Como as coisas podem mudar tão rápido em tão pouco tempo. Mas é assim que acontece, não é? Grandes acontecimentos que mudam o curso do rio que estava tão calmo e tão pronto pra desaguar no mar. E não era questão de medo, porque geralmente essa palavra está fora do meu dicionário. Se eu tivesse medo, provavelmente nem estaria mais viva. E se não é medo, só pode ser... esperança.
Quero me mudar, conversava comigo mesma. Vai ser bom, vou reencontrar amigos e aprender coisas novas. Como será bom voltar a falar português. Posso voltar sempre que puder. Mas nós duas - eu e minha consciencia - sabíamos que só haveria um motivo pra voltar. E esse motivo não existia mais, desde ontem.
Não podia ser possível que todo mundo já tivesse se despedido. Não, eu poderia esperar mais alguns minutos. Ele viria. Não jogaria tudo por alto só por causa... era melhor não pensar no assunto. Só mais alguns minutos e...
Última chamada para o vôo 649 com destino ao Aeroporto de Confins, Belo Horizonte - Brasil. Passageiros, favor embarcar. Decolagem em cinco minutos.
Minha mãe estava a ponto de voltar e me arrastar pela gola.
Respirei fundo, engoli o choro e passei pelo portão de embarque sem olhar pra trás. Já havia recusado muitas coisas por causa disso, perdido muito. Sempre chega a hora de seguir em frente, sem olhar pra trás. A hora era agora.
Bom dia, Brasil. Eu voltei.
CAPITULO UM
A lua brilhava com toda a força que tem no seu esplendor cheio. Estava tão claro que nem parecia noite, e as luzes da cidade pareciam minúsculos vaga-lumes custando a manter-se acesas lá embaixo. Tudo parecia tão longe e tão intocável. Poderia continuar assim, só por mais alguns minutos, dias ou anos.
Blergh de poesia barata.
O que um astro celeste tinha de especial? Uma vez ouvi falar que tudo que víamos da Terra do Universo é uma imagem atrasada milhares de anos, devido ao tempo que a luz demora a percorrer tantos quilômetros. Nem isso chegava a me fascinar mais. A lua dos poetas, dos amantes...
Olhei para o lado e encarei aquele japonês falsificado e moreno - uma das coisas das quais mais senti saudades todos esses anos - e pude sentir aquela cumplicidade que corria entre nós.
Deus, como eu queria que ele me beijasse.
Porém vários motivos o impediriam caso essa idéia estúpida um dia passasse pela cabeça dele.
_ Um real pelo seu pensamento - Kenji disse, atrapalhando a minha inspiração.
_ Não é nada demais - sorri sem graça. Só estava imaginando como seria seu corpo colado no meu - E-eu.. Estava pensando sobre como as coisas podiam ficar quietas ao menos uma vez na vida. Parece que veio um... como se chama? Katrina..
_ Furacão...
_ Isso! Parece que veio um furacão e bagunçou todas as coisas da minha cabeça.
Rafael hesitou, olhou pra lua uma ou duas vezes antes de pegar a minha mão.
_ Tento viver um dia de cada vez. Não fico pensando no que está por vir ou no que terei que enfrentar. É sempre mais fácil quando a hora chega.
Concordei em silêncio. Falar era fácil. Como convencer o cérebro a não pensar no meu problema gigante toda vez que coloco a cabeça no travesseiro e uma ou duas pessoas resolvem conversar comigo é que era difícil.
Fingi que havia entendido e sorri. Era fácil ser feliz perto dele. Bem, talvez seja melhor explicar direito antes de continuar a história.
Rafael Kenji é meu irmão. Esse é um dos motivos pelo qual ele não me beijaria. Não irmão de sangue, claro... os dois homens mais novos que tenho em casa bastam, acredite. Morei no Brasil os cinco primeiros anos da minha vida, até que meu pai resolvesse aceitar o emprego em uma empresa de segurança americana e, do nada, mudar com toda a família para a Flórida. Era muito pequena, não havia como reclamar "ei, eu gosto daqui" e fui sem ao penos pestanejar. Fato é que enquanto morei no Brasil e nessa cidade Patos de Minas, no interior de Minas Gerais, fiz amizade com o garoto que está sentando ao meu lado agora.
Eu era completamente apaixonada por ele.
Esses amores de criança pequena que são lindos, meigos e inocentes. E nós matínhamos uma relação até estável, sabe, até que eu fosse arrastada para Miami.
_ Ei, gente! Saiam daí de cima, o jantar está servido!
E essa voz irritante que está vindo da janela também tem nome: Jéssica Kenji. Ela tem mais direitos sobre o meu irmão Kenji porque, bem, o fato de eles serem gêmeos ajuda bastante. Era também conhecida como "minha melhor amiga desde sempre". E não sem enganem como esses cabelos tingidos de vermelho e esse piercing na lingua, porque Jess é, sem sobra de dúvidas, a pessoa mais patricinha e meiga que eu conheço.
E como se Deus estivesse lendo esse texto, o telefone do Rafael tocou no segundo seguinte. Pelo jeito que ele soltou a minha mão (cortando totalmente o clima que eu estava criando) e saiu de fininho pela janela, era sua... namorada. O terceiro e menos importante motivo pelo qual ele me jogaria telhado abaixo caso eu tentasse agarrá-lo. Eu quero dizer, fala sério! Eu saio por míseros doze anos e o cara arruma uma modelo magricela como substituta. Quis gritar "E AS PROMESSAS DE AMOR ETERNO, HEIN??????" no momento em que soube desse desastre, mas pensei bem e conclui que seria um pouco - só um pouco - infantil da minha parte fazer isso.
Sozinha em cima do telhado. Ótimo. Ouvi um "oi amor" que logo sumiu e o nó da minha garganta aumentou. Droga de sentimentos esquecidos. Resolvi levantar e dei uma última olhada na lua pelo telescópio. Linda, brilhante, cheia. Poderia ficar a noite inteira observando sua beleza se a minha barriga não estivesse roncando de fome.
Jéssica estava no quarto.
_ Nem acredito ainda que você está de volta - ela cacarejou, batendo palminhas de felicidade.
Eu avisei que era patricinha.
_ Não acredito que seu cabelo está vermelho e nem por isso ele deixa de estar. Por isso, vamos parar de crise e descer que eu estou com uma fome horrível.
Jess rolou os olhos - outra coisa que vão ver muito por aqui - e passou o braço pelo meu ombro com certa dificuldade, já que eu deveria ser uns dois palmos mais alta que ela.
_ Sinto muito pelo divórcio dos seus pais - ela disse.
_ Não sinta, eles estão melhor assim. Além do mais, se não fosse por isso eu nem estaria aqui, então sorria.
Ela deu um sorriso amarelo. Sabia exatamente que eu só estava tentando evitar o assunto desde que cheguei. Não queria comentar sobre o divórcio dos meus pais porque não estava nem aí mesmo. Por que ficar falando de um assunto que nem ao menos era engraçado?
_ Tudo bem, eu já entendi. E como seus irmãos estão absorvendo tudo isso?
_ Bom, o idiota do Rodrigo ficou em Miami com o papai por causa da namorada dele. Não sei como um garoto de quinze anos pode preferir a namoradinha a sua família. O Enzo está reagindo até bem, ao menos até o play station 3 dele continuar funcionando.
_ Ou seja, no final deu tudo certo.
É, mais ou menos. Ninguém perguntava como eu estava.
Rafael apareceu na porta. Quis fazer uma voz ridícula e perguntar "e a namoradinha?".
_ Minha mãe já está na iminência de ter um ataque de nervos - ele disse - Vocês sabem como ela fica quando a comida esfria e ela tem que usar o micro-ondas.
Ambas trememos.
_ Vamos todos, então, porque o tempo ruge e a minha fome é de leão.
Jess rolou os olhos e me acompanhou escada abaixo. O dia de amanhã seria, provavelmente, um dos mais frustantes da minha vida e nada melhor que uma lasanha à la Dona Fernanda para animar uma noite de véspera.
A família estava reunida em torno da mesa de jantar. O cheiro era muito convidativo. Servi-me antes de todo mundo, muito feliz por estar entre pessoas tão queridas.
_ Fico tão feliz por vocês terem voltado - a mãe dos meninos, Dona Fernanda, verbalizou meus pensamentos - Sabe, é bom que você esteja aqui para dar um força para os meninos nesse momento tão difícil.
Quase engasguei com o frango.
_ Momento difícil? - olhei pra Jess.
Ela olhava para mãe com reprovação, depois que percebeu minha surpresa, suavizou a expressão e rolou os olhos.
_ É que... minha mãe acha que o terceiro ano vai ser difícil, só isso.
Sei. E eu vou à Igreja todos os domingos porque sou católica.
Olhei para o Rafael, que de uma hora pra outra descobriu que seu jantar era muito mais interessante do que a conversa da mesa.
_ O terceiro ano é realmente muito difícil - concordei, olhando de soslaio para Jéssica - Mas nada que não se possa dar conta com algum esforço.
_ É o que eu sempre digo aos meninos - Dona Fernanda tentou contornar a situação também - O jantar está bom?
_ Está ótimo, parabéns ao cozinheiro.
O cozinheiro, mais conhecido como Seu Nakamura, estava assistindo televisão e fez um "joinha" para mim.
Minha aflição era injustificada porque eu logo saberia qual era o problema. Só que como não posso voltar no tempo e me contar isso, no momento a lasanha custou a descer. Dormi, e sonhando tive pesadelos terríveis com professores que me engoliam e cobras que brincavam de esconde-esconde.

