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"Daqueles amores que ficam grudados na pele"
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Ele pegou a minha bolsa que estava encostada na cadeira onde
eu estava sentada. Olhei para ele com um ar de "sério mesmo, cara?",
mas ele continuava impassível. Irredutível. Claro que eu poderia ir embora se
quisesse. Sim, sem a minha bolsa seria impossível embora ele não fizesse o tipo
ladrão por opção ou algo assim.
Levantei-me lentamente, com um pouco de raiva misturada a curiosidade.
Meu celular vibrou.
A saudade está
simplesmente fora do normal. C.R.
E estava mesmo... Poxa, era previsível! Deveria estar
apertando mesmo, e estava há três minutos atrás. Agora, agora parecia
simplesmente que eu nunca tinha visto meu namorado na vida. Parecia, de
verdade, que eu não tinha passado a noite passada chorando feito uma tola
escutando Strokes no último volume de lingerie. 'Porque, vida?' Eu me
perguntava... Ele não precisava morar tão longe. Mas isso foi há três minutos.
Agora eu simplesmente ignorei a mensagem.
A verdade é que eu estava ignorando meu status de
relacionamento a partir do momento que o havia encontrado no shopping. Minhas convicções
e moral foram sumindo gradativamente a meninas que nos cumprimentávamos, que
ele me chamava pra comer alguma coisa no restaurante japonês no último andar,
que ele segurava a minha mão e no final já não havia certeza de mais nada
dentro de mim.
Olhei pra cima e ele ainda me esperava com aquela típica
cara de impaciente: vamos logo sair daqui?
_ Acho que tudo o que temos pra conversar dá pra ser resolvido
aqui, você não acha, Luccas?
Ele entregou minha bolsa assim que fiquei de pé totalmente.
_ Claro que dá... Consigo te ouvir claramente logo depois de
ignorar os gritos dessa bandinha horrorosa que está tocando agora. Por favor,
Linda, eu não vou te sequestrar ao algo do tipo. Só quero um lugar mais calmo.
Aham, claro.
A temperatura havia baixado, no mínimo, uns 10 graus num
período de 30 minutos. Coloquei o sobretudo que estava mofando no banco de trás
do carro há mais de duas semanas (obrigado, Gertude, por não me deixar sair de
casa sem ele) e ajeitei o cachecol. Ele riu. Sempre fazia isso quando eu
começava com a mania de frio. "Mania". 20 graus, isso não é frio?
As chaves do carro saíram da minha mão como mágica e foram
parar no seu bolso. Olha, ladrão talvez não, porém furtador eu já estava
cogitando a hipótese. Nada de dirigir, só queria andar um pouco... Tomar um ar,
parar na pracinha mais perto e pedir um cachorro quente qualquer. Nenhuma
referência ao nosso último encontro feliz no parque, nem nada. Tudo bem...
Coloquei a melhor expressão 'anda, desembucha' assim que
sentei no banco da praça. Luccas colocou as duas mãos na boca, pensou,
pensou, pensou e soltou uma boa:
_ Você está linda.
"Anda, desembucha".
_ Tudo bem... Olha, eu sei que nós nunca funcionamos. Sei
também que não foi culpa de ninguém além da distância - como se aviões não
existissem, queridinho - e do tempo. Parece que o universo conspirou contra
nós, por mais estúpido que possa parecer isso.
_ O universo, cara, pra mim pode ser chamado de extrema babaquice tua - o interrompi.
_ Enfim... - ele me ignorou solenemente, como sempre - Eu só
queria dizer que, nossa, eu não consigo parar de pensar em você. O tempo
inteiro, chega a não ter graça às vezes. Então chego em casa e abro seu perfil
e as letras EM UM RELACIONAMENTO SÉRIO pulam em neon se chocando contra a minha
cara. Não é da minha conta, de toda maneira.
Não, por favor, fui obrigada a rir.
_ Já parou pra pensar que é exatamente isso que está me fazendo mais interessante?
_ Já - ele riu também - e não deixo de descartar essa
possibilidade. Mas eu sei, Linda, eu sei que nós ainda vamos dar certo. Eu não
estou aqui pedindo que você largue seu namorado, até porque seria loucura.
Ele me olhou assim, de baixo, de um jeito que derretia meu coração.
DerreTIA, porém não mais. Ainda bem, porque nessa altura eu já o estaria
beijando.
_ O que você está pedindo?
_ Que você não me esqueça - ele quase sussurrou - Só isso.
Nada mais. Não é muita coisa. Por favor, não me esquece. Eu vou embora, vou estar
longe... Não vou atrapalhar mais sua vida. Mas não me esquece, eu te imploro.
Olha, pela primeira vez na vida, acho que ele estava falando
a verdade. Não digo por causa dessa cara de cachorro abandonado querendo colo
que dá pra ver agora não, juro. É porque o discurso mudou muito e saiu muito
baixo. Ele, o cara que sempre gosta de se gabar por ser forte e de falar alto e
de chamar atenção... sussurrando. E porque ele não tem nada a ganhar, nesse
momento, eu digo, com isso. E eu sei reconhecer caras que só pensam em ganhos a
curto prazo e Luccas é um deles.
Meu celular vibrou de novo. Fechei os olhos e tentei lembrar
de tudo de bom que eu estava vivendo ao lado do meu namorado... Do quanto ele
me fazia bem e do quanto ele me amava. Porém, tudo o que me veio a cabeça foi o
quanto o abraçado do Luccas é bom. Das mensagens de madrugada, das risadas pelo
messenger, das ligações pós-festa... Só conseguia lembrar, infelizmente, que eu
o havia amado pra caramba.
Daqueles amores que destroem. Lembrei de que havia
chorado quando ele entrou em um
relacionamento sério. Namorando enquanto dizia o quanto ainda cuidava de mim. E
então meu coração entrou em um conflito enorme.
No final ele decidiu: chega de sofrer, por favor, não
aguento mais. E eu sorri.
_ Não dá pra te esquecer - conclui, peguei minha bolsa no
banco para ir embora e completei - Já tentei muito, mas não dá.
Enquanto eu andava sozinha pro carro, a realidade bateu em
mim no melhor estilo 'acorda, o sol já nasceu e você ainda está na chuva'.
Eu nunca poderia esquecê-lo. Ele sempre vai ser essa eterna
incógnita na minha vida, aquele caso mal resolvido, sem solução. Não importa
por onde eu ande, com quem eu esteja. Lá no fundo, vai ter sempre espaço pra
ele. E foda-se, dá pra viver feliz com isso.
Peguei meu celular e respondi meu namorado.
Sinto muito sua falta,
você me faz tão bem que eu não consigo dizer o quanto sou grata por isso. Logo
logo chego em casa, gostaria que estivesse lá ao meu lado. Um dia você estará.
Te amo muito, nada vai mudar isso.
Fechei a porta do carro e liguei o aquecedor. No rádio, um
Gorillaz que não tocava há séculos. Olhei pelo retrovisor e percebi que dá pra
deixar pra trás algumas coisas, mas sempre que surgir um espelho não vou
conseguir passar sem dar uma olhadinha. Acendi um cigarro, algo que também não
fazia desde os tempos de Luccas, e liguei o carro.
Vida, vida, vida... O que mais você tem a oferecer?