quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Daqueles Amores

"Daqueles amores que ficam grudados na pele"


Ele pegou a minha bolsa que estava encostada na cadeira onde eu estava sentada. Olhei para ele com um ar de "sério mesmo, cara?", mas ele continuava impassível. Irredutível. Claro que eu poderia ir embora se quisesse. Sim, sem a minha bolsa seria impossível embora ele não fizesse o tipo ladrão por opção ou algo assim.

Levantei-me lentamente, com um pouco de raiva misturada a curiosidade. Meu celular vibrou.
A saudade está simplesmente fora do normal.  C.R.
E estava mesmo... Poxa, era previsível! Deveria estar apertando mesmo, e estava há três minutos atrás. Agora, agora parecia simplesmente que eu nunca tinha visto meu namorado na vida. Parecia, de verdade, que eu não tinha passado a noite passada chorando feito uma tola escutando Strokes no último volume de lingerie. 'Porque, vida?' Eu me perguntava... Ele não precisava morar tão longe. Mas isso foi há três minutos.

Agora eu simplesmente ignorei a mensagem.

A verdade é que eu estava ignorando meu status de relacionamento a partir do momento que o havia encontrado no shopping. Minhas convicções e moral foram sumindo gradativamente a meninas que nos cumprimentávamos, que ele me chamava pra comer alguma coisa no restaurante japonês no último andar, que ele segurava a minha mão e no final já não havia certeza de mais nada dentro de mim.  

Olhei pra cima e ele ainda me esperava com aquela típica cara de impaciente: vamos logo sair daqui?

_ Acho que tudo o que temos pra conversar dá pra ser resolvido aqui, você não acha, Luccas?

Ele entregou minha bolsa assim que fiquei de pé totalmente.

_ Claro que dá... Consigo te ouvir claramente logo depois de ignorar os gritos dessa bandinha horrorosa que está tocando agora. Por favor, Linda, eu não vou te sequestrar ao algo do tipo. Só quero um lugar mais calmo.

Aham, claro.

A temperatura havia baixado, no mínimo, uns 10 graus num período de 30 minutos. Coloquei o sobretudo que estava mofando no banco de trás do carro há mais de duas semanas (obrigado, Gertude, por não me deixar sair de casa sem ele) e ajeitei o cachecol. Ele riu. Sempre fazia isso quando eu começava com a mania de frio. "Mania". 20 graus, isso não é frio?

As chaves do carro saíram da minha mão como mágica e foram parar no seu bolso. Olha, ladrão talvez não, porém furtador eu já estava cogitando a hipótese. Nada de dirigir, só queria andar um pouco... Tomar um ar, parar na pracinha mais perto e pedir um cachorro quente qualquer. Nenhuma referência ao nosso último encontro feliz no parque, nem nada. Tudo bem...

Coloquei a melhor expressão 'anda, desembucha' assim que sentei no banco da praça. Luccas colocou as duas mãos na boca, pensou, pensou, pensou e soltou uma boa:

_ Você está linda.

"Anda, desembucha".

_ Tudo bem... Olha, eu sei que nós nunca funcionamos. Sei também que não foi culpa de ninguém além da distância - como se aviões não existissem, queridinho - e do tempo. Parece que o universo conspirou contra nós, por mais estúpido que possa parecer isso.

_ O universo, cara, pra mim pode ser chamado de extrema babaquice tua - o interrompi.

_ Enfim... - ele me ignorou solenemente, como sempre - Eu só queria dizer que, nossa, eu não consigo parar de pensar em você. O tempo inteiro, chega a não ter graça às vezes. Então chego em casa e abro seu perfil e as letras EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO pulam em neon se chocando contra a minha cara. Não é da minha conta, de toda maneira.

Não, por favor, fui obrigada a rir.

_ Já parou pra pensar que é exatamente isso que está me fazendo mais interessante?

_ Já - ele riu também - e não deixo de descartar essa possibilidade. Mas eu sei, Linda, eu sei que nós ainda vamos dar certo. Eu não estou aqui pedindo que você largue seu namorado, até porque seria loucura.

Ele me olhou assim, de baixo, de um jeito que derretia meu coração. DerreTIA, porém não mais. Ainda bem, porque nessa altura eu já o estaria beijando.

_ O que você está pedindo?

_ Que você não me esqueça - ele quase sussurrou - Só isso. Nada mais. Não é muita coisa. Por favor, não me esquece. Eu vou embora, vou estar longe... Não vou atrapalhar mais sua vida. Mas não me esquece, eu te imploro.

Olha, pela primeira vez na vida, acho que ele estava falando a verdade. Não digo por causa dessa cara de cachorro abandonado querendo colo que dá pra ver agora não, juro. É porque o discurso mudou muito e saiu muito baixo. Ele, o cara que sempre gosta de se gabar por ser forte e de falar alto e de chamar atenção... sussurrando. E porque ele não tem nada a ganhar, nesse momento, eu digo, com isso. E eu sei reconhecer caras que só pensam em ganhos a curto prazo e Luccas é um deles.

Meu celular vibrou de novo. Fechei os olhos e tentei lembrar de tudo de bom que eu estava vivendo ao lado do meu namorado... Do quanto ele me fazia bem e do quanto ele me amava. Porém, tudo o que me veio a cabeça foi o quanto o abraçado do Luccas é bom. Das mensagens de madrugada, das risadas pelo messenger, das ligações pós-festa... Só conseguia lembrar, infelizmente, que eu o havia amado pra caramba. 
Daqueles amores que destroem. Lembrei de que havia chorado quando ele entrou em um relacionamento sério. Namorando enquanto dizia o quanto ainda cuidava de mim. E então meu coração entrou em um conflito enorme.

No final ele decidiu: chega de sofrer, por favor, não aguento mais. E eu sorri.

_ Não dá pra te esquecer - conclui, peguei minha bolsa no banco para ir embora e completei - Já tentei muito, mas não dá.

Enquanto eu andava sozinha pro carro, a realidade bateu em mim no melhor estilo 'acorda, o sol já nasceu e você ainda está na chuva'.

Eu nunca poderia esquecê-lo. Ele sempre vai ser essa eterna incógnita na minha vida, aquele caso mal resolvido, sem solução. Não importa por onde eu ande, com quem eu esteja. Lá no fundo, vai ter sempre espaço pra ele. E foda-se, dá pra viver feliz com isso.

Peguei meu celular e respondi meu namorado.

Sinto muito sua falta, você me faz tão bem que eu não consigo dizer o quanto sou grata por isso. Logo logo chego em casa, gostaria que estivesse lá ao meu lado. Um dia você estará. Te amo muito, nada vai mudar isso.
Fechei a porta do carro e liguei o aquecedor. No rádio, um Gorillaz que não tocava há séculos. Olhei pelo retrovisor e percebi que dá pra deixar pra trás algumas coisas, mas sempre que surgir um espelho não vou conseguir passar sem dar uma olhadinha. Acendi um cigarro, algo que também não fazia desde os tempos de Luccas, e liguei o carro.

Vida, vida, vida... O que mais você tem a oferecer?


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Timming Errado

Sério mesmo? Agora, e só agora, você me vem com esse papinho? Muito tarde, cara. Hora errada do dia errado do alinhamento planetário errado. Não que eu acredite em horóscopo, mas confesso que sua aura acaba de me confundir. Depois de todo esse tempo você chega dizendo que sou eu. Nem o Ash demoraria tanto assim pra escolher um Pokémon. Eu te almejava, endeusava, idolatrava e vários "ava" não muito pertinentes ao caso. Mas tem muito tempo. Ih, isso é do tempo em que maquiagem não era permitido, salto alto... Nem sonhava com salto ainda. Do tempo em que as meninas mantinham diário, e o meu é cheio de referências a você. É, companheiro, você já foi muito. Já foi, ah se já foi. Agora não é mais. Já foi, literalmente. E já tem um tempo que você não é mais, viu. E mesmo assim, mesmo não sendo, eu sempre me mantive ali do seu lado pacientemente. Ali. Naquele canto em que se larga todas as coisas das quais se gosta tudo embolado em uma gaveta esquecida. Então você resolve arrumar seu quarto, descobre aquela gaveta ali cheia de coisas maravilhosas e me liga para falar que finalmente se deu conta de que sem mim não vive?
Falar sobre como você me quer incondicionalmente?
Passou, cara.
Eu vou para fora atrás dos meus sonhos. Fazer a vida, me formar doutora. Levarei na mala pouca coisa - um creme mais cheiroso, um moletom mais usado, e só. Muita coisa vai ficar pra trás. Você vai ficar pra trás. Junto com a sua turma, seus amigos, suas bebidas e o seu discurso de "não quero compromisso". Sempre, sempre na mesma. E eu? Eu vou... pra frente, evoluindo. E quando eu voltar a passeio tenho certeza de que vou te encontrar no mesmo lugar, nos mesmos bares. Do mesmo jeito que deixei. Sem nem um papo diferente a mais, nem a menos. Vou dizer "Oi" e você vai falar "Saudades... O que temos pra hoje? Festa bacana?" e vai me convidar para beber uma num buteco qualquer. E eu vou porque vamos sempre ser amigos e sua companhia sempre será um prazer. Mas só.
Porque, de repente, eu vou ter me tornado demais pra você. Eu sou demais pra você, logo mereço mais que você.
O tipo de diversão que você pode me proporcionar, já tive com outros caras tão legais quanto. Relacionamentos que envolvem futuro, para você já passou a fase. Já era. Tempo, tempo, tempo. Hora de seguir em frente, fazer acontecer. E, sabe, pode guardar esse celular, tirar esse sorriso bobo e falho do rosto. Já sou demais pra você.

sábado, 17 de março de 2012

Sobre Partidas





Sobre partidas.
_ Você não precisa ir, sabe disso - eu disse, tentando agarrar o último resquício de esperança que havia dentro de mim.
_ Eu preciso ir, você sabe disso - ele rebateu, me olhando daquele jeito "por favor não faça as coisas mais difíceis" que eu não suportava. Queria dizer "Ei! Você também não pode me culpar por isso", mas não havia sentido em começar outra discussão.
Não agora. Não ali.
Sentei no braço do sofá e encarei os pingos de uma chuvinha incessante e chata que caía durante a semana inteira. Que típico, chuva...
Ouvi o som do fecho da mala sendo travado, e da sua respiração pesada que parecia sufocar o cômodo. Vá embora de uma vez, cheguei a desejar silenciosamente. Não faça as coisas mais difíceis. Ele pareceu hesitar no meio do caminho. As rodinhas pararam. Não olhei.
Ele puxou a respiração:
_ Adeus.
Não era um "tchau", nem " a gente se vê" nem um "até mais". Era um adeus. E uma simples palavra como essa era capaz de englobar tudo o que aquele momento representava. Um adeus é algo mais fundo, mais permanente, até mesmo mais significativo que a morte. Um adeus é saber que mesmo que a pessoa more ao seu lado, não vão ser mais duas pessoas compartilhando seus mundos. Um adeus é um adeus.
Adeus. Fim. Limite do mundo.
A porta bateu pesadamente atrás de mim. Não sei quanto tempo fiquei parada olhando as gotas apostarem uma corrida inconsciente, puxadas pela gravidade através do vidro. Fiquei imóvel o suficiente para que Perigoso pulasse no meu colo e ficasse quietinho ali, quase dormindo. Ele que me odiava. Deveria ter me fundido ao sofá.
Fiquei assim, por um bom tempo, até conseguir me levantar e ir pra cama. Uma cama enorme. De quem foi a péssima ideia de comprar uma cama tão grande mesmo?  Deitei ali, e Perigoso me seguiu rebolando do seu jeito felino e presunçoso.
_ Acho que somos só nós dois, Perigon - brinquei, tentando passar a mão em sua cabeça.
Ele se esquivou do toque, deitando mais longe o possível de mim. Não antes de me lançar um olhar que dizia "nem por isso seremos amigos, ma'm".
Dormi. E antes de sonhar, Perigoso me dizia com uma voz estranhamente humana:
"Somos só nós dois agora. Nós dois, e o mundo inteiro pela frente"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Todo ou Nada

Faz algum tempo que não escrevo por prazer. Mais tempo ainda que não escrevo sobre o "amor" por prazer. Dizem, aliás, que colocamos no papel o que estamos vivendo no momento, e minha fase de sonhar acordada, infelizmente, deve ter passado. Como diria uma nova, e porque não boa, banda que faz um som bacana: cansei de falar sobre os garotos e todos os problemas que vêm com eles.

Não deixei, nesse meio tempo, de assistir à comédias-românticas. Semana passada, vi um drama chamado "O Meu Primeiro Amor", filme no qual a protagonista se perguntava se nas pessoas com quem ela convivia, o todo superava as partes. Deixe-me explicar melhor: cada pessoa é composta de partes: braços, pernas, olhos, pensamentos, ações e é isso que faz você quem você é. Ou quase. Para ela, isso são só "as partes" de alguém. Uma pessoa pode ter, portanto, a parte física bonita, a parte intelectual bonita, a parte moral bonita. Isso não é novidade. O que ela se perguntava, porém, era se o "todo" superava tais partes. O "todo" é a essência da pessoa em si. Será que a maioria das pessoas tem a "essência" maior ou além das suas partes?

Aquela garota mais bonita da cidade, tem uma essência gentil capaz de superar essa beleza? Aquele garoto mais inteligente da sala, é humilde o suficiente para admitir que ainda precisa aprender?

Quando olho à minha volta, percebo que na maioria das vezes o todo não é maior que as partes. E se isso não acontece, não há como alguém prender minha atenção por muito tempo. Não é algo que vá mudar sua vida, nem a minha, diretamente... Mas procure observar.  É raro, muito raro, encontrar alguém assim. Tanto que no filme, a pobre menina descobre que seu amor é raso e nem de perto seu "todo" é tão grande quanto ela achava que fosse.

Não sei se faço parte do seleto grupo de pessoas interessantes que conseguem alcançar esse nível, mas sei que busco sempre melhorar. Começando por voltar a escrever sobre o amor. É bem alimentar fantasias na alma, não crescer tão bruscamente e estar sempre criando. Talvez seja escrevendo que eu consiga, enfim, construir uma essência bacana. 

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