Estou aqui pra mostrar como isso me mudou tão profundamente que cheguei num ponto, muitos anos depois, de não me reconhecer na frente do espelho. Talvez Léo tenha sido só o puxar do gatilho e uma seqüência de fatos tenha estado atrás da arma. Quem sabe, nunca saberei.
Aos meus vinte anos, eu já não guardava nada daquela menina que tomou o primeiro porre aos dezesseis anos e dormiu com um estranho. Em parte isso é bom. Mas a verdade é que se eu pudesse voltar no tempo faria muita coisa diferente, porque o jeito o qual cresci não foi dos melhores.
Mas aqui vou eu, sendo mais uma vez dramática e tentando saltar anos à frente. Só queria deixar isso bem claro antes de contar o que aconteceu quando acordei no outro dia.
Aposto que deixei muitos de vocês curiosos.
Digamos simplesmente que eu já havia acordado em melhores lençóis. Não literalmente porque aquela cama parecia feita de seda. O que estava sujo mesmo era a minha situação.
Minha cabeça doía pra valer.
Ainda não tinha experimentado uma boa ressaca então o que senti no momento em que tentei me levantar me fez achar que estava morrendo. Ainda mais, estava confusa, com medo, angustiada e desesperada.
Sem mistérios, aquela era a cama do Túlio. Ele havia me levado pra casa dele já que não sabia onde eu morava e já que eu não conseguia dizer nada além de “aimeudeus, como você é lindo” ou “você é maravilhoso, sabia disso?”. Qualquer um ficaria com o ego inflado, mesmo vindo de uma bêbada. Túlio só fazia rir.
Bem, acho melhor pular a parte toda do porre e etc.
Logo minha memória foi voltando e meus pensamentos começaram a se pôr em ordem. Assim você pode imaginar minha expressão sendo que:
1 – nunca havia colocado uma só gota de álcool na boca em toda a minha vida, portanto não tinha idéia do que era aquele barulho de sinos em minha cabeça.
2 – só havia beijado no máximo uns dez garotos, portanto era virgem. A idéia de ter sido violada, mesmo quando implorava por isso, me deixava com náuseas no estômago.
3 – não sabia o que fazer pra sair dali se nem ao menos sabia onde estava.
Saí cambaleante da cama e topei com um copo de água ao lado de um comprimido de aspirina. Sem saber ao certo se devia, tomei o remédio e engoli a água de uma vez.
Pior do que estava não dava pra ficar – não era o que diziam?
Assim que concluí esse pensamento dei de cara com um espelho enorme que cobria toda a porta do guarda-roupa. Quase gritei. Eu estava um lixo, de verdade. Sério, duvido que já tenha ficado pior. Mesmo naquela vez em que resolvi experimentar uma parada verde brilhante que diziam ser da Índia, Absinto.
Tentei ajeitar o cabelo o melhor que pude, mas logo desisti. Nem com minha própria roupa eu estava. A camisa social masculina tinha três vezes o meu tamanho e eu não me lembro de um dia ter entrado dentro dela. Quis chorar, mas não podia desesperar ainda mais. Saí em busca das minhas coisas: celular, bolsa, roupas próprias ou qualquer coisa que indicasse que eu realmente existisse.
Só um nome me veio à cabeça no momento: Leonardo.
Achei meu celular em cima de uma cadeira. Quase não reparei no bilhete que estava embaixo dele e que deixei cair no chão.
“Saí pra comprar café da manhã. Não ligue pra polícia, não chore e não destrua a casa. Nem sei se você se lembra de mim, mas chego em cinco minutos pra te explicar tudo. Não destrua a casa”.
A ênfase no “não vire o Hulk ou coisa parecida” me deixou em dúvida do que realmente tinha feito na noite passada. Ele parecia realmente acreditar que eu fosse capaz de colocar fogo em alguma coisa.
Gemi alto.
_ Eu não me lembro de você – falei pro quarto vazio.
Comecei a bater o celular na testa. Preciso lembrar do que fiz, preciso lembrar do que fiz... Merda, merda, merda. A dor me fez lembrar do celular na minha mão.
Um zilhão de chamadas perdidas. Um zilhão de mensagens. Meio zilhão da minha mãe, meio zilhão do Leonardo. Opa, meio zilhão menos um porque uma era da Lui.
“Onde você está?” – três horas da madrugada. Deleta.
“Pelo amor de Deus, já entendi. Tô com sono e preciso ir embora, cadê você?” – três e meia. Deleta.
“Clarissa, você está muito ferrada” – quatro horas da manhã. Ai, deleta.
“Eu já estou em casa. Se vira pra ir embora” – quatro e quinze. Deleta, deleta, deleta... ahmeudeusdocéu.
Abri a única mensagem sem tom ameaçador. Claro que era da minha melhor amiga. Se ainda fosse ela, não duvidava de mais nada.
“Caralho, C.Louca! Você realmente ficou muito louca não é mesmo? Você não tem noção das coisas que estão falando por aqui. Mandou muito bem, garota. Isso aí. Mais tarde te ligo. Beijos, Lui-não-mais-louca-que-você”.
Hmm... Certo. Não ser mais louca do que a Lui não soava muito bem. Não soava nada, nada bem.
Então me lembrei da briga com o Léo. E de todas as coisas que tinha falado com ele. E, ao invés de me sentir mal com isso, a lembrança me fez sentir ainda mais raiva. Como se ele estivesse ali, naquele momento, gritando comigo e me mandando fazer as coisas do jeito dele.
E graças a Deus ele não estava porque eu teria rido na cara dele e dito tudo o que realmente tinha feito. Ou o que pensava que tinha feito.
Porque eu podia ser inocente, mas não a ponto de não saber o que acontece quando se acorda na casa de um homem – porque aquele perfume era masculino, fora a caligrafia do bilhete – depois de ficar muito louca em uma festa. E com as roupas dele, completo. Eu jogaria tudo aquilo na cara do Léo com uma enorme satisfação.
O que não seria a minha atitude mais sensata nem de longe.
E, além disso, ele estaria do meu lado quando a porta se abriu e eu joguei meu celular no chão pra logo em seguida gritar que nem uma mulherzinha.
Minha atitude mais madura. A cena me faz rir até hoje.
_ Bom dia, anjo... – Túlio disse calmamente, como se toda a garota com a qual ele acorda gritasse assim que ele entrasse no quarto.
Questionei a freqüência daquilo.
_ Quem é você? – gritei num tom agudo, lógico.
_ Oi, de novo. Quais são suas perguntas? – ele colocou as chaves do carro em cima de uma mesinha e foi se aproximando com as mãos pra cima.
Coloquei as mãos na frente, pedindo distância.
_ Quem é você? – perguntei, mais calma.
_ Olá, meu nome é Túlio. Nós nos conhecemos na festa ontem e você se agarrou em mim feito uma louca. Então te trouxe pra minha casa, porque você estava mal demais pra voltar pra sua. O que mais?
Queria perguntar: nós fizemos sexo? Mas engoli isso pra não parecer mais idiota do que já era.
_ Quem sou eu?
Ele riu, percebendo que minha crise histérica já tinha passado.
_ Ah, difícil saber. Você é a Clarissa, protegida do Leonardo. E como o que eu menos quero é causar confusão com ele, acho bom explicar as coisas bem direitinho pra você e te levar pra casa o quanto antes.
Leonardo, de novo. Minha raiva surgiu de novo.
_ Túlio, eu não tenho nada contra você. Na verdade, acho que teria menos coisas ainda se eu te conhecesse de verdade. Então, me desculpa. De verdade, me desculpa mesmo. Não tenho idéia do que fiz ontem, mas não deve ter sido boa coisa. Então, de novo, desculpa.
Aplausos para minha coerência e capacidade de formar frases bonitas.
_ Olha, deu pra perceber que você não costuma beber. Se fosse eu não faria isso de novo, mas não tem por que pedir desculpas.
Ah, mas tinha sim. Dias depois descobri uma porção de coisas que vão de nojentas até realmente muito embaraçosas que eu havia feito perto dele ou com ele. Como vomitar no carro.
_ Tenho que ir. Agora – disse, olhando pro relógio.
_ Eu sei, você está muito ferrada. Mas vou te dizer uma coisa, já que você está ferrada de um jeito ou de outro, por que não toma café comigo? Uma ou duas horas a mais depois de passar a noite fora não vai fazer muita diferença.
_ Não posso – eu disse realmente pesarosa de não poder ficar com ele e compensar todas as outras coisas – Realmente, não posso.
_ Se você quiser, depois eu te arrumo umas roupas da minha irmã e te levo em casa. Mas toma café primeiro...
Meu estômago roncou.
Acabei descobrindo que o Túlio curtia fotografia tanto quanto eu. Que fazia faculdade de Engenharia Civil num faculdade muito conceituada e conseguia citar Mário de Andrade sem parecer um nerd idiota. O apartamento era dele, porque os pais haviam morrido em um acidente de carro há muitos anos atrás, deixando uma pequena fortuna para trás. Descobri, no final, que ele era realmente um cara bastante legal.
O mais engraçado nisso tudo é que pensar que não era mais virgem me deu impulso pra fazer uma porrada de coisas que eu provavelmente não faria. É um humor meio mórbido, mas não deixa de ser humor. Porque, veja bem, acabei perdendo realmente minha virgindade com o Túlio. Só fui perceber que estava enganada tarde demais, quando realmente não dava à mínima pra aquilo.
Só deu problema mesmo quando resolvi soltar essa pérola perto do Leonardo e ele pegou o Túlio pelo colarinho, o erguendo na parede, com uma expressão de quem poderia matar alguém se quisesse. Túlio deixou bem claro que não havia tocado em mim naquela noite.
Leonardo pareceu deixar passar a ênfase no “naquela” por querer. Ele havia brigado com Túlio, que era um grande amigo, por minha causa. Então conversamos e pedi "peloamordedeus" que não fizesse aquilo.
Na época eu ainda pedia pelas coisas.
Ficamos mais do que amigos que passaram por uma experiência ruim juntos. Túlio foi mais ou menos uma fase de transição entre as minhas fases da vida. O único homem em que eu confiei parcialmente depois de Leonardo.
Um homem que me decepcionou também, mas encontrou uma fortaleza preparada pra isso. Um homem que se apaixonou por mim, como tantos outros, mas que não sabia demonstrar quando era necessário.
Túlio era gente boa, bonito, e bom de cama.
Mas eu tinha dezessete anos a essa altura do campeonato, e passei pra fase louca da minha vida muito rapidamente. Rápido demais pra que qualquer um acompanhasse. Ele ficou pra trás, como tantas outras pessoas.
Nesse ponto a enxurrada me carregava tão rápido que eu nem percebia estar afogando.

