quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Daqueles Amores

"Daqueles amores que ficam grudados na pele"


Ele pegou a minha bolsa que estava encostada na cadeira onde eu estava sentada. Olhei para ele com um ar de "sério mesmo, cara?", mas ele continuava impassível. Irredutível. Claro que eu poderia ir embora se quisesse. Sim, sem a minha bolsa seria impossível embora ele não fizesse o tipo ladrão por opção ou algo assim.

Levantei-me lentamente, com um pouco de raiva misturada a curiosidade. Meu celular vibrou.
A saudade está simplesmente fora do normal.  C.R.
E estava mesmo... Poxa, era previsível! Deveria estar apertando mesmo, e estava há três minutos atrás. Agora, agora parecia simplesmente que eu nunca tinha visto meu namorado na vida. Parecia, de verdade, que eu não tinha passado a noite passada chorando feito uma tola escutando Strokes no último volume de lingerie. 'Porque, vida?' Eu me perguntava... Ele não precisava morar tão longe. Mas isso foi há três minutos.

Agora eu simplesmente ignorei a mensagem.

A verdade é que eu estava ignorando meu status de relacionamento a partir do momento que o havia encontrado no shopping. Minhas convicções e moral foram sumindo gradativamente a meninas que nos cumprimentávamos, que ele me chamava pra comer alguma coisa no restaurante japonês no último andar, que ele segurava a minha mão e no final já não havia certeza de mais nada dentro de mim.  

Olhei pra cima e ele ainda me esperava com aquela típica cara de impaciente: vamos logo sair daqui?

_ Acho que tudo o que temos pra conversar dá pra ser resolvido aqui, você não acha, Luccas?

Ele entregou minha bolsa assim que fiquei de pé totalmente.

_ Claro que dá... Consigo te ouvir claramente logo depois de ignorar os gritos dessa bandinha horrorosa que está tocando agora. Por favor, Linda, eu não vou te sequestrar ao algo do tipo. Só quero um lugar mais calmo.

Aham, claro.

A temperatura havia baixado, no mínimo, uns 10 graus num período de 30 minutos. Coloquei o sobretudo que estava mofando no banco de trás do carro há mais de duas semanas (obrigado, Gertude, por não me deixar sair de casa sem ele) e ajeitei o cachecol. Ele riu. Sempre fazia isso quando eu começava com a mania de frio. "Mania". 20 graus, isso não é frio?

As chaves do carro saíram da minha mão como mágica e foram parar no seu bolso. Olha, ladrão talvez não, porém furtador eu já estava cogitando a hipótese. Nada de dirigir, só queria andar um pouco... Tomar um ar, parar na pracinha mais perto e pedir um cachorro quente qualquer. Nenhuma referência ao nosso último encontro feliz no parque, nem nada. Tudo bem...

Coloquei a melhor expressão 'anda, desembucha' assim que sentei no banco da praça. Luccas colocou as duas mãos na boca, pensou, pensou, pensou e soltou uma boa:

_ Você está linda.

"Anda, desembucha".

_ Tudo bem... Olha, eu sei que nós nunca funcionamos. Sei também que não foi culpa de ninguém além da distância - como se aviões não existissem, queridinho - e do tempo. Parece que o universo conspirou contra nós, por mais estúpido que possa parecer isso.

_ O universo, cara, pra mim pode ser chamado de extrema babaquice tua - o interrompi.

_ Enfim... - ele me ignorou solenemente, como sempre - Eu só queria dizer que, nossa, eu não consigo parar de pensar em você. O tempo inteiro, chega a não ter graça às vezes. Então chego em casa e abro seu perfil e as letras EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO pulam em neon se chocando contra a minha cara. Não é da minha conta, de toda maneira.

Não, por favor, fui obrigada a rir.

_ Já parou pra pensar que é exatamente isso que está me fazendo mais interessante?

_ Já - ele riu também - e não deixo de descartar essa possibilidade. Mas eu sei, Linda, eu sei que nós ainda vamos dar certo. Eu não estou aqui pedindo que você largue seu namorado, até porque seria loucura.

Ele me olhou assim, de baixo, de um jeito que derretia meu coração. DerreTIA, porém não mais. Ainda bem, porque nessa altura eu já o estaria beijando.

_ O que você está pedindo?

_ Que você não me esqueça - ele quase sussurrou - Só isso. Nada mais. Não é muita coisa. Por favor, não me esquece. Eu vou embora, vou estar longe... Não vou atrapalhar mais sua vida. Mas não me esquece, eu te imploro.

Olha, pela primeira vez na vida, acho que ele estava falando a verdade. Não digo por causa dessa cara de cachorro abandonado querendo colo que dá pra ver agora não, juro. É porque o discurso mudou muito e saiu muito baixo. Ele, o cara que sempre gosta de se gabar por ser forte e de falar alto e de chamar atenção... sussurrando. E porque ele não tem nada a ganhar, nesse momento, eu digo, com isso. E eu sei reconhecer caras que só pensam em ganhos a curto prazo e Luccas é um deles.

Meu celular vibrou de novo. Fechei os olhos e tentei lembrar de tudo de bom que eu estava vivendo ao lado do meu namorado... Do quanto ele me fazia bem e do quanto ele me amava. Porém, tudo o que me veio a cabeça foi o quanto o abraçado do Luccas é bom. Das mensagens de madrugada, das risadas pelo messenger, das ligações pós-festa... Só conseguia lembrar, infelizmente, que eu o havia amado pra caramba. 
Daqueles amores que destroem. Lembrei de que havia chorado quando ele entrou em um relacionamento sério. Namorando enquanto dizia o quanto ainda cuidava de mim. E então meu coração entrou em um conflito enorme.

No final ele decidiu: chega de sofrer, por favor, não aguento mais. E eu sorri.

_ Não dá pra te esquecer - conclui, peguei minha bolsa no banco para ir embora e completei - Já tentei muito, mas não dá.

Enquanto eu andava sozinha pro carro, a realidade bateu em mim no melhor estilo 'acorda, o sol já nasceu e você ainda está na chuva'.

Eu nunca poderia esquecê-lo. Ele sempre vai ser essa eterna incógnita na minha vida, aquele caso mal resolvido, sem solução. Não importa por onde eu ande, com quem eu esteja. Lá no fundo, vai ter sempre espaço pra ele. E foda-se, dá pra viver feliz com isso.

Peguei meu celular e respondi meu namorado.

Sinto muito sua falta, você me faz tão bem que eu não consigo dizer o quanto sou grata por isso. Logo logo chego em casa, gostaria que estivesse lá ao meu lado. Um dia você estará. Te amo muito, nada vai mudar isso.
Fechei a porta do carro e liguei o aquecedor. No rádio, um Gorillaz que não tocava há séculos. Olhei pelo retrovisor e percebi que dá pra deixar pra trás algumas coisas, mas sempre que surgir um espelho não vou conseguir passar sem dar uma olhadinha. Acendi um cigarro, algo que também não fazia desde os tempos de Luccas, e liguei o carro.

Vida, vida, vida... O que mais você tem a oferecer?


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Timming Errado

Sério mesmo? Agora, e só agora, você me vem com esse papinho? Muito tarde, cara. Hora errada do dia errado do alinhamento planetário errado. Não que eu acredite em horóscopo, mas confesso que sua aura acaba de me confundir. Depois de todo esse tempo você chega dizendo que sou eu. Nem o Ash demoraria tanto assim pra escolher um Pokémon. Eu te almejava, endeusava, idolatrava e vários "ava" não muito pertinentes ao caso. Mas tem muito tempo. Ih, isso é do tempo em que maquiagem não era permitido, salto alto... Nem sonhava com salto ainda. Do tempo em que as meninas mantinham diário, e o meu é cheio de referências a você. É, companheiro, você já foi muito. Já foi, ah se já foi. Agora não é mais. Já foi, literalmente. E já tem um tempo que você não é mais, viu. E mesmo assim, mesmo não sendo, eu sempre me mantive ali do seu lado pacientemente. Ali. Naquele canto em que se larga todas as coisas das quais se gosta tudo embolado em uma gaveta esquecida. Então você resolve arrumar seu quarto, descobre aquela gaveta ali cheia de coisas maravilhosas e me liga para falar que finalmente se deu conta de que sem mim não vive?
Falar sobre como você me quer incondicionalmente?
Passou, cara.
Eu vou para fora atrás dos meus sonhos. Fazer a vida, me formar doutora. Levarei na mala pouca coisa - um creme mais cheiroso, um moletom mais usado, e só. Muita coisa vai ficar pra trás. Você vai ficar pra trás. Junto com a sua turma, seus amigos, suas bebidas e o seu discurso de "não quero compromisso". Sempre, sempre na mesma. E eu? Eu vou... pra frente, evoluindo. E quando eu voltar a passeio tenho certeza de que vou te encontrar no mesmo lugar, nos mesmos bares. Do mesmo jeito que deixei. Sem nem um papo diferente a mais, nem a menos. Vou dizer "Oi" e você vai falar "Saudades... O que temos pra hoje? Festa bacana?" e vai me convidar para beber uma num buteco qualquer. E eu vou porque vamos sempre ser amigos e sua companhia sempre será um prazer. Mas só.
Porque, de repente, eu vou ter me tornado demais pra você. Eu sou demais pra você, logo mereço mais que você.
O tipo de diversão que você pode me proporcionar, já tive com outros caras tão legais quanto. Relacionamentos que envolvem futuro, para você já passou a fase. Já era. Tempo, tempo, tempo. Hora de seguir em frente, fazer acontecer. E, sabe, pode guardar esse celular, tirar esse sorriso bobo e falho do rosto. Já sou demais pra você.

sábado, 17 de março de 2012

Sobre Partidas





Sobre partidas.
_ Você não precisa ir, sabe disso - eu disse, tentando agarrar o último resquício de esperança que havia dentro de mim.
_ Eu preciso ir, você sabe disso - ele rebateu, me olhando daquele jeito "por favor não faça as coisas mais difíceis" que eu não suportava. Queria dizer "Ei! Você também não pode me culpar por isso", mas não havia sentido em começar outra discussão.
Não agora. Não ali.
Sentei no braço do sofá e encarei os pingos de uma chuvinha incessante e chata que caía durante a semana inteira. Que típico, chuva...
Ouvi o som do fecho da mala sendo travado, e da sua respiração pesada que parecia sufocar o cômodo. Vá embora de uma vez, cheguei a desejar silenciosamente. Não faça as coisas mais difíceis. Ele pareceu hesitar no meio do caminho. As rodinhas pararam. Não olhei.
Ele puxou a respiração:
_ Adeus.
Não era um "tchau", nem " a gente se vê" nem um "até mais". Era um adeus. E uma simples palavra como essa era capaz de englobar tudo o que aquele momento representava. Um adeus é algo mais fundo, mais permanente, até mesmo mais significativo que a morte. Um adeus é saber que mesmo que a pessoa more ao seu lado, não vão ser mais duas pessoas compartilhando seus mundos. Um adeus é um adeus.
Adeus. Fim. Limite do mundo.
A porta bateu pesadamente atrás de mim. Não sei quanto tempo fiquei parada olhando as gotas apostarem uma corrida inconsciente, puxadas pela gravidade através do vidro. Fiquei imóvel o suficiente para que Perigoso pulasse no meu colo e ficasse quietinho ali, quase dormindo. Ele que me odiava. Deveria ter me fundido ao sofá.
Fiquei assim, por um bom tempo, até conseguir me levantar e ir pra cama. Uma cama enorme. De quem foi a péssima ideia de comprar uma cama tão grande mesmo?  Deitei ali, e Perigoso me seguiu rebolando do seu jeito felino e presunçoso.
_ Acho que somos só nós dois, Perigon - brinquei, tentando passar a mão em sua cabeça.
Ele se esquivou do toque, deitando mais longe o possível de mim. Não antes de me lançar um olhar que dizia "nem por isso seremos amigos, ma'm".
Dormi. E antes de sonhar, Perigoso me dizia com uma voz estranhamente humana:
"Somos só nós dois agora. Nós dois, e o mundo inteiro pela frente"

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Todo ou Nada

Faz algum tempo que não escrevo por prazer. Mais tempo ainda que não escrevo sobre o "amor" por prazer. Dizem, aliás, que colocamos no papel o que estamos vivendo no momento, e minha fase de sonhar acordada, infelizmente, deve ter passado. Como diria uma nova, e porque não boa, banda que faz um som bacana: cansei de falar sobre os garotos e todos os problemas que vêm com eles.

Não deixei, nesse meio tempo, de assistir à comédias-românticas. Semana passada, vi um drama chamado "O Meu Primeiro Amor", filme no qual a protagonista se perguntava se nas pessoas com quem ela convivia, o todo superava as partes. Deixe-me explicar melhor: cada pessoa é composta de partes: braços, pernas, olhos, pensamentos, ações e é isso que faz você quem você é. Ou quase. Para ela, isso são só "as partes" de alguém. Uma pessoa pode ter, portanto, a parte física bonita, a parte intelectual bonita, a parte moral bonita. Isso não é novidade. O que ela se perguntava, porém, era se o "todo" superava tais partes. O "todo" é a essência da pessoa em si. Será que a maioria das pessoas tem a "essência" maior ou além das suas partes?

Aquela garota mais bonita da cidade, tem uma essência gentil capaz de superar essa beleza? Aquele garoto mais inteligente da sala, é humilde o suficiente para admitir que ainda precisa aprender?

Quando olho à minha volta, percebo que na maioria das vezes o todo não é maior que as partes. E se isso não acontece, não há como alguém prender minha atenção por muito tempo. Não é algo que vá mudar sua vida, nem a minha, diretamente... Mas procure observar.  É raro, muito raro, encontrar alguém assim. Tanto que no filme, a pobre menina descobre que seu amor é raso e nem de perto seu "todo" é tão grande quanto ela achava que fosse.

Não sei se faço parte do seleto grupo de pessoas interessantes que conseguem alcançar esse nível, mas sei que busco sempre melhorar. Começando por voltar a escrever sobre o amor. É bem alimentar fantasias na alma, não crescer tão bruscamente e estar sempre criando. Talvez seja escrevendo que eu consiga, enfim, construir uma essência bacana. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Transgressão (Prólogo e Capítulo 1)

O último apito soou. Última chamada pro embarque, úiltima chance de correr e salvar minha vida. Minha mãe me gritou: vamos, o avião vai decolar e vamos ficar pra trás! ela gritava. Quis gritar algum palavrão de volta, mas a culpa nem era dela.
Como as coisas podem mudar tão rápido em tão pouco tempo. Mas é assim que acontece, não é? Grandes acontecimentos que mudam o curso do rio que estava tão calmo e tão pronto pra desaguar no mar. E não era questão de medo, porque geralmente essa palavra está fora do meu dicionário. Se eu tivesse medo, provavelmente nem estaria mais viva. E se não é medo, só pode ser... esperança.
Quero me mudar, conversava comigo mesma. Vai ser bom, vou reencontrar amigos e aprender coisas novas. Como será bom voltar a falar português. Posso voltar sempre que puder. Mas nós duas - eu e minha consciencia - sabíamos que só haveria um motivo pra voltar. E esse motivo não existia mais, desde ontem.
Não podia ser possível que todo mundo já tivesse se despedido. Não, eu poderia esperar mais alguns minutos. Ele viria. Não jogaria tudo por alto só por causa... era melhor não pensar no assunto. Só mais alguns minutos e...
Última chamada para o vôo 649 com destino ao Aeroporto de Confins, Belo Horizonte  - Brasil. Passageiros, favor embarcar. Decolagem em cinco minutos.
Minha mãe estava a ponto de voltar e me arrastar pela gola.
Respirei fundo, engoli o choro e passei pelo portão de embarque sem olhar pra trás. Já havia recusado muitas coisas por causa disso, perdido muito. Sempre chega a hora de seguir em frente, sem olhar pra trás. A hora era agora.
Bom dia, Brasil. Eu voltei.

CAPITULO UM

A lua brilhava com toda a força que tem no seu esplendor cheio. Estava tão claro que nem parecia noite, e as luzes da cidade pareciam minúsculos vaga-lumes custando a manter-se acesas lá embaixo. Tudo parecia tão longe e tão intocável. Poderia continuar assim, só por mais alguns minutos, dias ou anos.
Blergh de poesia barata.
O que um astro celeste tinha de especial? Uma vez ouvi falar que tudo que víamos da Terra do Universo é uma imagem atrasada milhares de anos, devido ao tempo que a luz demora a percorrer tantos quilômetros. Nem isso chegava a me fascinar mais. A lua dos poetas, dos amantes...
Olhei para o lado e encarei aquele japonês falsificado e moreno - uma das coisas das quais mais senti saudades todos esses anos - e pude sentir aquela cumplicidade que corria entre nós.
Deus, como eu queria que ele me beijasse.
Porém vários motivos o impediriam caso essa idéia estúpida um dia passasse pela cabeça dele.
_ Um real pelo seu pensamento - Kenji disse, atrapalhando a minha inspiração.
_ Não é nada demais - sorri sem graça. Só estava imaginando como seria seu corpo colado no meu  - E-eu.. Estava pensando sobre como as coisas podiam ficar quietas ao menos uma vez na vida. Parece que veio um... como se chama? Katrina..
_ Furacão...
_ Isso! Parece que veio um furacão e bagunçou todas as coisas da minha cabeça.
Rafael hesitou, olhou pra lua uma ou duas vezes antes de pegar a minha mão.
_ Tento viver um dia de cada vez. Não fico pensando no que está por vir ou no que terei que enfrentar. É sempre mais fácil quando a hora chega.
Concordei em silêncio. Falar era fácil. Como convencer o cérebro a não pensar no meu problema gigante toda vez que coloco a cabeça no travesseiro e uma ou duas pessoas resolvem conversar comigo é que era difícil.
Fingi que havia entendido e sorri. Era fácil ser feliz perto dele. Bem, talvez seja melhor explicar direito antes de continuar a história.
Rafael Kenji é meu irmão. Esse é um dos motivos pelo qual ele não me beijaria. Não irmão de sangue, claro... os dois homens mais novos que tenho em casa bastam, acredite. Morei no Brasil os cinco primeiros anos da minha vida, até que meu pai resolvesse aceitar o emprego em uma empresa de segurança americana e, do nada, mudar com toda  a família para a Flórida. Era muito pequena, não havia como reclamar "ei, eu gosto daqui" e fui sem ao penos pestanejar. Fato é que enquanto morei no Brasil e nessa cidade Patos de Minas, no interior de Minas Gerais, fiz amizade com o garoto que está sentando ao meu lado agora.
Eu era completamente apaixonada por ele.
Esses amores de criança pequena que são lindos, meigos e inocentes. E nós matínhamos uma relação até estável, sabe, até que eu fosse arrastada para Miami.
_ Ei, gente! Saiam daí de cima, o jantar está servido!
E essa voz irritante que está vindo da janela também tem nome: Jéssica Kenji. Ela tem mais direitos sobre o  meu irmão Kenji porque, bem, o fato de eles serem gêmeos ajuda bastante. Era também conhecida como "minha melhor amiga desde sempre". E não sem enganem como esses cabelos tingidos de vermelho e esse piercing na lingua, porque Jess é, sem sobra de dúvidas, a pessoa mais patricinha e meiga que eu conheço.
E como se Deus estivesse lendo esse texto, o telefone do Rafael tocou no segundo seguinte. Pelo jeito que ele soltou a minha mão (cortando totalmente o clima que eu estava criando) e saiu de fininho pela janela, era sua... namorada. O terceiro e menos importante motivo pelo qual ele me jogaria telhado abaixo caso eu tentasse agarrá-lo. Eu quero dizer, fala sério! Eu saio por míseros doze anos e o cara arruma uma modelo magricela como substituta. Quis gritar "E AS PROMESSAS DE AMOR ETERNO, HEIN??????" no momento em que soube desse desastre, mas pensei bem e conclui que seria um pouco - só um pouco - infantil da minha parte fazer isso.
Sozinha em cima do telhado. Ótimo. Ouvi um "oi amor" que logo sumiu e o nó da minha garganta aumentou. Droga de sentimentos esquecidos. Resolvi levantar e dei uma última olhada na lua pelo telescópio. Linda, brilhante, cheia. Poderia ficar a noite inteira observando sua beleza se a minha barriga não estivesse roncando de fome.
Jéssica estava no quarto.
_ Nem acredito ainda que você está de volta - ela cacarejou, batendo palminhas de felicidade.
Eu avisei que era patricinha.
_ Não acredito que seu cabelo está vermelho e nem por isso ele deixa de estar. Por isso, vamos parar de crise e descer que eu estou com uma fome horrível.
Jess rolou os olhos - outra coisa que vão ver muito por aqui - e passou o braço pelo meu ombro com certa dificuldade, já que eu deveria ser uns dois palmos mais alta que ela.
_ Sinto muito pelo divórcio dos seus pais - ela disse.
_ Não sinta, eles estão melhor assim. Além do mais, se não fosse por isso eu nem estaria aqui, então sorria.
Ela deu um sorriso amarelo. Sabia exatamente que eu só estava tentando evitar o assunto desde que cheguei. Não queria comentar sobre o divórcio dos meus pais porque não estava nem aí mesmo. Por que ficar falando de um assunto que nem ao menos era engraçado?
_ Tudo bem, eu já entendi. E como seus irmãos estão absorvendo tudo isso?
_ Bom, o idiota do Rodrigo ficou em Miami com o papai por causa da namorada dele. Não sei como um garoto de quinze anos pode preferir a namoradinha a sua família. O Enzo está reagindo até bem, ao menos até o play station 3 dele continuar funcionando.
_ Ou seja, no final deu tudo certo.
É, mais ou menos. Ninguém perguntava como eu estava.
Rafael apareceu na porta. Quis fazer uma voz ridícula e perguntar "e a namoradinha?".
_ Minha mãe já está na iminência de ter um ataque de nervos - ele disse - Vocês sabem como ela fica quando a comida esfria e ela tem que usar o micro-ondas.
Ambas trememos.
_ Vamos todos, então, porque o tempo ruge e a minha fome é de leão.
Jess rolou os olhos e me acompanhou escada abaixo. O dia de amanhã seria, provavelmente, um dos mais frustantes da minha vida e nada melhor que uma lasanha à la Dona Fernanda para animar uma noite de véspera.
A família estava reunida em torno da mesa de jantar. O cheiro era muito convidativo. Servi-me antes de todo mundo, muito feliz por estar entre pessoas tão queridas.
_ Fico tão feliz por vocês terem voltado - a mãe dos meninos, Dona Fernanda, verbalizou meus pensamentos - Sabe, é bom que você esteja aqui para dar um força para os meninos nesse momento tão difícil.
Quase engasguei com o frango.
_ Momento difícil? - olhei pra Jess.
Ela olhava para mãe com reprovação, depois que percebeu minha surpresa, suavizou a expressão e rolou os olhos.
_ É que... minha mãe acha que o terceiro ano vai ser difícil, só isso.
Sei. E eu vou à Igreja todos os domingos porque sou católica.
Olhei para o Rafael, que de uma hora pra outra descobriu que seu jantar era muito mais interessante do que a conversa da mesa.
_ O terceiro ano é realmente muito difícil - concordei, olhando de soslaio para Jéssica - Mas nada que não se possa dar conta com algum esforço.
_ É o que eu sempre digo aos meninos - Dona Fernanda tentou contornar a situação também - O jantar está bom?
_ Está ótimo, parabéns ao cozinheiro.
O cozinheiro, mais conhecido como Seu Nakamura, estava assistindo televisão e fez um "joinha" para mim.
Minha aflição era injustificada porque eu logo saberia qual era o problema. Só que como não posso voltar no tempo e me contar isso, no momento a lasanha custou a descer. Dormi, e sonhando tive pesadelos terríveis com professores que me engoliam e cobras que brincavam de esconde-esconde.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Garotas Boas part V

Eu não me lembro quando foi que percebi que não gostava mais dele. Mas lembro que quando a ficha caiu, permitam-me o clichê, um vazio enorme surgiu dentro de mim e não era fome. Foram três anos amando intensamente o mesmo cara, depois outros dois fingindo que não o amava para finalmente, aos meus 19 anos, resolver parar com aquela palhaçada e crescer.
Mas eu me lembro de uma ou vinte situações engraçadas que posso compartilhar. Afinal, nem tudo são dores na vida, há sempre anestesistas disponíveis*.
*afirmação válida em todos os territórios exceto o brasileiro.
A tarde era morna e o sol forte o suficiente pra pegar um bronze. Era no que eu estava pensando quando coloquei o biquini, arrumei a trouxa de clube e puxei - lentamente - a chave do carro do chaveiro. Se minha mãe acordasse não deixaria eu nem tocar no carro novo, muito menos com uma carteira provisória.
Estava saindo literalmente na ponta dos pés, olhando pra trás a todo momento quando escutei um grito:
_ CAMILA!
_ CACETE! - rebati, com a mão no coração acelerado do susto e a respiração ofegante.
Era Leonardo, escorado no pilar da varanda. Ele se aproximou com aquela típica cara de reprovação.
_ O que você disse?
Dei uma nova olhada pra dentro da casa, mas minha mãe ainda roncava. Sorte a dele, porque se não eu seria capaz de arremessar o carro contra ele e com sorte chegaria voando a Cuba e seu ideal socialista infeliz. (Sim, eu era amante da história e escondia livros como "O Príncipe" embaixo do colchão)
_ Eu disse "o que está fazendo aqui"? - disse, já procurando meios de dispistá-lo.
_ Você não está pensando em pegar o carro da sua mãe, está? Não... você não seria louca.
_ Leonardo, meu amor, eu não tenho tempo pra você hoje - disse conferindo os documentos dentro da bolsa - Poderia, por favor, dar espaço para eu passar ou será necessário pular essa porcaria de mureta?
_ Onde você pensa que vai com esses shorts? - e cruzou os braços no peito.
Ah, que ótimo. Era tudo o que me faltava. Ser barrada na saída de casa por um meio-irmão ciumento com o sol alto e lindo no céu. Imagine só a cor que eu já poderia estar pegando.
_ Vou ao clube, esses shorts está ótimo.
_ Nada disso, pode ir lá trocar ou grito a tia Marneide agora.
Respirei fundo.
E nesse respirar tive a idéia mais brilhante da minha vida.
_ Porque, Leonardo? Porque eu não posso usar esses... - puxei o jeans um pouco mais pra cima - aqui?
Não sabia direito o que estava fazendo, mas soltei o coque e deixei os cabelo cairem pela saída de praia. Funcionava bem nos filmes.
Funcionou um pouco na vida real, pois podia jurar que havia visto Léo engolindo em seco. Até porque ele demorou a voltar a falar.
_ Porque uma moça de família não desfila por ai com tão pouco pano - ele disse bravo, mas sua postura já estava caindo.
_ Moça de família? - sorri, e cheguei mais perto - Sabe, já faz um tempo que eu não sou mais uma "moça", muito menos de família.
Pude acompanhar o sangue subindo do pescoço até a cabeça dele. Ele se adiantou e pegou no meu braço com tanta força que eu tinha certeza que ficaria marcado.
_ Eu ainda não engoli aquela história do Pedro, Camila. E nem vou engolir. Então você trate de não tocar mais no assunto.
(Agora, todos concordam que ele pediu o que eu fiz a seguir).
Joguei a cabeça pra trás e dei uma gargalhada muito grande. Era engraçado, de verdade. Como ele podia ser tão convencido de que podia controlar minha vida. Controlar com quem eu dormiria, com quem eu perderia minha virgindade, quem sairia, andaria, beijaria. Era sinceramente hilário o jeito que Léo achava ser meu dono, mesmo quando ele mesmo tinha outras "donas".
E então aquele fogo que eu sentia foi se apagando lentamente, sendo consumido pela (feliz) final constatação de que ele não merecia nem a minha mera atenção, quanto mais o meu amor. Descobri que, de fato, aquela chama já estava fraquinha fraquinha e que bastou um único sopro daquele pra ela se apagar.
E ri um pouco mais antes de olhá-lo novamente, com água nos olhos.
_ Você se acha, não é? Por quê? Por que não suporta a idéia de que uma pessoa possa me tocar assim - coloquei a mão dele no meu quadril, e cheguei mais perto. Nada de fogo - Ou assim - coloquei a outra mão dele na minha nuca - Por que, Leonardo, não consegue dormir pensando que eu possa ter feito isso... - passei minha perna na sua cintura - e ter despertado o desejo de alguém por mim? Alguém que não me veja como uma irmã.
Pela primeira vez olhei em seus olhos realmente. Ou pela primeira vez ele tenha realmente olhado nos meus, com aquele conhecido desejo expresso neles. E nada de fogo em mim. Já nele, as coisas estavam diferentes. Sabia que estava brincando demais e indo muito, muito mais além do que jamais poderia ir. Mas não estava nem ligando. Controlei o riso.
Quando estava quase tirando a perna e me afastando, Leonardo me virou com tudo e me encostou na pilastra. Sua mão foi descendo da minha cintura pra minha coxa e seu rosto foi parar no meu pescoço. E nada de fogo. Quando sua boca estava a poucos centrímetros da minha e eu podia sentir sua respiração ofegante no meu pesqoço, não aguentei. Comecei a rir descontroladamente.
_ Tem certeza de que quer fazer isso, Leonardo? - perguntei, tentando segurar a crise.
Nunca achei que alguém, além dos meus últimos professores, pudesse se afastar de mim numa velocidade tão rápida quanto a que Léo atingiu. Num segundo ele estava quase me beijando, no outro ele encostava na porta da frente da minha casa, encostado com a cabeça pra baixo e ainda ofegante.
_ Desculpe - foi tudo o que ele disse antes de pular a mureta e sair pelo jardim.
E meu primeiro pensamento foi:
"ALELUIA! CLUBE, AQUI VAMOS NÓS, SEU LINDO".

-

Fui muito feliz, se querem saber. Talvez alguns achem muito mesquinho encontrar felicidade em festas, bebidas, amizades falsas e todas essas coisas passageiras, mas fui feliz do mesmo jeito. Foi uma época conturbada, fútil. Passava horas na academia para desfilar com o vestido mais apertado de todos e achava estar muito bem, obrigada.
Não era total imaturidade e falta de visão de mundo da minha parte, porque eu tinha plena consciencia do que estava fazendo. Sabia que afundava cada vez mais naquele mar de lama cada vez que tentava preencher a razão de viver com mais e mais festas. Toda vez que afastava alguem que se importava comigo. Para os padrões da sociedade vigente, eu estava errada.
E estava mesmo.
Dizem que toda pessoa tem que levar um choque de realidade para acorda para a vida. Não tive um tão grande assim, afinal nunca estive dormindo. Só estava num estado de sonolência muito profundo. Um dia, em uma festa qualquer,  acabei bebendo demais e parando no hospital. Não para tomar glicose, como sempre fazia. Mas em coma alcoolico. Tirei um fino  muito grande da morte, e decidi não arriscar mais.
E de tanto ouvir o discurso de "você tem que tomar jeito" até decorá-lo de trás para frente, resolvi, um dia, criar vergonha na cara. Fiz minha inscrição na faculdade de Direito, a mesma que Tomás havia se formado no ano passado.
Quando ele ficou sabendo disso, ligou marcando um jantar em um restaurante legal no centro de Belo Horizonte.
_ Eu não estou acreditando - ele começou a frase.
_ Também não! Nunca me imaginei fazendo uma faculdade nem...
_ Não, isso não. É claro que um dia você estaria cursando alguma coisa. Estou falando do tanto que você está mudada. Muito, muito linda!
Corei imediatamente. Túlio tinha esse poder.
Não estava usando nada além de um vestido de corte reto, preto. Básico. E ele me fazia sentir em um traje de gala com uma maquiagem profissional.
_ Obrigada - sorri - Você também está ótimo.
_ Obrigada? Você está agradecendo? Está me elogiando? MEU DEUS quem é você?!
Sorri e o mandei calar a boca. Fala sério, nunca fui tão bruta e tirada. Ou fui? Aquilo chegou a me magooar um pouquinho (nova prova de que estava mudando) só que não dei bola.
_ Vamos entrar ou você vai ficar aqui de fora me difamando?
Ele deu um sorriso maravilhoso.
_ Claro que vamos entrar... Estou louco para saber o motivo de tanta transformação.
O garçom nos indicou uma mesa afastada. Com a luz baixa de velas, a mpb e a minha personalidade, não duvidava estar dormindo em cinco minutos de jantar. Nem cheguei a me tocar que era uma lugar um pouco mais romântico que o esperado.
_ Então, passou em Direito na primeira vez? Olha, você nunca para de me surpreender.
_ E não é? - respondi, realmente maravilhada - Quase não acreditei quando vi. Tem, o que, três anos que eu não pego em um caderno e consegui de primeira. Não sei não, mas não duvido que minha mãe tenha subornado os corretores para me ver logo tomando um jeito na vida.
_ Impossível... - ele riu, pegando o cardápio com o garçom - A UFMG é complicada. E o que te deu para de uma hora para outra resolver tomar tipo?
_ Oh! - fingi estar ofendida - Quer dizer que eu não tinha tipo?
_ Não mesmo - ele disse convicto - Aquela menina de dezesseis anos que vomitou no meu carro foi só ficando cada vez mais complicada.
Assumi a verdade daqueles fatos.
_ Praticamente não tenho explicação - concordei - Acho que o amor estraga um pouco as pessoas.
_ Amor?! Quando? Não... Desculpe-me, mas essa vai ser difícil de engolir. Está dizendo que você já amou alguma vez na vida?
Sorri. Geralmente era essa a reação que eu espero das pessoas quando confesso isso. Não que tenha contado para muitas além da Lui. A Clarissa coração-de-gelo nunca pode ter amado, é essa a conclusão que as pessoas tiram das minhas atitudes.
_ Amei, há muitos anos atrás. Fiquei tão magoada que talvez tenha desistido de lutar pelos meus sonhos. Pode ter sido isso.
_ Engraçado, mas de você eu nunca esperaria tal revelação. No meu caso, se eu fosse afundando toda vez que sofresse uma dor amorosa já teria chegado ao inferno há anos.
_ O que quer dizer com isso?
_ Somando as minhas inúmeras decepções amorosas e todas as vezes que tive que juntar meus pedaços... se eu agisse como você talvez nem estaria aqui. Inclusive, não teria conseguido reunir os cacos depois da última.
Ergui uma sobrancelha. Onde ele queria chegar?
_ Última? Recentemente você esteve envolvido com alguém?
_ Não, nem de perto - ele sorriu meio amarelo. Parecia estar tentando juntar coragem para dizer algo importante - Minha última grande decepção, Clarissa... Foi você.
Quase pulei da cadeira.
_ Eu?! Túlio... não querendo revirar o passado distante, mas você me traiu com a Rebecca... Aquela gostosa vinte anos mais velha que você. E mais de uma vez.
_ Eu sei! - ele rebateu, parecendo angustiado - Mas nem me lembro mais as incontáveis vezes em que pedi desculpas. Implorei. Ajoelhei. Humilhei-me para você me perdoar. A verdade era que você não conseguiria me amar, nem se eu não tivesse feito nada.
Respirei fundo. Tinha pouca paciencia para aquele teatrinho masculino o qual já estava escolada.
_ Tudo bem. Acho melhor fazermos o pedido.
Quando eu abria a boa para chamar o garçom, meu celular tocou. Como estava em cima da mesa, Túlio leu no visor que era Leonardo.
_ Se você me dá cinco minutos... - peguei o celular da mesa. Ou tentei, porque ele segurou a minha mão.
_ É ele não é?
_ Ele quem?
_ Leonardo. É dele de quem você estava falando.
Não respondi. Não conseguiria mentir naquela situação, negar o inegável. Só tirei a mão dele da minha e atendi, saindo para a rua.
_ Oi, Leonardo... O que foi agora?
Não nego que a revelação me tocou. Mexeu com alguma coisa mais fundo do que a minha barreira de sarcasmo e meus muros de proteção. Túlio uma vez havia magoado a Clarissa em que eu havia me transformado por proteção, e essa não engolia sapo ou levava mágoas para casa. Mas ali, naquele restaurante aconchegante da capital, onde eu estava começando a minha nova fase, sua declaração tocou a antiga Clarissa. Aquela que acordou assustada na cama de um desconhecido, que se mostrou bem gentil.
E naquela noite, antes de dormir, pensei em cada momento bom que havia compartilhado com Túlio.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Garotas Boas part IV

Desculpe se passei uma péssima primeira impressão. Não me leve a mal, você que gosta de romances. Sério, não é nada realmente pessoal, mas não vim aqui falar sobre como sofri em não ter o meu amor correspondido ou sobre como nossa vida é injusta; não mesmo. Isso tudo a gente supera, acredite. Quando se têm quinze anos é fácil pensar que o mundo se resume ao que vivemos ali e ponto final. Nunca fui assim.
Estou aqui pra mostrar como isso me mudou tão profundamente que cheguei num ponto, muitos anos depois, de não me reconhecer na frente do espelho. Talvez Léo tenha sido só o puxar do gatilho e uma seqüência de fatos tenha estado atrás da arma. Quem sabe, nunca saberei.
Aos meus vinte anos, eu já não guardava nada daquela menina que tomou o primeiro porre aos dezesseis anos e dormiu com um estranho. Em parte isso é bom. Mas a verdade é que se eu pudesse voltar no tempo faria muita coisa diferente, porque o jeito o qual cresci não foi dos melhores.

Mas aqui vou eu, sendo mais uma vez dramática e tentando saltar anos à frente. Só queria deixar isso bem claro antes de contar o que aconteceu quando acordei no outro dia.
Aposto que deixei muitos de vocês curiosos.

Digamos simplesmente que eu já havia acordado em melhores lençóis. Não literalmente porque aquela cama parecia feita de seda. O que estava sujo mesmo era a minha situação.
Minha cabeça doía pra valer.
Ainda não tinha experimentado uma boa ressaca então o que senti no momento em que tentei me levantar me fez achar que estava morrendo. Ainda mais, estava confusa, com medo, angustiada e desesperada.
Sem mistérios, aquela era a cama do Túlio. Ele havia me levado pra casa dele já que não sabia onde eu morava e já que eu não conseguia dizer nada além de “aimeudeus, como você é lindo” ou “você é maravilhoso, sabia disso?”. Qualquer um ficaria com o ego inflado, mesmo vindo de uma bêbada. Túlio só fazia rir.
Bem, acho melhor pular a parte toda do porre e etc.

Logo minha memória foi voltando e meus pensamentos começaram a se pôr em ordem. Assim você pode imaginar minha expressão sendo que:
1 – nunca havia colocado uma só gota de álcool na boca em toda a minha vida, portanto não tinha idéia do que era aquele barulho de sinos em minha cabeça.
2 – só havia beijado no máximo uns dez garotos, portanto era virgem. A idéia de ter sido violada, mesmo quando implorava por isso, me deixava com náuseas no estômago.
3 – não sabia o que fazer pra sair dali se nem ao menos sabia onde estava.
Saí cambaleante da cama e topei com um copo de água ao lado de um comprimido de aspirina. Sem saber ao certo se devia, tomei o remédio e engoli a água de uma vez.
Pior do que estava não dava pra ficar – não era o que diziam?
Assim que concluí esse pensamento dei de cara com um espelho enorme que cobria toda a porta do guarda-roupa. Quase gritei. Eu estava um lixo, de verdade. Sério, duvido que já tenha ficado pior. Mesmo naquela vez em que resolvi experimentar uma parada verde brilhante que diziam ser da Índia, Absinto.
Tentei ajeitar o cabelo o melhor que pude, mas logo desisti. Nem com minha própria roupa eu estava. A camisa social masculina tinha três vezes o meu tamanho e eu não me lembro de um dia ter entrado dentro dela. Quis chorar, mas não podia desesperar ainda mais. Saí em busca das minhas coisas: celular, bolsa, roupas próprias ou qualquer coisa que indicasse que eu realmente existisse.
Só um nome me veio à cabeça no momento: Leonardo.
Achei meu celular em cima de uma cadeira. Quase não reparei no bilhete que estava embaixo dele e que deixei cair no chão.
“Saí pra comprar café da manhã. Não ligue pra polícia, não chore e não destrua a casa. Nem sei se você se lembra de mim, mas chego em cinco minutos pra te explicar tudo. Não destrua a casa”.
A ênfase no “não vire o Hulk ou coisa parecida” me deixou em dúvida do que realmente tinha feito na noite passada. Ele parecia realmente acreditar que eu fosse capaz de colocar fogo em alguma coisa.
Gemi alto.
_ Eu não me lembro de você – falei pro quarto vazio.
Comecei a bater o celular na testa. Preciso lembrar do que fiz, preciso lembrar do que fiz... Merda, merda, merda. A dor me fez lembrar do celular na minha mão.
Um zilhão de chamadas perdidas. Um zilhão de mensagens. Meio zilhão da minha mãe, meio zilhão do Leonardo. Opa, meio zilhão menos um porque uma era da Lui.
“Onde você está?” – três horas da madrugada. Deleta.
“Pelo amor de Deus, já entendi. Tô com sono e preciso ir embora, cadê você?” – três e meia. Deleta.
“Clarissa, você está muito ferrada” – quatro horas da manhã. Ai, deleta.
“Eu já estou em casa. Se vira pra ir embora” – quatro e quinze. Deleta, deleta, deleta... ahmeudeusdocéu.
Abri a única mensagem sem tom ameaçador. Claro que era da minha melhor amiga. Se ainda fosse ela, não duvidava de mais nada.
“Caralho, C.Louca! Você realmente ficou muito louca não é mesmo? Você não tem noção das coisas que estão falando por aqui. Mandou muito bem, garota. Isso aí. Mais tarde te ligo. Beijos, Lui-não-mais-louca-que-você”.
Hmm... Certo. Não ser mais louca do que a Lui não soava muito bem. Não soava nada, nada bem.
Então me lembrei da briga com o Léo. E de todas as coisas que tinha falado com ele. E, ao invés de me sentir mal com isso, a lembrança me fez sentir ainda mais raiva. Como se ele estivesse ali, naquele momento, gritando comigo e me mandando fazer as coisas do jeito dele.
E graças a Deus ele não estava porque eu teria rido na cara dele e dito tudo o que realmente tinha feito. Ou o que pensava que tinha feito.
Porque eu podia ser inocente, mas não a ponto de não saber o que acontece quando se acorda na casa de um homem – porque aquele perfume era masculino, fora a caligrafia do bilhete – depois de ficar muito louca em uma festa. E com as roupas dele, completo. Eu jogaria tudo aquilo na cara do Léo com uma enorme satisfação.
O que não seria a minha atitude mais sensata nem de longe.
E, além disso, ele estaria do meu lado quando a porta se abriu e eu joguei meu celular no chão pra logo em seguida gritar que nem uma mulherzinha.
Minha atitude mais madura. A cena me faz rir até hoje.

_ Bom dia, anjo... – Túlio disse calmamente, como se toda a garota com a qual ele acorda gritasse assim que ele entrasse no quarto.
Questionei a freqüência daquilo.
_ Quem é você? – gritei num tom agudo, lógico.
_ Oi, de novo. Quais são suas perguntas? – ele colocou as chaves do carro em cima de uma mesinha e foi se aproximando com as mãos pra cima.
Coloquei as mãos na frente, pedindo distância.
_ Quem é você? – perguntei, mais calma.
_ Olá, meu nome é Túlio. Nós nos conhecemos na festa ontem e você se agarrou em mim feito uma louca. Então te trouxe pra minha casa, porque você estava mal demais pra voltar pra sua. O que mais?
Queria perguntar: nós fizemos sexo? Mas engoli isso pra não parecer mais idiota do que já era.
_ Quem sou eu?
Ele riu, percebendo que minha crise histérica já tinha passado.
_ Ah, difícil saber. Você é a Clarissa, protegida do Leonardo. E como o que eu menos quero é causar confusão com ele, acho bom explicar as coisas bem direitinho pra você e te levar pra casa o quanto antes.
Leonardo, de novo. Minha raiva surgiu de novo.
_ Túlio, eu não tenho nada contra você. Na verdade, acho que teria menos coisas ainda se eu te conhecesse de verdade. Então, me desculpa. De verdade, me desculpa mesmo. Não tenho idéia do que fiz ontem, mas não deve ter sido boa coisa. Então, de novo, desculpa.
Aplausos para minha coerência e capacidade de formar frases bonitas.
_ Olha, deu pra perceber que você não costuma beber. Se fosse eu não faria isso de novo, mas não tem por que pedir desculpas.
Ah, mas tinha sim. Dias depois descobri uma porção de coisas que vão de nojentas até realmente muito embaraçosas que eu havia feito perto dele ou com ele. Como vomitar no carro.
_ Tenho que ir. Agora – disse, olhando pro relógio.
_ Eu sei, você está muito ferrada. Mas vou te dizer uma coisa, já que você está ferrada de um jeito ou de outro, por que não toma café comigo? Uma ou duas horas a mais depois de passar a noite fora não vai fazer muita diferença.
_ Não posso – eu disse realmente pesarosa de não poder ficar com ele e compensar todas as outras coisas – Realmente, não posso.
_ Se você quiser, depois eu te arrumo umas roupas da minha irmã e te levo em casa. Mas toma café primeiro...
Meu estômago roncou.
Acabei descobrindo que o Túlio curtia fotografia tanto quanto eu. Que fazia faculdade de Engenharia Civil num faculdade muito conceituada e conseguia citar Mário de Andrade sem parecer um nerd idiota. O apartamento era dele, porque os pais haviam morrido em um acidente de carro há muitos anos atrás, deixando uma pequena fortuna para trás. Descobri, no final, que ele era realmente um cara bastante legal.

O mais engraçado nisso tudo é que pensar que não era mais virgem me deu impulso pra fazer uma porrada de coisas que eu provavelmente não faria. É um humor meio mórbido, mas não deixa de ser humor. Porque, veja bem, acabei perdendo realmente minha virgindade com o Túlio. Só fui perceber que estava enganada tarde demais, quando realmente não dava à mínima pra aquilo.
Só deu problema mesmo quando resolvi soltar essa pérola perto do Leonardo e ele pegou o Túlio pelo colarinho, o erguendo na parede, com uma expressão de quem poderia matar alguém se quisesse. Túlio deixou bem claro que não havia tocado em mim naquela noite.
Leonardo pareceu deixar passar a ênfase no “naquela” por querer. Ele havia brigado com Túlio, que era um grande amigo, por minha causa. Então conversamos e pedi "peloamordedeus" que não fizesse aquilo.
Na época eu ainda pedia pelas coisas.
Ficamos mais do que amigos que passaram por uma experiência ruim juntos. Túlio foi mais ou menos uma fase de transição entre as minhas fases da vida. O único homem em que eu confiei parcialmente depois de Leonardo.
Um homem que me decepcionou também, mas encontrou uma fortaleza preparada pra isso. Um homem que se apaixonou por mim, como tantos outros, mas que não sabia demonstrar quando era necessário.
Túlio era gente boa, bonito, e bom de cama.
Mas eu tinha dezessete anos a essa altura do campeonato, e passei pra fase louca da minha vida muito rapidamente. Rápido demais pra que qualquer um acompanhasse. Ele ficou pra trás, como tantas outras pessoas.
Nesse ponto a enxurrada me carregava tão rápido que eu nem percebia estar afogando.

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