Sophia jogou o cabelo pro outro lado. Estava nervosa. Geralmente aquele tipo de lugar a deixava a vontade, como se ela pudesse fazer o que quisesse e sair ilesa. Mas, ultimamente, não estava sendo bem do jeito que ela queria.
O salão estava apertado demais, lotado demais, quente demais. A música estava muito alta, a bebida muito forte e as pessoas conversavam alto demais. Tudo estava ultrapassando os limites. Talvez o problema fosse ela.
Sorriu sem vontade pra amiga que tagarelava alegremente mesmo a música abafando qualquer som mais baixo do que insuportável. Virou mais uma dose. Outra. Tinha que começar a se cuidar, não podia dar vexame ali.
Não na sua formatura.
Ela não se sentia realmente formando. Todos diziam que era o fim de uma fase da vida e o início de outra completamente diferente. Sophia não se sentia assim. Não que não estivesse pronta pra encarar uma faculdade ou coisas do tipo. É só que aquela fase era muito boa pra se deixar pra trás. Deu uma olhada em volta, reconhecendo alguns rostos. Sentiria muita pouca falta de muita pouca gente que estava ali. Pensando por esse ponto de vista, lidaria com a nova vida de boa, com a faculdade e com a cidade nova. Mesmo com todos os problemas.
Problemas... era melhor não pensar neles. Faziam a bebida ficar ainda pior.
_ Sabe, você deveria tentar se divertir um pouco. É a sua formatura.
Ah, ótimo. Ainda tem ele.
_ Não, eu estou me divertindo.
Ele a olhou cético.
_ Sério... – ela sorriu, tentando disfarçar o nervosismo – É só que tá meio quente aqui dentro.
_ Quer sair?
Procurou algum indício de maldade naquela frase. Como sempre, não achou nenhum. Merda.
Pensou por dois segundos se queria se torturar mais um pouco. Nada como um bom sadomasoquismo, concluiu. Deu de ombros e colocou o copo na bandeja de um garçom que ia se equilibrando entre eles.
_ O pessoal já está ficando louco lá dentro – ele disse quando já estava no jardim do salão.
Sophia assentiu, sem vontade de falar muita coisa. Tirou um cigarro da carteira e o acendeu. Nem precisou olhar pra ele pra perceber a reprovação nos seus olhos.
_ Não é tão ruim assim, você sabe – ele insistiu, chegando mais perto dela.
_ Não deve ser mesmo – ela concordou, olhando pro céu estrelado – Estou louca pra fugir daqui. Dessa loucura.
_ Também não funciona assim.
Ela riu, mas sem nenhum humor. Deu outra tragada.
_ Se tudo funcionasse do jeito que eu queria, não estaríamos nessa posição.
Ele chegou mais perto.
_ Posição? Que posição, Sila?
Não podia fazer aquilo naquela hora. Não daquele jeito. Estragar tudo só porque estava se mandando da cidade não parecia muito certo. Sabia das conseqüências, mas o álcool dava uma desculpa para encobri-las só por um momento.
Ela olhou pra ele, pela primeira vez a noite toda. Tinha evitado estar perto, evitado conversar. Eles tinham aquela coisa que os ligavam. Aquele desejo de se abraçarem e explorarem um ao outro de uma forma indescritível.
E essa coisa só fazia ficar mais forte quando eles estavam sozinhos e quando era noite.
Ele ainda tinha aquele ar inocente no rosto. Não fingia muito bem, mas ela podia jurar que ele também sentia aquilo correndo entre eles. Era impossível não sentir.
Respirou fundo, contou até três.
_ Esquece, não estou falando coisa com coisa. Acho que estou tão louca quanto o pessoal lá dentro.
Ele a analisou. Daquele jeito que ele sabia fazer. Depois de uma eternidade, mudou de assunto:
_ Está ficando frio aqui fora.
_ Não estou sentindo.
Silêncio.
_ Vou lá pra dentro, não quero pegar um resfriado.
_ Você quem sabe – outra tragada.
Ele se levantou e bateu a poeira do terno. Sophia o olhou pelas costas. Ficava ainda mais lindo de terno. Quando ele virou pra trás, quase a pegou o encarando. Ela disfarçou olhando pro lado.
_ Ei, Sila... – ele a chamou, parecendo meio incerto do que queria falar. Colocou a mão na nuca, nunca um bom sinal – Só queria que você soubesse que...
_ Eu já sei.
_ Mas me deixa terminar. Então, você pode contar comigo.
_ Eu disse que já sabia.
_ É, devia mesmo – ele hesitou - Posso te pedir um favor?
Ela jogou o cigarro na grama recém-aparada e pisou em cima.
_ Manda.
_ Para de fumar? Cara, eu sei que não é só pra chamar a atenção nem pra mostrar que você pode é só que... Sei lá, me incomoda.
_ Já parei – ela rebateu, porque sempre ficava irritada quando ele tocava naquele assunto e falava como se fosse mais maduro ou mais velho que ela.
Mesmo realmente sendo muito mais maduro e mais velho que ela.
_ Nós nos vemos? Quero dizer, depois dessa noite?
_ Quem sabe, Samuel. O destino não pertence a nós.
_ Odeio quando você fala desse jeito. Dá a impressão de que no próximo minuto você vai se matar ou algo assim.
Ela o olhou impacientemente. Ele ao mesmo tempo a deixava irritada e a divertia. Deu uma risada forçada que deveria soar legal, mas que a deixou com um tom de insanidade.
_ Algo assim.
Samuel respirou fundo.
_ Tudo bem, foda-se. Boa noite, Sophia.
_ Boa noite, Sam.