Eu não me lembro quando foi que percebi que não gostava mais dele. Mas lembro que quando a ficha caiu, permitam-me o clichê, um vazio enorme surgiu dentro de mim e não era fome. Foram três anos amando intensamente o mesmo cara, depois outros dois fingindo que não o amava para finalmente, aos meus 19 anos, resolver parar com aquela palhaçada e crescer.
Mas eu me lembro de uma ou vinte situações engraçadas que posso compartilhar. Afinal, nem tudo são dores na vida, há sempre anestesistas disponíveis*.
*afirmação válida em todos os territórios exceto o brasileiro.
A tarde era morna e o sol forte o suficiente pra pegar um bronze. Era no que eu estava pensando quando coloquei o biquini, arrumei a trouxa de clube e puxei - lentamente - a chave do carro do chaveiro. Se minha mãe acordasse não deixaria eu nem tocar no carro novo, muito menos com uma carteira provisória.
Estava saindo literalmente na ponta dos pés, olhando pra trás a todo momento quando escutei um grito:
_ CAMILA!
_ CACETE! - rebati, com a mão no coração acelerado do susto e a respiração ofegante.
Era Leonardo, escorado no pilar da varanda. Ele se aproximou com aquela típica cara de reprovação.
_ O que você disse?
Dei uma nova olhada pra dentro da casa, mas minha mãe ainda roncava. Sorte a dele, porque se não eu seria capaz de arremessar o carro contra ele e com sorte chegaria voando a Cuba e seu ideal socialista infeliz. (Sim, eu era amante da história e escondia livros como "O Príncipe" embaixo do colchão)
_ Eu disse "o que está fazendo aqui"? - disse, já procurando meios de dispistá-lo.
_ Você não está pensando em pegar o carro da sua mãe, está? Não... você não seria louca.
_ Leonardo, meu amor, eu não tenho tempo pra você hoje - disse conferindo os documentos dentro da bolsa - Poderia, por favor, dar espaço para eu passar ou será necessário pular essa porcaria de mureta?
_ Onde você pensa que vai com esses shorts? - e cruzou os braços no peito.
Ah, que ótimo. Era tudo o que me faltava. Ser barrada na saída de casa por um meio-irmão ciumento com o sol alto e lindo no céu. Imagine só a cor que eu já poderia estar pegando.
_ Vou ao clube, esses shorts está ótimo.
_ Nada disso, pode ir lá trocar ou grito a tia Marneide agora.
Respirei fundo.
E nesse respirar tive a idéia mais brilhante da minha vida.
_ Porque, Leonardo? Porque eu não posso usar esses... - puxei o jeans um pouco mais pra cima - aqui?
Não sabia direito o que estava fazendo, mas soltei o coque e deixei os cabelo cairem pela saída de praia. Funcionava bem nos filmes.
Funcionou um pouco na vida real, pois podia jurar que havia visto Léo engolindo em seco. Até porque ele demorou a voltar a falar.
_ Porque uma moça de família não desfila por ai com tão pouco pano - ele disse bravo, mas sua postura já estava caindo.
_ Moça de família? - sorri, e cheguei mais perto - Sabe, já faz um tempo que eu não sou mais uma "moça", muito menos de família.
Pude acompanhar o sangue subindo do pescoço até a cabeça dele. Ele se adiantou e pegou no meu braço com tanta força que eu tinha certeza que ficaria marcado.
_ Eu ainda não engoli aquela história do Pedro, Camila. E nem vou engolir. Então você trate de não tocar mais no assunto.
(Agora, todos concordam que ele pediu o que eu fiz a seguir).
Joguei a cabeça pra trás e dei uma gargalhada muito grande. Era engraçado, de verdade. Como ele podia ser tão convencido de que podia controlar minha vida. Controlar com quem eu dormiria, com quem eu perderia minha virgindade, quem sairia, andaria, beijaria. Era sinceramente hilário o jeito que Léo achava ser meu dono, mesmo quando ele mesmo tinha outras "donas".
E então aquele fogo que eu sentia foi se apagando lentamente, sendo consumido pela (feliz) final constatação de que ele não merecia nem a minha mera atenção, quanto mais o meu amor. Descobri que, de fato, aquela chama já estava fraquinha fraquinha e que bastou um único sopro daquele pra ela se apagar.
E ri um pouco mais antes de olhá-lo novamente, com água nos olhos.
_ Você se acha, não é? Por quê? Por que não suporta a idéia de que uma pessoa possa me tocar assim - coloquei a mão dele no meu quadril, e cheguei mais perto. Nada de fogo - Ou assim - coloquei a outra mão dele na minha nuca - Por que, Leonardo, não consegue dormir pensando que eu possa ter feito isso... - passei minha perna na sua cintura - e ter despertado o desejo de alguém por mim? Alguém que não me veja como uma irmã.
Pela primeira vez olhei em seus olhos realmente. Ou pela primeira vez ele tenha realmente olhado nos meus, com aquele conhecido desejo expresso neles. E nada de fogo em mim. Já nele, as coisas estavam diferentes. Sabia que estava brincando demais e indo muito, muito mais além do que jamais poderia ir. Mas não estava nem ligando. Controlei o riso.
Quando estava quase tirando a perna e me afastando, Leonardo me virou com tudo e me encostou na pilastra. Sua mão foi descendo da minha cintura pra minha coxa e seu rosto foi parar no meu pescoço. E nada de fogo. Quando sua boca estava a poucos centrímetros da minha e eu podia sentir sua respiração ofegante no meu pesqoço, não aguentei. Comecei a rir descontroladamente.
_ Tem certeza de que quer fazer isso, Leonardo? - perguntei, tentando segurar a crise.
Nunca achei que alguém, além dos meus últimos professores, pudesse se afastar de mim numa velocidade tão rápida quanto a que Léo atingiu. Num segundo ele estava quase me beijando, no outro ele encostava na porta da frente da minha casa, encostado com a cabeça pra baixo e ainda ofegante.
_ Desculpe - foi tudo o que ele disse antes de pular a mureta e sair pelo jardim.
E meu primeiro pensamento foi:
"ALELUIA! CLUBE, AQUI VAMOS NÓS, SEU LINDO".
-
Fui muito feliz, se querem saber. Talvez alguns achem muito mesquinho encontrar felicidade em festas, bebidas, amizades falsas e todas essas coisas passageiras, mas fui feliz do mesmo jeito. Foi uma época conturbada, fútil. Passava horas na academia para desfilar com o vestido mais apertado de todos e achava estar muito bem, obrigada.
Não era total imaturidade e falta de visão de mundo da minha parte, porque eu tinha plena consciencia do que estava fazendo. Sabia que afundava cada vez mais naquele mar de lama cada vez que tentava preencher a razão de viver com mais e mais festas. Toda vez que afastava alguem que se importava comigo. Para os padrões da sociedade vigente, eu estava errada.
E estava mesmo.
Dizem que toda pessoa tem que levar um choque de realidade para acorda para a vida. Não tive um tão grande assim, afinal nunca estive dormindo. Só estava num estado de sonolência muito profundo. Um dia, em uma festa qualquer, acabei bebendo demais e parando no hospital. Não para tomar glicose, como sempre fazia. Mas em coma alcoolico. Tirei um fino muito grande da morte, e decidi não arriscar mais.
E de tanto ouvir o discurso de "você tem que tomar jeito" até decorá-lo de trás para frente, resolvi, um dia, criar vergonha na cara. Fiz minha inscrição na faculdade de Direito, a mesma que Tomás havia se formado no ano passado.
Quando ele ficou sabendo disso, ligou marcando um jantar em um restaurante legal no centro de Belo Horizonte.
_ Eu não estou acreditando - ele começou a frase.
_ Também não! Nunca me imaginei fazendo uma faculdade nem...
_ Não, isso não. É claro que um dia você estaria cursando alguma coisa. Estou falando do tanto que você está mudada. Muito, muito linda!
Corei imediatamente. Túlio tinha esse poder.
Não estava usando nada além de um vestido de corte reto, preto. Básico. E ele me fazia sentir em um traje de gala com uma maquiagem profissional.
_ Obrigada - sorri - Você também está ótimo.
_ Obrigada? Você está agradecendo? Está me elogiando? MEU DEUS quem é você?!
Sorri e o mandei calar a boca. Fala sério, nunca fui tão bruta e tirada. Ou fui? Aquilo chegou a me magooar um pouquinho (nova prova de que estava mudando) só que não dei bola.
_ Vamos entrar ou você vai ficar aqui de fora me difamando?
Ele deu um sorriso maravilhoso.
_ Claro que vamos entrar... Estou louco para saber o motivo de tanta transformação.
O garçom nos indicou uma mesa afastada. Com a luz baixa de velas, a mpb e a minha personalidade, não duvidava estar dormindo em cinco minutos de jantar. Nem cheguei a me tocar que era uma lugar um pouco mais romântico que o esperado.
_ Então, passou em Direito na primeira vez? Olha, você nunca para de me surpreender.
_ E não é? - respondi, realmente maravilhada - Quase não acreditei quando vi. Tem, o que, três anos que eu não pego em um caderno e consegui de primeira. Não sei não, mas não duvido que minha mãe tenha subornado os corretores para me ver logo tomando um jeito na vida.
_ Impossível... - ele riu, pegando o cardápio com o garçom - A UFMG é complicada. E o que te deu para de uma hora para outra resolver tomar tipo?
_ Oh! - fingi estar ofendida - Quer dizer que eu não tinha tipo?
_ Não mesmo - ele disse convicto - Aquela menina de dezesseis anos que vomitou no meu carro foi só ficando cada vez mais complicada.
Assumi a verdade daqueles fatos.
_ Praticamente não tenho explicação - concordei - Acho que o amor estraga um pouco as pessoas.
_ Amor?! Quando? Não... Desculpe-me, mas essa vai ser difícil de engolir. Está dizendo que você já amou alguma vez na vida?
Sorri. Geralmente era essa a reação que eu espero das pessoas quando confesso isso. Não que tenha contado para muitas além da Lui. A Clarissa coração-de-gelo nunca pode ter amado, é essa a conclusão que as pessoas tiram das minhas atitudes.
_ Amei, há muitos anos atrás. Fiquei tão magoada que talvez tenha desistido de lutar pelos meus sonhos. Pode ter sido isso.
_ Engraçado, mas de você eu nunca esperaria tal revelação. No meu caso, se eu fosse afundando toda vez que sofresse uma dor amorosa já teria chegado ao inferno há anos.
_ O que quer dizer com isso?
_ Somando as minhas inúmeras decepções amorosas e todas as vezes que tive que juntar meus pedaços... se eu agisse como você talvez nem estaria aqui. Inclusive, não teria conseguido reunir os cacos depois da última.
Ergui uma sobrancelha. Onde ele queria chegar?
_ Última? Recentemente você esteve envolvido com alguém?
_ Não, nem de perto - ele sorriu meio amarelo. Parecia estar tentando juntar coragem para dizer algo importante - Minha última grande decepção, Clarissa... Foi você.
Quase pulei da cadeira.
_ Eu?! Túlio... não querendo revirar o passado distante, mas você me traiu com a Rebecca... Aquela gostosa vinte anos mais velha que você. E mais de uma vez.
_ Eu sei! - ele rebateu, parecendo angustiado - Mas nem me lembro mais as incontáveis vezes em que pedi desculpas. Implorei. Ajoelhei. Humilhei-me para você me perdoar. A verdade era que você não conseguiria me amar, nem se eu não tivesse feito nada.
Respirei fundo. Tinha pouca paciencia para aquele teatrinho masculino o qual já estava escolada.
_ Tudo bem. Acho melhor fazermos o pedido.
Quando eu abria a boa para chamar o garçom, meu celular tocou. Como estava em cima da mesa, Túlio leu no visor que era Leonardo.
_ Se você me dá cinco minutos... - peguei o celular da mesa. Ou tentei, porque ele segurou a minha mão.
_ É ele não é?
_ Ele quem?
_ Leonardo. É dele de quem você estava falando.
Não respondi. Não conseguiria mentir naquela situação, negar o inegável. Só tirei a mão dele da minha e atendi, saindo para a rua.
_ Oi, Leonardo... O que foi agora?
Não nego que a revelação me tocou. Mexeu com alguma coisa mais fundo do que a minha barreira de sarcasmo e meus muros de proteção. Túlio uma vez havia magoado a Clarissa em que eu havia me transformado por proteção, e essa não engolia sapo ou levava mágoas para casa. Mas ali, naquele restaurante aconchegante da capital, onde eu estava começando a minha nova fase, sua declaração tocou a antiga Clarissa. Aquela que acordou assustada na cama de um desconhecido, que se mostrou bem gentil.
E naquela noite, antes de dormir, pensei em cada momento bom que havia compartilhado com Túlio.