quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Transgressão (Prólogo e Capítulo 1)

O último apito soou. Última chamada pro embarque, úiltima chance de correr e salvar minha vida. Minha mãe me gritou: vamos, o avião vai decolar e vamos ficar pra trás! ela gritava. Quis gritar algum palavrão de volta, mas a culpa nem era dela.
Como as coisas podem mudar tão rápido em tão pouco tempo. Mas é assim que acontece, não é? Grandes acontecimentos que mudam o curso do rio que estava tão calmo e tão pronto pra desaguar no mar. E não era questão de medo, porque geralmente essa palavra está fora do meu dicionário. Se eu tivesse medo, provavelmente nem estaria mais viva. E se não é medo, só pode ser... esperança.
Quero me mudar, conversava comigo mesma. Vai ser bom, vou reencontrar amigos e aprender coisas novas. Como será bom voltar a falar português. Posso voltar sempre que puder. Mas nós duas - eu e minha consciencia - sabíamos que só haveria um motivo pra voltar. E esse motivo não existia mais, desde ontem.
Não podia ser possível que todo mundo já tivesse se despedido. Não, eu poderia esperar mais alguns minutos. Ele viria. Não jogaria tudo por alto só por causa... era melhor não pensar no assunto. Só mais alguns minutos e...
Última chamada para o vôo 649 com destino ao Aeroporto de Confins, Belo Horizonte  - Brasil. Passageiros, favor embarcar. Decolagem em cinco minutos.
Minha mãe estava a ponto de voltar e me arrastar pela gola.
Respirei fundo, engoli o choro e passei pelo portão de embarque sem olhar pra trás. Já havia recusado muitas coisas por causa disso, perdido muito. Sempre chega a hora de seguir em frente, sem olhar pra trás. A hora era agora.
Bom dia, Brasil. Eu voltei.

CAPITULO UM

A lua brilhava com toda a força que tem no seu esplendor cheio. Estava tão claro que nem parecia noite, e as luzes da cidade pareciam minúsculos vaga-lumes custando a manter-se acesas lá embaixo. Tudo parecia tão longe e tão intocável. Poderia continuar assim, só por mais alguns minutos, dias ou anos.
Blergh de poesia barata.
O que um astro celeste tinha de especial? Uma vez ouvi falar que tudo que víamos da Terra do Universo é uma imagem atrasada milhares de anos, devido ao tempo que a luz demora a percorrer tantos quilômetros. Nem isso chegava a me fascinar mais. A lua dos poetas, dos amantes...
Olhei para o lado e encarei aquele japonês falsificado e moreno - uma das coisas das quais mais senti saudades todos esses anos - e pude sentir aquela cumplicidade que corria entre nós.
Deus, como eu queria que ele me beijasse.
Porém vários motivos o impediriam caso essa idéia estúpida um dia passasse pela cabeça dele.
_ Um real pelo seu pensamento - Kenji disse, atrapalhando a minha inspiração.
_ Não é nada demais - sorri sem graça. Só estava imaginando como seria seu corpo colado no meu  - E-eu.. Estava pensando sobre como as coisas podiam ficar quietas ao menos uma vez na vida. Parece que veio um... como se chama? Katrina..
_ Furacão...
_ Isso! Parece que veio um furacão e bagunçou todas as coisas da minha cabeça.
Rafael hesitou, olhou pra lua uma ou duas vezes antes de pegar a minha mão.
_ Tento viver um dia de cada vez. Não fico pensando no que está por vir ou no que terei que enfrentar. É sempre mais fácil quando a hora chega.
Concordei em silêncio. Falar era fácil. Como convencer o cérebro a não pensar no meu problema gigante toda vez que coloco a cabeça no travesseiro e uma ou duas pessoas resolvem conversar comigo é que era difícil.
Fingi que havia entendido e sorri. Era fácil ser feliz perto dele. Bem, talvez seja melhor explicar direito antes de continuar a história.
Rafael Kenji é meu irmão. Esse é um dos motivos pelo qual ele não me beijaria. Não irmão de sangue, claro... os dois homens mais novos que tenho em casa bastam, acredite. Morei no Brasil os cinco primeiros anos da minha vida, até que meu pai resolvesse aceitar o emprego em uma empresa de segurança americana e, do nada, mudar com toda  a família para a Flórida. Era muito pequena, não havia como reclamar "ei, eu gosto daqui" e fui sem ao penos pestanejar. Fato é que enquanto morei no Brasil e nessa cidade Patos de Minas, no interior de Minas Gerais, fiz amizade com o garoto que está sentando ao meu lado agora.
Eu era completamente apaixonada por ele.
Esses amores de criança pequena que são lindos, meigos e inocentes. E nós matínhamos uma relação até estável, sabe, até que eu fosse arrastada para Miami.
_ Ei, gente! Saiam daí de cima, o jantar está servido!
E essa voz irritante que está vindo da janela também tem nome: Jéssica Kenji. Ela tem mais direitos sobre o  meu irmão Kenji porque, bem, o fato de eles serem gêmeos ajuda bastante. Era também conhecida como "minha melhor amiga desde sempre". E não sem enganem como esses cabelos tingidos de vermelho e esse piercing na lingua, porque Jess é, sem sobra de dúvidas, a pessoa mais patricinha e meiga que eu conheço.
E como se Deus estivesse lendo esse texto, o telefone do Rafael tocou no segundo seguinte. Pelo jeito que ele soltou a minha mão (cortando totalmente o clima que eu estava criando) e saiu de fininho pela janela, era sua... namorada. O terceiro e menos importante motivo pelo qual ele me jogaria telhado abaixo caso eu tentasse agarrá-lo. Eu quero dizer, fala sério! Eu saio por míseros doze anos e o cara arruma uma modelo magricela como substituta. Quis gritar "E AS PROMESSAS DE AMOR ETERNO, HEIN??????" no momento em que soube desse desastre, mas pensei bem e conclui que seria um pouco - só um pouco - infantil da minha parte fazer isso.
Sozinha em cima do telhado. Ótimo. Ouvi um "oi amor" que logo sumiu e o nó da minha garganta aumentou. Droga de sentimentos esquecidos. Resolvi levantar e dei uma última olhada na lua pelo telescópio. Linda, brilhante, cheia. Poderia ficar a noite inteira observando sua beleza se a minha barriga não estivesse roncando de fome.
Jéssica estava no quarto.
_ Nem acredito ainda que você está de volta - ela cacarejou, batendo palminhas de felicidade.
Eu avisei que era patricinha.
_ Não acredito que seu cabelo está vermelho e nem por isso ele deixa de estar. Por isso, vamos parar de crise e descer que eu estou com uma fome horrível.
Jess rolou os olhos - outra coisa que vão ver muito por aqui - e passou o braço pelo meu ombro com certa dificuldade, já que eu deveria ser uns dois palmos mais alta que ela.
_ Sinto muito pelo divórcio dos seus pais - ela disse.
_ Não sinta, eles estão melhor assim. Além do mais, se não fosse por isso eu nem estaria aqui, então sorria.
Ela deu um sorriso amarelo. Sabia exatamente que eu só estava tentando evitar o assunto desde que cheguei. Não queria comentar sobre o divórcio dos meus pais porque não estava nem aí mesmo. Por que ficar falando de um assunto que nem ao menos era engraçado?
_ Tudo bem, eu já entendi. E como seus irmãos estão absorvendo tudo isso?
_ Bom, o idiota do Rodrigo ficou em Miami com o papai por causa da namorada dele. Não sei como um garoto de quinze anos pode preferir a namoradinha a sua família. O Enzo está reagindo até bem, ao menos até o play station 3 dele continuar funcionando.
_ Ou seja, no final deu tudo certo.
É, mais ou menos. Ninguém perguntava como eu estava.
Rafael apareceu na porta. Quis fazer uma voz ridícula e perguntar "e a namoradinha?".
_ Minha mãe já está na iminência de ter um ataque de nervos - ele disse - Vocês sabem como ela fica quando a comida esfria e ela tem que usar o micro-ondas.
Ambas trememos.
_ Vamos todos, então, porque o tempo ruge e a minha fome é de leão.
Jess rolou os olhos e me acompanhou escada abaixo. O dia de amanhã seria, provavelmente, um dos mais frustantes da minha vida e nada melhor que uma lasanha à la Dona Fernanda para animar uma noite de véspera.
A família estava reunida em torno da mesa de jantar. O cheiro era muito convidativo. Servi-me antes de todo mundo, muito feliz por estar entre pessoas tão queridas.
_ Fico tão feliz por vocês terem voltado - a mãe dos meninos, Dona Fernanda, verbalizou meus pensamentos - Sabe, é bom que você esteja aqui para dar um força para os meninos nesse momento tão difícil.
Quase engasguei com o frango.
_ Momento difícil? - olhei pra Jess.
Ela olhava para mãe com reprovação, depois que percebeu minha surpresa, suavizou a expressão e rolou os olhos.
_ É que... minha mãe acha que o terceiro ano vai ser difícil, só isso.
Sei. E eu vou à Igreja todos os domingos porque sou católica.
Olhei para o Rafael, que de uma hora pra outra descobriu que seu jantar era muito mais interessante do que a conversa da mesa.
_ O terceiro ano é realmente muito difícil - concordei, olhando de soslaio para Jéssica - Mas nada que não se possa dar conta com algum esforço.
_ É o que eu sempre digo aos meninos - Dona Fernanda tentou contornar a situação também - O jantar está bom?
_ Está ótimo, parabéns ao cozinheiro.
O cozinheiro, mais conhecido como Seu Nakamura, estava assistindo televisão e fez um "joinha" para mim.
Minha aflição era injustificada porque eu logo saberia qual era o problema. Só que como não posso voltar no tempo e me contar isso, no momento a lasanha custou a descer. Dormi, e sonhando tive pesadelos terríveis com professores que me engoliam e cobras que brincavam de esconde-esconde.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Garotas Boas part V

Eu não me lembro quando foi que percebi que não gostava mais dele. Mas lembro que quando a ficha caiu, permitam-me o clichê, um vazio enorme surgiu dentro de mim e não era fome. Foram três anos amando intensamente o mesmo cara, depois outros dois fingindo que não o amava para finalmente, aos meus 19 anos, resolver parar com aquela palhaçada e crescer.
Mas eu me lembro de uma ou vinte situações engraçadas que posso compartilhar. Afinal, nem tudo são dores na vida, há sempre anestesistas disponíveis*.
*afirmação válida em todos os territórios exceto o brasileiro.
A tarde era morna e o sol forte o suficiente pra pegar um bronze. Era no que eu estava pensando quando coloquei o biquini, arrumei a trouxa de clube e puxei - lentamente - a chave do carro do chaveiro. Se minha mãe acordasse não deixaria eu nem tocar no carro novo, muito menos com uma carteira provisória.
Estava saindo literalmente na ponta dos pés, olhando pra trás a todo momento quando escutei um grito:
_ CAMILA!
_ CACETE! - rebati, com a mão no coração acelerado do susto e a respiração ofegante.
Era Leonardo, escorado no pilar da varanda. Ele se aproximou com aquela típica cara de reprovação.
_ O que você disse?
Dei uma nova olhada pra dentro da casa, mas minha mãe ainda roncava. Sorte a dele, porque se não eu seria capaz de arremessar o carro contra ele e com sorte chegaria voando a Cuba e seu ideal socialista infeliz. (Sim, eu era amante da história e escondia livros como "O Príncipe" embaixo do colchão)
_ Eu disse "o que está fazendo aqui"? - disse, já procurando meios de dispistá-lo.
_ Você não está pensando em pegar o carro da sua mãe, está? Não... você não seria louca.
_ Leonardo, meu amor, eu não tenho tempo pra você hoje - disse conferindo os documentos dentro da bolsa - Poderia, por favor, dar espaço para eu passar ou será necessário pular essa porcaria de mureta?
_ Onde você pensa que vai com esses shorts? - e cruzou os braços no peito.
Ah, que ótimo. Era tudo o que me faltava. Ser barrada na saída de casa por um meio-irmão ciumento com o sol alto e lindo no céu. Imagine só a cor que eu já poderia estar pegando.
_ Vou ao clube, esses shorts está ótimo.
_ Nada disso, pode ir lá trocar ou grito a tia Marneide agora.
Respirei fundo.
E nesse respirar tive a idéia mais brilhante da minha vida.
_ Porque, Leonardo? Porque eu não posso usar esses... - puxei o jeans um pouco mais pra cima - aqui?
Não sabia direito o que estava fazendo, mas soltei o coque e deixei os cabelo cairem pela saída de praia. Funcionava bem nos filmes.
Funcionou um pouco na vida real, pois podia jurar que havia visto Léo engolindo em seco. Até porque ele demorou a voltar a falar.
_ Porque uma moça de família não desfila por ai com tão pouco pano - ele disse bravo, mas sua postura já estava caindo.
_ Moça de família? - sorri, e cheguei mais perto - Sabe, já faz um tempo que eu não sou mais uma "moça", muito menos de família.
Pude acompanhar o sangue subindo do pescoço até a cabeça dele. Ele se adiantou e pegou no meu braço com tanta força que eu tinha certeza que ficaria marcado.
_ Eu ainda não engoli aquela história do Pedro, Camila. E nem vou engolir. Então você trate de não tocar mais no assunto.
(Agora, todos concordam que ele pediu o que eu fiz a seguir).
Joguei a cabeça pra trás e dei uma gargalhada muito grande. Era engraçado, de verdade. Como ele podia ser tão convencido de que podia controlar minha vida. Controlar com quem eu dormiria, com quem eu perderia minha virgindade, quem sairia, andaria, beijaria. Era sinceramente hilário o jeito que Léo achava ser meu dono, mesmo quando ele mesmo tinha outras "donas".
E então aquele fogo que eu sentia foi se apagando lentamente, sendo consumido pela (feliz) final constatação de que ele não merecia nem a minha mera atenção, quanto mais o meu amor. Descobri que, de fato, aquela chama já estava fraquinha fraquinha e que bastou um único sopro daquele pra ela se apagar.
E ri um pouco mais antes de olhá-lo novamente, com água nos olhos.
_ Você se acha, não é? Por quê? Por que não suporta a idéia de que uma pessoa possa me tocar assim - coloquei a mão dele no meu quadril, e cheguei mais perto. Nada de fogo - Ou assim - coloquei a outra mão dele na minha nuca - Por que, Leonardo, não consegue dormir pensando que eu possa ter feito isso... - passei minha perna na sua cintura - e ter despertado o desejo de alguém por mim? Alguém que não me veja como uma irmã.
Pela primeira vez olhei em seus olhos realmente. Ou pela primeira vez ele tenha realmente olhado nos meus, com aquele conhecido desejo expresso neles. E nada de fogo em mim. Já nele, as coisas estavam diferentes. Sabia que estava brincando demais e indo muito, muito mais além do que jamais poderia ir. Mas não estava nem ligando. Controlei o riso.
Quando estava quase tirando a perna e me afastando, Leonardo me virou com tudo e me encostou na pilastra. Sua mão foi descendo da minha cintura pra minha coxa e seu rosto foi parar no meu pescoço. E nada de fogo. Quando sua boca estava a poucos centrímetros da minha e eu podia sentir sua respiração ofegante no meu pesqoço, não aguentei. Comecei a rir descontroladamente.
_ Tem certeza de que quer fazer isso, Leonardo? - perguntei, tentando segurar a crise.
Nunca achei que alguém, além dos meus últimos professores, pudesse se afastar de mim numa velocidade tão rápida quanto a que Léo atingiu. Num segundo ele estava quase me beijando, no outro ele encostava na porta da frente da minha casa, encostado com a cabeça pra baixo e ainda ofegante.
_ Desculpe - foi tudo o que ele disse antes de pular a mureta e sair pelo jardim.
E meu primeiro pensamento foi:
"ALELUIA! CLUBE, AQUI VAMOS NÓS, SEU LINDO".

-

Fui muito feliz, se querem saber. Talvez alguns achem muito mesquinho encontrar felicidade em festas, bebidas, amizades falsas e todas essas coisas passageiras, mas fui feliz do mesmo jeito. Foi uma época conturbada, fútil. Passava horas na academia para desfilar com o vestido mais apertado de todos e achava estar muito bem, obrigada.
Não era total imaturidade e falta de visão de mundo da minha parte, porque eu tinha plena consciencia do que estava fazendo. Sabia que afundava cada vez mais naquele mar de lama cada vez que tentava preencher a razão de viver com mais e mais festas. Toda vez que afastava alguem que se importava comigo. Para os padrões da sociedade vigente, eu estava errada.
E estava mesmo.
Dizem que toda pessoa tem que levar um choque de realidade para acorda para a vida. Não tive um tão grande assim, afinal nunca estive dormindo. Só estava num estado de sonolência muito profundo. Um dia, em uma festa qualquer,  acabei bebendo demais e parando no hospital. Não para tomar glicose, como sempre fazia. Mas em coma alcoolico. Tirei um fino  muito grande da morte, e decidi não arriscar mais.
E de tanto ouvir o discurso de "você tem que tomar jeito" até decorá-lo de trás para frente, resolvi, um dia, criar vergonha na cara. Fiz minha inscrição na faculdade de Direito, a mesma que Tomás havia se formado no ano passado.
Quando ele ficou sabendo disso, ligou marcando um jantar em um restaurante legal no centro de Belo Horizonte.
_ Eu não estou acreditando - ele começou a frase.
_ Também não! Nunca me imaginei fazendo uma faculdade nem...
_ Não, isso não. É claro que um dia você estaria cursando alguma coisa. Estou falando do tanto que você está mudada. Muito, muito linda!
Corei imediatamente. Túlio tinha esse poder.
Não estava usando nada além de um vestido de corte reto, preto. Básico. E ele me fazia sentir em um traje de gala com uma maquiagem profissional.
_ Obrigada - sorri - Você também está ótimo.
_ Obrigada? Você está agradecendo? Está me elogiando? MEU DEUS quem é você?!
Sorri e o mandei calar a boca. Fala sério, nunca fui tão bruta e tirada. Ou fui? Aquilo chegou a me magooar um pouquinho (nova prova de que estava mudando) só que não dei bola.
_ Vamos entrar ou você vai ficar aqui de fora me difamando?
Ele deu um sorriso maravilhoso.
_ Claro que vamos entrar... Estou louco para saber o motivo de tanta transformação.
O garçom nos indicou uma mesa afastada. Com a luz baixa de velas, a mpb e a minha personalidade, não duvidava estar dormindo em cinco minutos de jantar. Nem cheguei a me tocar que era uma lugar um pouco mais romântico que o esperado.
_ Então, passou em Direito na primeira vez? Olha, você nunca para de me surpreender.
_ E não é? - respondi, realmente maravilhada - Quase não acreditei quando vi. Tem, o que, três anos que eu não pego em um caderno e consegui de primeira. Não sei não, mas não duvido que minha mãe tenha subornado os corretores para me ver logo tomando um jeito na vida.
_ Impossível... - ele riu, pegando o cardápio com o garçom - A UFMG é complicada. E o que te deu para de uma hora para outra resolver tomar tipo?
_ Oh! - fingi estar ofendida - Quer dizer que eu não tinha tipo?
_ Não mesmo - ele disse convicto - Aquela menina de dezesseis anos que vomitou no meu carro foi só ficando cada vez mais complicada.
Assumi a verdade daqueles fatos.
_ Praticamente não tenho explicação - concordei - Acho que o amor estraga um pouco as pessoas.
_ Amor?! Quando? Não... Desculpe-me, mas essa vai ser difícil de engolir. Está dizendo que você já amou alguma vez na vida?
Sorri. Geralmente era essa a reação que eu espero das pessoas quando confesso isso. Não que tenha contado para muitas além da Lui. A Clarissa coração-de-gelo nunca pode ter amado, é essa a conclusão que as pessoas tiram das minhas atitudes.
_ Amei, há muitos anos atrás. Fiquei tão magoada que talvez tenha desistido de lutar pelos meus sonhos. Pode ter sido isso.
_ Engraçado, mas de você eu nunca esperaria tal revelação. No meu caso, se eu fosse afundando toda vez que sofresse uma dor amorosa já teria chegado ao inferno há anos.
_ O que quer dizer com isso?
_ Somando as minhas inúmeras decepções amorosas e todas as vezes que tive que juntar meus pedaços... se eu agisse como você talvez nem estaria aqui. Inclusive, não teria conseguido reunir os cacos depois da última.
Ergui uma sobrancelha. Onde ele queria chegar?
_ Última? Recentemente você esteve envolvido com alguém?
_ Não, nem de perto - ele sorriu meio amarelo. Parecia estar tentando juntar coragem para dizer algo importante - Minha última grande decepção, Clarissa... Foi você.
Quase pulei da cadeira.
_ Eu?! Túlio... não querendo revirar o passado distante, mas você me traiu com a Rebecca... Aquela gostosa vinte anos mais velha que você. E mais de uma vez.
_ Eu sei! - ele rebateu, parecendo angustiado - Mas nem me lembro mais as incontáveis vezes em que pedi desculpas. Implorei. Ajoelhei. Humilhei-me para você me perdoar. A verdade era que você não conseguiria me amar, nem se eu não tivesse feito nada.
Respirei fundo. Tinha pouca paciencia para aquele teatrinho masculino o qual já estava escolada.
_ Tudo bem. Acho melhor fazermos o pedido.
Quando eu abria a boa para chamar o garçom, meu celular tocou. Como estava em cima da mesa, Túlio leu no visor que era Leonardo.
_ Se você me dá cinco minutos... - peguei o celular da mesa. Ou tentei, porque ele segurou a minha mão.
_ É ele não é?
_ Ele quem?
_ Leonardo. É dele de quem você estava falando.
Não respondi. Não conseguiria mentir naquela situação, negar o inegável. Só tirei a mão dele da minha e atendi, saindo para a rua.
_ Oi, Leonardo... O que foi agora?
Não nego que a revelação me tocou. Mexeu com alguma coisa mais fundo do que a minha barreira de sarcasmo e meus muros de proteção. Túlio uma vez havia magoado a Clarissa em que eu havia me transformado por proteção, e essa não engolia sapo ou levava mágoas para casa. Mas ali, naquele restaurante aconchegante da capital, onde eu estava começando a minha nova fase, sua declaração tocou a antiga Clarissa. Aquela que acordou assustada na cama de um desconhecido, que se mostrou bem gentil.
E naquela noite, antes de dormir, pensei em cada momento bom que havia compartilhado com Túlio.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Garotas Boas part IV

Desculpe se passei uma péssima primeira impressão. Não me leve a mal, você que gosta de romances. Sério, não é nada realmente pessoal, mas não vim aqui falar sobre como sofri em não ter o meu amor correspondido ou sobre como nossa vida é injusta; não mesmo. Isso tudo a gente supera, acredite. Quando se têm quinze anos é fácil pensar que o mundo se resume ao que vivemos ali e ponto final. Nunca fui assim.
Estou aqui pra mostrar como isso me mudou tão profundamente que cheguei num ponto, muitos anos depois, de não me reconhecer na frente do espelho. Talvez Léo tenha sido só o puxar do gatilho e uma seqüência de fatos tenha estado atrás da arma. Quem sabe, nunca saberei.
Aos meus vinte anos, eu já não guardava nada daquela menina que tomou o primeiro porre aos dezesseis anos e dormiu com um estranho. Em parte isso é bom. Mas a verdade é que se eu pudesse voltar no tempo faria muita coisa diferente, porque o jeito o qual cresci não foi dos melhores.

Mas aqui vou eu, sendo mais uma vez dramática e tentando saltar anos à frente. Só queria deixar isso bem claro antes de contar o que aconteceu quando acordei no outro dia.
Aposto que deixei muitos de vocês curiosos.

Digamos simplesmente que eu já havia acordado em melhores lençóis. Não literalmente porque aquela cama parecia feita de seda. O que estava sujo mesmo era a minha situação.
Minha cabeça doía pra valer.
Ainda não tinha experimentado uma boa ressaca então o que senti no momento em que tentei me levantar me fez achar que estava morrendo. Ainda mais, estava confusa, com medo, angustiada e desesperada.
Sem mistérios, aquela era a cama do Túlio. Ele havia me levado pra casa dele já que não sabia onde eu morava e já que eu não conseguia dizer nada além de “aimeudeus, como você é lindo” ou “você é maravilhoso, sabia disso?”. Qualquer um ficaria com o ego inflado, mesmo vindo de uma bêbada. Túlio só fazia rir.
Bem, acho melhor pular a parte toda do porre e etc.

Logo minha memória foi voltando e meus pensamentos começaram a se pôr em ordem. Assim você pode imaginar minha expressão sendo que:
1 – nunca havia colocado uma só gota de álcool na boca em toda a minha vida, portanto não tinha idéia do que era aquele barulho de sinos em minha cabeça.
2 – só havia beijado no máximo uns dez garotos, portanto era virgem. A idéia de ter sido violada, mesmo quando implorava por isso, me deixava com náuseas no estômago.
3 – não sabia o que fazer pra sair dali se nem ao menos sabia onde estava.
Saí cambaleante da cama e topei com um copo de água ao lado de um comprimido de aspirina. Sem saber ao certo se devia, tomei o remédio e engoli a água de uma vez.
Pior do que estava não dava pra ficar – não era o que diziam?
Assim que concluí esse pensamento dei de cara com um espelho enorme que cobria toda a porta do guarda-roupa. Quase gritei. Eu estava um lixo, de verdade. Sério, duvido que já tenha ficado pior. Mesmo naquela vez em que resolvi experimentar uma parada verde brilhante que diziam ser da Índia, Absinto.
Tentei ajeitar o cabelo o melhor que pude, mas logo desisti. Nem com minha própria roupa eu estava. A camisa social masculina tinha três vezes o meu tamanho e eu não me lembro de um dia ter entrado dentro dela. Quis chorar, mas não podia desesperar ainda mais. Saí em busca das minhas coisas: celular, bolsa, roupas próprias ou qualquer coisa que indicasse que eu realmente existisse.
Só um nome me veio à cabeça no momento: Leonardo.
Achei meu celular em cima de uma cadeira. Quase não reparei no bilhete que estava embaixo dele e que deixei cair no chão.
“Saí pra comprar café da manhã. Não ligue pra polícia, não chore e não destrua a casa. Nem sei se você se lembra de mim, mas chego em cinco minutos pra te explicar tudo. Não destrua a casa”.
A ênfase no “não vire o Hulk ou coisa parecida” me deixou em dúvida do que realmente tinha feito na noite passada. Ele parecia realmente acreditar que eu fosse capaz de colocar fogo em alguma coisa.
Gemi alto.
_ Eu não me lembro de você – falei pro quarto vazio.
Comecei a bater o celular na testa. Preciso lembrar do que fiz, preciso lembrar do que fiz... Merda, merda, merda. A dor me fez lembrar do celular na minha mão.
Um zilhão de chamadas perdidas. Um zilhão de mensagens. Meio zilhão da minha mãe, meio zilhão do Leonardo. Opa, meio zilhão menos um porque uma era da Lui.
“Onde você está?” – três horas da madrugada. Deleta.
“Pelo amor de Deus, já entendi. Tô com sono e preciso ir embora, cadê você?” – três e meia. Deleta.
“Clarissa, você está muito ferrada” – quatro horas da manhã. Ai, deleta.
“Eu já estou em casa. Se vira pra ir embora” – quatro e quinze. Deleta, deleta, deleta... ahmeudeusdocéu.
Abri a única mensagem sem tom ameaçador. Claro que era da minha melhor amiga. Se ainda fosse ela, não duvidava de mais nada.
“Caralho, C.Louca! Você realmente ficou muito louca não é mesmo? Você não tem noção das coisas que estão falando por aqui. Mandou muito bem, garota. Isso aí. Mais tarde te ligo. Beijos, Lui-não-mais-louca-que-você”.
Hmm... Certo. Não ser mais louca do que a Lui não soava muito bem. Não soava nada, nada bem.
Então me lembrei da briga com o Léo. E de todas as coisas que tinha falado com ele. E, ao invés de me sentir mal com isso, a lembrança me fez sentir ainda mais raiva. Como se ele estivesse ali, naquele momento, gritando comigo e me mandando fazer as coisas do jeito dele.
E graças a Deus ele não estava porque eu teria rido na cara dele e dito tudo o que realmente tinha feito. Ou o que pensava que tinha feito.
Porque eu podia ser inocente, mas não a ponto de não saber o que acontece quando se acorda na casa de um homem – porque aquele perfume era masculino, fora a caligrafia do bilhete – depois de ficar muito louca em uma festa. E com as roupas dele, completo. Eu jogaria tudo aquilo na cara do Léo com uma enorme satisfação.
O que não seria a minha atitude mais sensata nem de longe.
E, além disso, ele estaria do meu lado quando a porta se abriu e eu joguei meu celular no chão pra logo em seguida gritar que nem uma mulherzinha.
Minha atitude mais madura. A cena me faz rir até hoje.

_ Bom dia, anjo... – Túlio disse calmamente, como se toda a garota com a qual ele acorda gritasse assim que ele entrasse no quarto.
Questionei a freqüência daquilo.
_ Quem é você? – gritei num tom agudo, lógico.
_ Oi, de novo. Quais são suas perguntas? – ele colocou as chaves do carro em cima de uma mesinha e foi se aproximando com as mãos pra cima.
Coloquei as mãos na frente, pedindo distância.
_ Quem é você? – perguntei, mais calma.
_ Olá, meu nome é Túlio. Nós nos conhecemos na festa ontem e você se agarrou em mim feito uma louca. Então te trouxe pra minha casa, porque você estava mal demais pra voltar pra sua. O que mais?
Queria perguntar: nós fizemos sexo? Mas engoli isso pra não parecer mais idiota do que já era.
_ Quem sou eu?
Ele riu, percebendo que minha crise histérica já tinha passado.
_ Ah, difícil saber. Você é a Clarissa, protegida do Leonardo. E como o que eu menos quero é causar confusão com ele, acho bom explicar as coisas bem direitinho pra você e te levar pra casa o quanto antes.
Leonardo, de novo. Minha raiva surgiu de novo.
_ Túlio, eu não tenho nada contra você. Na verdade, acho que teria menos coisas ainda se eu te conhecesse de verdade. Então, me desculpa. De verdade, me desculpa mesmo. Não tenho idéia do que fiz ontem, mas não deve ter sido boa coisa. Então, de novo, desculpa.
Aplausos para minha coerência e capacidade de formar frases bonitas.
_ Olha, deu pra perceber que você não costuma beber. Se fosse eu não faria isso de novo, mas não tem por que pedir desculpas.
Ah, mas tinha sim. Dias depois descobri uma porção de coisas que vão de nojentas até realmente muito embaraçosas que eu havia feito perto dele ou com ele. Como vomitar no carro.
_ Tenho que ir. Agora – disse, olhando pro relógio.
_ Eu sei, você está muito ferrada. Mas vou te dizer uma coisa, já que você está ferrada de um jeito ou de outro, por que não toma café comigo? Uma ou duas horas a mais depois de passar a noite fora não vai fazer muita diferença.
_ Não posso – eu disse realmente pesarosa de não poder ficar com ele e compensar todas as outras coisas – Realmente, não posso.
_ Se você quiser, depois eu te arrumo umas roupas da minha irmã e te levo em casa. Mas toma café primeiro...
Meu estômago roncou.
Acabei descobrindo que o Túlio curtia fotografia tanto quanto eu. Que fazia faculdade de Engenharia Civil num faculdade muito conceituada e conseguia citar Mário de Andrade sem parecer um nerd idiota. O apartamento era dele, porque os pais haviam morrido em um acidente de carro há muitos anos atrás, deixando uma pequena fortuna para trás. Descobri, no final, que ele era realmente um cara bastante legal.

O mais engraçado nisso tudo é que pensar que não era mais virgem me deu impulso pra fazer uma porrada de coisas que eu provavelmente não faria. É um humor meio mórbido, mas não deixa de ser humor. Porque, veja bem, acabei perdendo realmente minha virgindade com o Túlio. Só fui perceber que estava enganada tarde demais, quando realmente não dava à mínima pra aquilo.
Só deu problema mesmo quando resolvi soltar essa pérola perto do Leonardo e ele pegou o Túlio pelo colarinho, o erguendo na parede, com uma expressão de quem poderia matar alguém se quisesse. Túlio deixou bem claro que não havia tocado em mim naquela noite.
Leonardo pareceu deixar passar a ênfase no “naquela” por querer. Ele havia brigado com Túlio, que era um grande amigo, por minha causa. Então conversamos e pedi "peloamordedeus" que não fizesse aquilo.
Na época eu ainda pedia pelas coisas.
Ficamos mais do que amigos que passaram por uma experiência ruim juntos. Túlio foi mais ou menos uma fase de transição entre as minhas fases da vida. O único homem em que eu confiei parcialmente depois de Leonardo.
Um homem que me decepcionou também, mas encontrou uma fortaleza preparada pra isso. Um homem que se apaixonou por mim, como tantos outros, mas que não sabia demonstrar quando era necessário.
Túlio era gente boa, bonito, e bom de cama.
Mas eu tinha dezessete anos a essa altura do campeonato, e passei pra fase louca da minha vida muito rapidamente. Rápido demais pra que qualquer um acompanhasse. Ele ficou pra trás, como tantas outras pessoas.
Nesse ponto a enxurrada me carregava tão rápido que eu nem percebia estar afogando.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Diálogo

Por que eu não quero ficar com você? Quem mentiu tão feio assim? Querer, e quero. E muito. Aliás, você sabe disso. Do contrário nem estaria aqui hoje. Porque você é assim: não dá ponto sem nó. E no final, eu vou acabar ficando com você, mas também já sabe disso. Porém não é por eu não querer e sim por não poder. Quando eu quero muito algo e não posso, acabo fazendo do mesmo jeito. Não fique convencido. É o meu jeito de ser. Você sabe disso também, não sabe?
Por que não posso? Porque você é assim. Assim, assim. Lindo, charmoso, gennte boa, popular. Sabe como agradar, como conquistar. Então você pega essas meninas que são facilmente manipuladas e joga tão bem quanto só você sabe jogar. Só para vê-las apaixonadas e aos seus pés. O que vale para mulheres do mesmo jeito.
Eu não sou assim; Boba, influenciável. Talvez seja por isso que esteja aqui, por isso que insista. Ou talvez só me ache atraente. Sinceramente? Não sei. Mas tenho medo, sabe. De cair igual essas garotas - todas essas que lotam a sua inbox. Sei lá... se são tantas assim, talvez você tenha a manha, saiba fazer direito. Um coração partido deve doer pra caramba já que fazem milhões de músicas sobre isso - não quero experimentar.
Por isso eu te evito, mesmo querendo. Não e charme, bobagem. Não tento me fazer de difícil pra assim, quem sabe, você gostas do desafio e se apaixonar por mim feito passe de mágica. Isso e conto de fadas, fantasia. Ninguém muda do nada. Não mesmo.
Só estou tentando me proteger.
E mesmo sabendo de tudo isso, ainda vou tê beijar. Só falta você tentar. Foda-se se eu não posso. Eu quero. Do coração partido, cuidamos depois.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Graduation


Sophia jogou o cabelo pro outro lado. Estava nervosa. Geralmente aquele tipo de lugar a deixava a vontade, como se ela pudesse fazer o que quisesse e sair ilesa. Mas, ultimamente, não estava sendo bem do jeito que ela queria.
O salão estava apertado demais, lotado demais, quente demais. A música estava muito alta, a bebida muito forte e as pessoas conversavam alto demais. Tudo estava ultrapassando os limites. Talvez o problema fosse ela.
Sorriu sem vontade pra amiga que tagarelava alegremente mesmo a música abafando qualquer som mais baixo do que insuportável. Virou mais uma dose. Outra. Tinha que começar a se cuidar, não podia dar vexame ali.
Não na sua formatura.
Ela não se sentia realmente formando. Todos diziam que era o fim de uma fase da vida e o início de outra completamente diferente. Sophia não se sentia assim. Não que não estivesse pronta pra encarar uma faculdade ou coisas do tipo. É só que aquela fase era muito boa pra se deixar pra trás. Deu uma olhada em volta, reconhecendo alguns rostos. Sentiria muita pouca falta de muita pouca gente que estava ali. Pensando por esse ponto de vista, lidaria com a nova vida de boa, com a faculdade e com a cidade nova. Mesmo com todos os problemas.
Problemas... era melhor não pensar neles. Faziam a bebida ficar ainda pior.
_ Sabe, você deveria tentar se divertir um pouco. É a sua formatura.
Ah, ótimo. Ainda tem ele.
_ Não, eu estou me divertindo.
Ele a olhou cético.
_ Sério... – ela sorriu, tentando disfarçar o nervosismo – É só que tá meio quente aqui dentro.
_ Quer sair?
Procurou algum indício de maldade naquela frase. Como sempre, não achou nenhum. Merda.
Pensou por dois segundos se queria se torturar mais um pouco. Nada como um bom sadomasoquismo, concluiu. Deu de ombros e colocou o copo na bandeja de um garçom que ia se equilibrando entre eles.

_ O pessoal já está ficando louco lá dentro – ele disse quando já estava no jardim do salão.
Sophia assentiu, sem vontade de falar muita coisa. Tirou um cigarro da carteira e o acendeu. Nem precisou olhar pra ele pra perceber a reprovação nos seus olhos.
_ Não é tão ruim assim, você sabe – ele insistiu, chegando mais perto dela.
_ Não deve ser mesmo – ela concordou, olhando pro céu estrelado – Estou louca pra fugir daqui. Dessa loucura.
_ Também não funciona assim.
Ela riu, mas sem nenhum humor. Deu outra tragada.
_ Se tudo funcionasse do jeito que eu queria, não estaríamos nessa posição.
Ele chegou mais perto.
_ Posição? Que posição, Sila?
Não podia fazer aquilo naquela hora. Não daquele jeito. Estragar tudo só porque estava se mandando da cidade não parecia muito certo. Sabia das conseqüências, mas o álcool dava uma desculpa para encobri-las só por um momento.
Ela olhou pra ele, pela primeira vez a noite toda. Tinha evitado estar perto, evitado conversar. Eles tinham aquela coisa que os ligavam. Aquele desejo de se abraçarem e explorarem um ao outro de uma forma indescritível.
 E essa coisa só fazia ficar mais forte quando eles estavam sozinhos e quando era noite.
Ele ainda tinha aquele ar inocente no rosto. Não fingia muito bem, mas ela podia jurar que ele também sentia aquilo correndo entre eles. Era impossível não sentir.
Respirou fundo, contou até três.
_ Esquece, não estou falando coisa com coisa. Acho que estou tão louca quanto o pessoal lá dentro.
Ele a analisou. Daquele jeito que ele sabia fazer. Depois de uma eternidade, mudou de assunto:
_ Está ficando frio aqui fora.
_ Não estou sentindo.
Silêncio.
_ Vou lá pra dentro, não quero pegar um resfriado.
_ Você quem sabe – outra tragada.
Ele se levantou e bateu a poeira do terno. Sophia o olhou pelas costas. Ficava ainda mais lindo de terno. Quando ele virou pra trás, quase a pegou o encarando. Ela disfarçou olhando pro lado.
_ Ei, Sila... – ele a chamou, parecendo meio incerto do que queria falar. Colocou a mão na nuca, nunca um bom sinal – Só queria que você soubesse que...
_ Eu já sei.
_ Mas me deixa terminar. Então, você pode contar comigo.
_ Eu disse que já sabia.
_ É, devia mesmo – ele hesitou - Posso te pedir um favor?
Ela jogou o cigarro na grama recém-aparada e pisou em cima.
_ Manda.
_ Para de fumar? Cara, eu sei que não é só pra chamar a atenção nem pra mostrar que você pode é só que... Sei lá, me incomoda.
_ Já parei – ela rebateu, porque sempre ficava irritada quando ele tocava naquele assunto e falava como se fosse mais maduro ou mais velho que ela.
Mesmo realmente sendo muito mais maduro e mais velho que ela.
_ Nós nos vemos? Quero dizer, depois dessa noite?
_ Quem sabe, Samuel. O destino não pertence a nós.
_ Odeio quando você fala desse jeito. Dá a impressão de que no próximo minuto você vai se matar ou algo assim.
Ela o olhou impacientemente. Ele ao mesmo tempo a deixava irritada e a divertia. Deu uma risada forçada que deveria soar legal, mas que a deixou com um tom de insanidade.
_ Algo assim.
Samuel respirou fundo.
_ Tudo bem, foda-se. Boa noite, Sophia.
_ Boa noite, Sam.




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