_ Você não precisa ir, sabe disso - eu disse, tentando agarrar o último resquício de esperança que havia dentro de mim.
_ Eu preciso ir, você sabe disso - ele rebateu, me olhando daquele jeito "por favor não faça as coisas mais difíceis" que eu não suportava. Queria dizer "Ei! Você também não pode me culpar por isso", mas não havia sentido em começar outra discussão.
Não agora. Não ali.
Sentei no braço do sofá e encarei os pingos de uma chuvinha incessante e chata que caía durante a semana inteira. Que típico, chuva...
Ouvi o som do fecho da mala sendo travado, e da sua respiração pesada que parecia sufocar o cômodo. Vá embora de uma vez, cheguei a desejar silenciosamente. Não faça as coisas mais difíceis. Ele pareceu hesitar no meio do caminho. As rodinhas pararam. Não olhei.
Ele puxou a respiração:
_ Adeus.
Não era um "tchau", nem " a gente se vê" nem um "até mais". Era um adeus. E uma simples palavra como essa era capaz de englobar tudo o que aquele momento representava. Um adeus é algo mais fundo, mais permanente, até mesmo mais significativo que a morte. Um adeus é saber que mesmo que a pessoa more ao seu lado, não vão ser mais duas pessoas compartilhando seus mundos. Um adeus é um adeus.
Adeus. Fim. Limite do mundo.
A porta bateu pesadamente atrás de mim. Não sei quanto tempo fiquei parada olhando as gotas apostarem uma corrida inconsciente, puxadas pela gravidade através do vidro. Fiquei imóvel o suficiente para que Perigoso pulasse no meu colo e ficasse quietinho ali, quase dormindo. Ele que me odiava. Deveria ter me fundido ao sofá.
Fiquei assim, por um bom tempo, até conseguir me levantar e ir pra cama. Uma cama enorme. De quem foi a péssima ideia de comprar uma cama tão grande mesmo? Deitei ali, e Perigoso me seguiu rebolando do seu jeito felino e presunçoso.
_ Acho que somos só nós dois, Perigon - brinquei, tentando passar a mão em sua cabeça.
Ele se esquivou do toque, deitando mais longe o possível de mim. Não antes de me lançar um olhar que dizia "nem por isso seremos amigos, ma'm".
Dormi. E antes de sonhar, Perigoso me dizia com uma voz estranhamente humana:
"Somos só nós dois agora. Nós dois, e o mundo inteiro pela frente"



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