquelas fórmulas, e contas, e carneirinhos. Chato. Sonolento...

Aquilo é realmente um ônibus? – foi a primeira coisa que ela pensou. Estava indo na direção dela e com certeza a arremessaria e quem quer que estivesse junto bem longe. Era Anita, junto dela. Agora podia ver claramente. Tomás também estava ali, segurando o braço dela.
E o ônibus continuava vindo.
Ele dá uma guinada para longe deles. O suspiro de alívio nem chegou a sair – o ônibus agora seguia em direção... bem, em direção a que?

Acordou com o bipe do celular. Ah, que ótimo: cinco mensagens de texto e três ligações. Todas de Anita (uma pessoa que não costuma ligar tantas vezes). Marcara de se encontrar com ela na sorveteria, e Marcela acabou dormindo muito tempo. Três horas seguidas – ela constatou olhando pro celular.
Porcaria.
Pegou um casaco e saiu de casa como um raio.


A tenente Sônia estava juntando os papéis para, finalmente, sair para uma folga de dois dias – sábado e domingo, quando o telefone tocou. Olhou para os lados, as mãos cheias de documentos e formulários de B.O; mas nenhuma daqueles folgados estava em seus lugares no plantão do 190.
Droga, já eram sete horas. Deveria estar em casa à uma hora atrás. Suspirou, jogou os arquivos em cima da mesa e atendeu ao telefone. Pegou uma caneta casualmente. Então prestou mais atenção, era importante – grave. Sim, estava escutando bem. Anotou o lugar, a hora.
E percebeu que mais uma vez aquela folga seria adiada.


Marcela só saiu da sorveteria depois das dez horas da noite. Tarde no conceito da sua mãe – e talvez no de toda a sociedade tradicional – e só o começo da noite pra ela. Uma noite que não terminaria muito bem só que, por enquanto, Marcela só se preocupava com Gustavo.
Porque Anita simplesmente fora embora deixando Gustavo, seu namorado, com Marcela, sozinho na sorveteria.
_ Desculpe, pessoal. Tenho que sair agora – foi o que ela disse.
E simplesmente saiu. Assim mesmo, sem nenhuma outra explicação. Gustavo só ficou olhando a namorada virar a esquina, sem dizer mais nada. Bom, não havia o que comentar de qualquer forma.
_ Isso foi... – Gustavo começou, tentando não falar muito.
Palavras, perto de Marcela, devem ser medidas com um conta-gotas. Ele já havia aprendido a lição.
_ Muito estranho – a garota completou quando percebeu o desconcerto dele.
Então entraram em um silêncio desconfortável por alguns minutos. Ninguém sabia ao certo o que dizer, se era melhor irem embora. Gustavo e ela não eram o que podia ser chamado de “melhores amigos”. Eles não se suportavam. Mesmo assim, Marcela foi quem quebrou o clima, fazendo um barulho estranho com o resto de coca-cola do copo.
Estranhamente, o som fez Gustavo criar coragem pra dizer o que estava entalado.
_ Está sendo difícil – ele confessou.
_ O quê? – Marcela fingiu ignorância.
Porque sabia sobre o que Gustavo falava. Sobre como era difícil namorar Anita – se como amiga ela já dava um trabalho do caramba, nem queria imaginar para seus namorados.

Anita era extremamente fechada com todo mundo. Muito pouco se sabia sobre sua vida pessoal, e social não tinha nenhuma. Raramente exaltava seus sentimentos e parecia não dar a mínima pra ninguém.
O que também incluí a legião de garotos que viviam atrás dela.
 Uma verdadeira legião querendo penetrar naquela fortaleza de pedra pura. Pedindo números de telefone, uma chance, um beijo, quem sabe namorar? Marcela nem queria imaginar como ela dera uma chance pra Gustavo.
Porque Anita sabia o real motivo de todas aquelas pragas infestarem sua vida, páginas na Internet e tudo o mais: sair com ela dava Ibope, popularidade. A garota mais bonita do colégio, a mais difícil, quem se arrisca?
Fosse para manter a fama de garota misteriosa, fosse porque ela era, simplesmente, assim mesmo; ela continuava a recusar os mais diversos pedidos, dos mais variados tipos de garotos.
E Gustavo nem era tão bonito assim, Marcela concluiu.
Aquele estereótipo divulgado por aí. Alto, moreno, olhos claros, porte físico avantajado, blábláblá. Não fazia o tipo da garota sentada ao seu lado. Muito menos o de Anita, julgando o pouco que Marcela a conhecia.
Pensando melhor, Anita definitivamente não tinha um “tipo” de garoto. Nem um “tipo” de agir. Bom, talvez fosse aquele ali, sentado na sorveteria, casualmente sugando um milk-shake.

Marcela pegou Gustavo encarando-a, como quem espera uma resposta. Não se lembrava nem de ter existido uma pergunta, então improvisou:
_ Ela é linda, a garota ideal – imitou o tom falso de voz que às vezes ouvia de outras garotas – Conversinha. Anita é totalmente diferente, ela é foda. Se acha que está levando lucro em sair com ela, porque vai contar pros seus amigos sobre como é ficar com Anita Garelli, esqueça. Não vale a pena lutar por ela só por fama.
Aquela resposta pareceu surpreender Gustavo, visto que ele chegou a se afastar da mesa e colocar as mãos na cabeça. Só depois de um tempo ele foi capaz de perguntar, com a voz embargada, perplexo:
_ É o que ela pensa sobre mim? Que a estou namorando por uma faminha vagabunda?
_ É o que eu penso, imbecil. É o que todo mundo pensa. Ninguém em sã consciência suportaria namorar uma menina tão fria e tão difícil de mexer.
_ Eu não quero perdê-la – Gustavo confessou meio de supetão.
Marcela foi pega de surpresa. Bem, aquilo era novo. Todos os outros haviam concordado com ela, dito que Anita era isso ou aquilo e começado a reclamar da garota. Todos foram chutados logo mais tarde.
Contrariando as expectativas, Gustavo confessou que não queria perder a namorada. Aquilo era mais no novo pra Marcela, era fascinante.
Ela o analisou por um instante, e mais tarde nem seria capaz de acreditar que realmente perguntara isto sem estar suficientemente bêbada:
_ Você a ama? Quero dizer, de verdade?
_ Amo mais do que deveria, é a verdade – ele se esquivou, percebeu que estava falando demais.
Gustavo pegou seu casaco de couro preto da cadeira e girou as chaves da moto na mão, disposto a acabar com a conversa ali. Havia se lembrado que era com Marcela com quem ele estava falando, não era confiável.
_ Quer carona? – ele ofereceu.
_ Depende; se for pra casa... não – Marcela disse, sorrindo de lado.
_ Você escolhe o destino, então. Eu tenho a noite toda.
Ela deu uma conferida rápida no relógio de pulso e sorriu novamente.
_ Então somos dois.


A porta do elevador se abriu em um clique que não seria ouvido – se fosse à tarde e o barulho exterior estivesse alto. Mas eram três horas da manhã, e o prédio estava em silêncio, portando aquele som sutil teve o estrondo de uma bomba atômica.
Ao menos foi o que Marcela sentiu quando o ouviu. Um monstrinho silencioso começou a escalar sua garganta dizendo “Está ferrada, idiota”. Milhões de desculpas já começavam a se formar em sua cabeça enquanto ela se virava para ver quem seria o pai de santo acordado altas da noite.
Automaticamente empurrou o menino que beijava pra frente, tentando criar uma distância mais ou menos legal. Também ouvindo o som, ele virou-se pra ver quem saía do elevador antes que Marcela pudesse sair de trás dele. Sentiu o corpo de Gustavo se contrair.
Agora ela precisava saber quem havia chamado o elevador pro seu andar. Tentou se esquivar e, com muito custo, conseguiu sair de trás do garoto.
                                            
Para mais uma vez topar com o boy next door, ou boy up door, Tomás. Quem a estava encarando com um sorriso sarcástico de triunfo; daqueles que se usa quando se pede truco tendo um zap nas mãos. A diferença era que ao invés de cartas ele tinha uma garrafa de Orloff na mão, e a esquerda ainda segurava o botão para manter a porta do elevador aberta.
Filho. Da. Mãe – é o que ele é; Marcela sibilou em pensamentos.
_ Ora, ora... – Tomás cantarolou – O que temos aqui?
Gustavo fitou Marcela com um pedido suplicante nos olhos de “me salve, por favor”.
É incrível como mulheres são muito mais racionais do que os homens nessas horas.
Horas em que sabem que estão totalmente ferradas.
_ Gustavo, é melhor você ir. Já está tarde e... Bem, ande logo e suma daqui – ela praticamente cuspiu a última frase.
Tomás abriu espaço para o rapaz entrar no elevador, ficou mais alguns segundos rindo de ambos, antes de sair para o corredor e deixar Gustavo, finalmente, desaparecer pelo elevador.
_ Pode me explicar, Mel? – ele pediu educadamente, mas sem deixar aquele tom zombeteiro escapar um segundo.
_ Eu não devo explicações pra ninguém, Watson. Mas, principalmente, eu não devo explicações pra você – Marcela praticamente ameaçou, só que o tom de voz no momento não permitia mais do que um sussurro fraco.
_ Pra ninguém? – Tomás continuou o jogo, falando mais baixo ainda – Nem mesmo pra uma menina de nome... Anita?
Em um movimento rápido, Marcela o prensou na parede. Ele poderia facilmente ter se esquivado, ou mesmo tirado as mãos dela de si, mas algo no olhar dela deixava claro o aviso de que era melhor não tentar nada.
_ Você não viu nada hoje. Nada, compreende? – ela falou entre os dentes.
_ Compreendo, Mel. Até o dia em que essa informação se fizer necessária – Tomás disse calmamente, pegando as mãos que estavam em seu pescoço e as segurando rente ao seu quadril.
Ele percebeu quando Marcela vacilou e arrepiou com seu toque. Aproveitou a deixa pra chegar mais perto, seus rostos quase se tocando.
_ Você está cheirando a álcool – apesar das palavras, sua voz saía mansa. Quase um ronronar – Onde esteve, Mel? Fiquei te esperando desde as nove horas... Nós tínhamos combinado hoje de manhã.
_ Por favor, Tomás, você é ridículo – mas a risada nervosa que saiu no final acabou com o tom de repreensão da voz dela.
_ Sabia que sua mãe estava preocupada com você? – ele subia as mãos para sua cintura enquanto falava, e completou com a boca no pescoço dela – Sabia que ela veio atrás de mim?
Os arrepios que percorriam sua pele toda vez que ele a tocava, misturados com o alto nível de álcool em seu sangue, já haviam tirado toda a linha de pensamento restante de seu pensamento. Marcela funcionava, naquele momento, praticamente só comandada pelos instintos.
O mesmo instinto que a fez dar um passo pra trás quando ouviu a palavra “mãe”.
_ Minha mãe, atrás de você? – ela perguntou, incapaz de somar dois mais dois.
Engana-se quem acha que mães não sabem nada sobre a vida “fora de casa” dos filhos. Sei que é cansativo repetir, mas mães têm um instinto natural. É a lei da sobrevivência, culpem Darwin.
_ Sim, ela queria saber o que eu tinha feito com a filha dela.
Ah, merda – foi o lampejo lúcido que transpassou seus pensamentos. Claro que dona Elisabete sabia, como não? Tomás, os rolos, as bebedeiras... Marcela chegou a duvidar que ela não estivesse espiando pelo olho mágico naquela hora.
_ E você sabe o que eu fiz? – Tomás insistiu diante a falta de reação da garota – Você tem uma noção do que eu fiz?
_ Espero, pro seu bem, que você tenha perguntado “quem diabos é Marcela?” – ela respondeu quase entrando em desespero.
_ Não – ele disse e riu em seguida - Falei que você estava na casa da Camila. E é onde você está agora, não é? Bom, foi o que Camila disse quando sua mãe ligou lá. Não se lembra de ter falado com ela? Ah, você tem uma memória bem fraca...
_ Você não seria louco – Marcela disse, tentando inutilmente impedir seu cérebro de chegar a conclusão que ele queria.
Tomás nunca faria nada pra ela assim, de graça.
_ Ou talvez... – Tomás embalou, ignorando o que Marcela dissera – Você preferiria a outra versão. Aquela em que você sai com o namorado da sua melhor amiga, para em todos os bares possíveis e impossíveis, chega de madrugada e, vejam só, ainda o beija na porta de casa. Melhor, você dá um amasso nele na porta da sua casa. Podemos contar essa agora, se você quiser...
_ Está me seguindo? – Marcela estreitou os olhos em uma fenda.
_ Quem está sendo ridícula agora? Eu saber as idiotices que você faz é o seu menor problema agora.
Estava bêbada, entorpecida pela presença dele, mas não louca. Raciocinava lentamente, mas via onde aquele discurso chato queria chegar. Onde Tomás queria chegar.
Porque se ela não podia entrar em casa, nem podia dormir na rua...
_ Estou te devendo uma – ela reconheceu à contra gosto – mas sei que não faz nada de graça. Odeio ficar em dívida. Mas odeio muito mais ficar em dívida contigo. Achei que tivéssemos um acordo sobre não interferir na vida particular do outro.
_ Bom, acho que acabei ajudando.
_ Mas o que espera que eu faça? Que eu vá correndo pela madrugada pedir asilo político na casa da Camila? E, Deus, minha mãe vai me fazer acordar cedo amanhã se eu entrar em casa escondida!
_ Bem... – Tomás enrolou. Passou as duas mãos nos cabelos, o que faz quando quer dizer algo difícil, importante ou... estranho de se dizer – Achei que talvez você quisesse ficar lá em casa.
O grito de “o quê??” ficou entalado. Eram três horas da manhã, o prédio dormia, estavam na porta de casa, ela estava bêbada. Não era o melhor momento pra se gritar. Passou a mensagem que queria com um olhar, e Tomás entendeu.

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